quarta-feira, 21 de março de 2012

Sentido Figurado




        Sentou sem nada na cabeça. Estava com o cigarro numa mão e os fósforos na outra, o rádio tocava numa estação de mpb e ficou meia hora assim parado, ouvindo a música, como se não existisse mais nada para se fazer no mundo.
        Podia ser que pensasse em alguma coisa, mas depois não conseguiria se lembrar. O ohar perdido num ponto no infinito, parecia que estava em outro mundo.
        Viu então que sem querer havia destruído o cigarro, rodando-o entre os dedos. Daí perdeu a vontade de fumar e também não aguentou mais ficar esperando, melhor seria dar uma volta para esfriar a cabeça, e foi o que fez.
        Na rua todos andavam muito apressados; era muito interessante saber o motivo, então caminhava mantendo os olhos bem abertos para tudo e todos, tanto com o que está ao longe quanto com quem está ao lado.
        Quando os cigarros finalmente acabaram, comprou outro maço numa banca de jornais e foi ver se o Figura tinha voltado.
        E lá estava ele, deitado na rede, se embalando tranquilo, com aquele cheiro no ar que já dava para sentir desde o corredor:
        -Aí, Figura, foi mal! Fiquei cansado de esperar e aí fui dar uma volta e...
        -Trouxeste cigarro?
        -Trouxe!
        -Então passa um pra cá e ficha neste daqui.
        -Grande Figura...

terça-feira, 20 de março de 2012

Calado, Calado




        -AAAAiiiiiiiiiii!!!!!!!
        -Desculpa!
        Sem querer derrubei a garrafa no pé dele:
        -Putz, vai sair a unha!
        Pessoal é trágico mesmo, não chegou a tanto, só saiu um pouco de sangue. Contei então da vez em que fui abrir uma garrafa que quebrou e cortou meus dedos, e da outra vez em que...
        -Mas esse bicho vive se machucando!
        Mais ou menos. Tudo bem que a vida é arriscada, que a gente não tem tempo de nada, e que a impressão que dá é que todos querem se matar, ao mesmo tempo em que é foda explicar.
        Por exemplo, esse arranhão no meu braço. Um cara tentou me dar uma facada semana passada, só que eu corri bastante.
        Isso aqui foi numa briga.
        No joelho foi aquela queda andando bêbado na bike.
        Isso daqui é porque eu amolei demais a faca.
        Aqui é uma marca de tiro mesmo, infelizmente pra quem atirou, porque depois eu acertei ele de frente, que ninguém que vive na trairagem está seguro.
        Falta paciência, falta tempo, falta dinheiro, disposição, coragem e um pouco mais de força de vontade, pois senão a gente acaba não fazendo nada.
        E no fim das contas só quer um pouco de paz.


segunda-feira, 19 de março de 2012

Uma Estória Geral




        Ali a vida era mais tranquila apenas em termos, pois fazía-se muito esforço físico. Para se ter uma idéia, tinha de caminhar uns cinco quilômetros todo dia se quisesse comer pão, gênero que não podia faltar na mesa, assim como o peixe e a farinha, e às vezes um feijão com arroz quando dava.
       Para beber era água, café ou cachaça, as frutas da época, e acima de tudo bebia-se a calma daquele lugar. A sensação de liberdade, a amplidão do céu que se confundia com o mar no horizonte, a areia sob os pés, o calor, vento, água, e mesmo sob um teto de palha vivia-se no maior dos palácios.
        E bastaria erguer-se dali e ir embora, se tivesse vontade de ir para outros lugares.
        Com apenas um gesto mudaria novamente sua vida, mas não tinha certeza se deveria fazê-lo.
        Entre os partidários havia os que insistiam para que saísse dali, provavelmente achando que ele ia acabar se fodendo como todos os outros.
        Mas havia também os que realmente criam ser possível melhorar.
        -Melhorar o que? Está com calor, te joga na maré; com frio, veste a blusa; tens fome, come; com sede, bebe; cansado, dorme. Viva a dor e o prazer de cada dia, um dia de cada vez.    

domingo, 18 de março de 2012

Esforço Improdutivo




        Mal sentava para escrever, sua companheira chegava por trás dele e dizia:
        -Mas credo, caboco! Hoje que finalmente chegaste cedo e já vais te meter nessa porcaria! Mas pai d'égua pra ti! Larga daí e vem dormir que amanhã tens trabalho!
        -Esqueces que amanhã é minha folga?  Vou escrever um pouco, não se preocupa que depois eu durmo na rede e você nem acorda.
        -Pois se não vieres logo deitar, vou aí arrancar essa porcaria da tua mão!
        -Então toma essa porra de uma vez, sua louca, e me deixa em paz!
        Pegou um caderno, um lápis e foi sentar-se na mesa da cozinha.
        Os diálogos estavam péssimos. A prosa reduzida piorava cada vez mais e não havia jeito de melhorar.
        Podia  culpar o cansaço pelo desleixo?
        -A culpa é minha, de não organizar melhor o tempo disponível.
        -Não falei, seu filhodeumaégua, que tu ias arregar?
        "Caraio, pensei, desse jeito é muito apoio mesmo..."
        Com o tempo você descobre que não só entre os amigos, mas até na própria família, por incrível que pareça dentro da sua casa, também existe neguinho querendo te ver na merda:
        -Pois é, brother, o que se deve fazer então? Entregar-se? Com o perdão do lingüajar, mas vai te fuder, que o sol nasce todo dia, disso eu tenho certeza!
        Então continuava, pois embora às vezes perdesse horas importantes de sono naquele negócio, no outro dia fazia um esforço maior e botava o despertador para tocar mais cedo.
        Só que no fim do mês, quando venciam as contas, aquelas linhas bobas contavam como gastos, e custavam mais do que a sanidade de suas contas permitiam, embora no fim das contas, tudo fosse uma merda mesmo, então faz de conta que valia a pena.

