Deus quando criou o mundo em sua Justiça, distribuiu tudo igualmente entre os homens, que apenas devido sua natural cupidez e ganância se dispuseram a sacanear uns aos outros, juntando a maior quantidade possível de bens sob o custo do suor e da vida do próximo, até que este morra de fome aos nossos pés, exaurido de sua última gota de sangue, pouco importa.
Olhe ao redor, olhe para você: o egoísmo é tão comum que a únca coisa que pensamos em fazer com nossas vidas é acumular o que seja; é controlar aqueles que nos cercam com as ardilosidades mais miseráveis e mesquinhas, com os planos mais diabólicos, com o medo e a coerção, provando mais uma vez que o homem em seu interior é um perfeito tirano.
Mas existem coisas impossíveis de acumularmos sob o risco de perdê-las, o que é inconcebível do ponto de vista financeiro mercadológico. Ao contrário, você deveria doá-las ao maior número possível de pessoas, sob o risco de algo morrer para sempre dentro de você, feito um animal sufocado dentro duma caixa escura:
-E o que é isso que dá pra sair distribuindo assim? Com certeza não é dinheiro!
Não sei. E se for dinheiro? Pode ser qualquer coisa que exista, mas pode ser também algo que não exista, que só pode vir à tona neste mundo através de uma disposição de espírito particular das pessoas em seus atos, independentemente do ato. Por que não distribuir dinheiro? Ou sorrisos, ou abraços, um bom dia, um carro conversível, um elogio, um afago, uma boa música, um assobio, uma garrafa de birita, qualquer coisa que você queira dar para quem quer que seja, mas que esse alguém possa olhar no fundo de seus olhos e agradecer-lhe com toda a sinceridade da alma.
Contos em geral, aproveitando a oportunidade da vida dada por Deus, o que gera enormes dúvidas quanto ao destino de cada um frente essa coisa chamada morte. Como um exercício de estar no mundo e de crescimento espiritual, aprendizado e diversão, contribuindo com a construção de uma pessoa melhor consigo mesma e com os outros.
sábado, 31 de dezembro de 2011
sexta-feira, 30 de dezembro de 2011
O Conto Mais Feliz do Mundo
Hoje quando acordei senti que algo estranho tinha acontecido: todos os meus problemas, de alguma forma, haviam cessado, e eu continuava vivo. Tinha dinheiro no bolso, morava num lugar aprazível, tinha poucos bens, mas os que pussuía eram-me úteis e o restante não fazia tanta falta. Era jovem e tinha toda minha vida pela frente.
Minha namorada era mais nova do que eu, bonita, inteligente, poderia ficar em casa só no venha à nós, mas preferiu estudar,enfim, uma pessoa correta. Liguei pra ela e marcamos de se encontrar no bar, lógico:
-Você não vai acreditar, parece piada das Organizações Tabajara!
-Seus problemas acabaram?
-Não é possível, devo estar sonhando...
-Então estamos no mesmo sonho, pois eu tenho certeza de que estou acordada!
-Putz, isso é pior ainda! Pela minha experiência, devo estar sonhando sozinho. Aliás, se isso aqui é um sonho, é porque a realidade deve ser um pesadelo, eu devo ter apagado bêbado em alguma esquina, alguém deve ter tentado me assaltar, eu devo ter brigado com o vagabundo, ele deve ter me acertado com uma pernamanca, eu devo estar quase entrando em coma no meio da rua, ou antes disso, vou no no mínimo ser atropelado por um carro!
Depois de tentar voltar à realidade, finalmente recobrei a consciência e consegui desviar de um ônibus que passou voando tirando um fino da minha cabeça. A liga da paulada passou na hora:
-Putaqueopariu! Valha-nos Deus!
E nesse momento, quando aquela luz cegante veio como uma bala diretamente na direção dos meus olhos, pude abri-los e acordei num lugar extremamente familiar, embora com a certeza de nunca ter posto os pés ali, talvez estivesse morto, vai saber. Perguntei pro figura do meu lado:
-Aqui é o céu?