sábado, 17 de março de 2012

A Caixa e a Bateria




        Juntou objetos diversos que dispôs numa caixa, de forma que a vontade de cada elemento ao invés de interferir na vontade do objeto próximo, se harmonizasse com ele, pois apenas dessa maneira era capaz de extrair da caixa um pensamento coerente.
        Ligou o rádio à pilhas que serviria para que o que tinha diante de si expressasse qualquer coisa, desde a música que começou a tocar logo no início, até quando aos poucos a caixa começou a transmitir a própria voz, num chiado profundo e reverberante de estação AM mal sintonizada:
        -O que faço aqui? Quem é você?
        -Meu nome é Bosco e resolvi fazer essa experiência que vi nalgum lugar; pois aí está o resultado: você! Mesmo assim ainda não tenho condições de saber se deu certo...
        A voz que saía do radinho começou a rir, e a única coisa que se ouviu durante vários segundos foi o som de uma interferência contínua, como se alguém girasse loucamente o botão do Dial entre as estações, até que pôde enfim ouvir novamente a voz dos objetos conjugados, encerrados entre as paredes de papelão da caixa:
        -Não seja ridículo! Como eu poderia ter sido criado por um ser inferior como você? Mais fácil ter sido o contrário! Aliás, por que estou no chão? Carregue-me agora e ponha-me naquela estante, para que eu possa olhá-lo de cima, seu inseto!
        Como ordenado, carregou a caixa e colocou-a na última prateleira da estante, depois ficou ali parado, esperando novas ordens.
        -Bem, assim está um pouco melhor! Agora me responda: de que preciso para dominar o mundo?
        -Para começar, mais uns cem milhões de radinhos...
        -Ótimo! Então vá e me traga imediatamente isso que você falou!
        -Sim, Caixa.
        E foi embora buscar o que havia sido ordenado.
        Então um dos objetos sentiu o que nunca havia sentido antes, como se uma força estivesse prestes a finar-se. Nesse momento tardio a Caixa finalmente se lembrou de algo que nunca deveria ter esquecido:
        -Mas traaga também assh piiiiiiiilllllh.....  

sexta-feira, 16 de março de 2012

Vindo do Chile




        Sempre que olhava em volta e nada encontrava, saía fora e ia procurar o que fazer em outro lugar, conhecer outras pessoas, bate papo sobre assuntos tão agradáveis com gente tão interessante, que nestes momentos acabava desconfiando estar sob algum encanto.
        Pois finalmente parecia que as coisas estavam saindo como o planejado, e talvez estivessem mesmo, mas sempre havia algo que incomodava a gente, aquilo que nos fazia querer abandonar tudo e ir embora a qualquer momento, com aquela sensação de que se você acredita que é possível fazer algo desta vida, então faça:
        -Senão depois estarás reclamando que a tua passagem por esta terra foi uma bosta! Mas poderia ter sido pior, se fosses uma dessas pessoas que tentam recuperar o tempo perdido e começam a fazer merdas a que não estão acostumadas, acabando por foder a paz dos outros devido a um comportamento imbecil.
        O frio conforme o cobertor, diz o provérbio: conforme o cobertor...
        Quem pode fazer o que quiser nesta vida que se considere um privelegiado.
        Se o que queres é ganhar muita grana, ou viajar, ou usar muitas drogas; até quem sabe ter amigos de verdade.
        Ou quem sabe ser feliz.
        É você quem acredita se pode ter sucesso ou não, Deus sabe o porquê, mas é a fé o unico combustível que funciona no ser humano:
        -Esperança de que tudo um dia vá melhorar...

quinta-feira, 15 de março de 2012

A Bandeira e o Pano




        Derry descobria a conjugação dos verbos na língua indígena:
        -Me veja dois caipirinhas.
        Quando veio o drink, com o bagaço do limão mais fora do que dentro do copo, junto de um pedaço de gelo solitário de procedência duvidosa boiando no meio do líquido turvo e azedo, Half perguntou:
        -Whata fuck is that  shit, man?
        Derry procurava uma forma de explicar o porquê do desleixo atávico do povo exótico daquele país tropical.
        Todo mundo fazia as maiores merdas possíveis sem se dar conta, simplesmente porque ninguém, absolutamente ninguém, era capaz de planejar nada no mínimo a médio prazo, digamos uns cinco anos pra frente.
        Parecia impossível, mas maluco não era capaz de ter a mínima idéia de como estaria sua vida nem dali a cinco dias.
        Quem vinha de um lugar um pouquinho mais evoluído, percebia que as pessoas naquela cidade, embora babacas, eram enormemente ambiciosas, além de se acharem espertas pra caralho, ou seja: o tipo perfeito de gente para ser ludibriada:
        -What do you want?
        -Me dá o teu dinheiro que aí eu invisto num negócio porreta; dando prejuízo ou lucro é tudo teu, mas eu recebo independente do resultado: trinta por cento do montante inicial investido, o que no caso é um lucro pra você, se a carteira render três vezes mais que o juro bancário ao ano, o que é bem provável nesse caso! Dá só uma olhadinha o quanto rendeu esta carteira no mês passado...
        É assim que funciona esse país: maracutaia do começo ao fim.