-Êh Bartuca! Saca só a liga do brother no sofá, tá no paraíso!
-Ih, é mermo, olha lá! Saca só essa cara dele!
Quem era aquela gente? Nunca vira nenhum deles antes, mesmo depois que um figura descolou um copo cheio duma birita forte, menos ainda quando uma moça bonita com os lábios cheios e um perfume gostoso de alfazema sentou do meu lado e começou a me beijar, e pode ser que um pouco mais eu descubra de onde veio essa gente toda com essa cana e principalmente: para onde está indo essa morena deliciosa com a língua macia, macia?
Minha namorada era mais nova do que eu, bonita, inteligente, poderia ficar em casa só no venha à nós, mas preferiu estudar,enfim, uma pessoa correta. Liguei pra ela e marcamos de se encontrar no bar, lógico:
-Você não vai acreditar, parece piada das Organizações Tabajara!
-Seus problemas acabaram?
-Não é possível, devo estar sonhando...
-Então estamos no mesmo sonho, pois eu tenho certeza de que estou acordada!
-Putz, isso é pior ainda! Pela minha experiência, devo estar sonhando sozinho. Aliás, se isso aqui é um sonho, é porque a realidade deve ser um pesadelo, eu devo ter apagado bêbado em alguma esquina, alguém deve ter tentado me assaltar, eu devo ter brigado com o vagabundo, ele deve ter me acertado com uma pernamanca, eu devo estar quase entrando em coma no meio da rua, ou antes disso, vou no no mínimo ser atropelado por um carro!
Depois de tentar voltar à realidade, finalmente recobrei a consciência e consegui desviar de um ônibus que passou voando tirando um fino da minha cabeça. A liga da paulada passou na hora:
-Putaqueopariu! Valha-nos Deus!
E nesse momento, quando aquela luz cegante veio como uma bala diretamente na direção dos meus olhos, pude abri-los e acordei num lugar extremamente familiar, embora com a certeza de nunca ter posto os pés ali, talvez estivesse morto, vai saber. Perguntei pro figura do meu lado:
-Aqui é o céu?
-Êh Bartuca! Saca só a liga do brother no sofá, tá no paraíso!
-Ih, é mermo, olha lá! Saca só essa cara dele!
Quem era aquela gente? Nunca vira nenhum deles antes, mesmo depois que um figura descolou um copo cheio duma birita forte, menos ainda quando uma moça bonita com os lábios cheios e um perfume gostoso de alfazema sentou do meu lado e começou a me beijar, e pode ser que um pouco mais eu descubra de onde veio essa gente toda com essa cana e principalmente: para onde está indo essa morena deliciosa com a língua macia, macia?
quinta-feira, 29 de dezembro de 2011
Vagamente Alguma Coisa
Sentados na grama: o Chuky abraçado na 51, o Sonca bolando um pastel na maciota, o Glauber falando sem parar com o Bispo travadão, eu olhando pra todos os lados com o cú na mão, morrendo de medo da polícia chegar e dar o flagrante.
Era sujeira bolar ali, mas foda-se, era domingo e tinha gente pra caralho circulando na praça, por todos os cantos o cheiro da erva exalava no ar, em plenas três da tarde.
Dezenas de moleques desocupados, em grupos espalhados pela grama ou sentados no coreto, tomavam vodka com refrigerante e fumavam aquela merda de derby prata que quase não solta fumaça e a gente tem que acender um atrás do outro.
Nesse dia o Marofa estava quieto, trepado no corrimão da escada do Monumento, com uma garrafa pela de Cantina das Trevas pela metade no colo, olhando pro vazio, fumando e ouvindo metal no celular, o que não pareceu bom sinal. Cheguei perto e perguntei o que havia, ele me olhou e disse:
-Senta aí...
Da primeira vez que falei com ele, achei que não tinha ido com a minha cara, e não foi mesmo.
Acontece que era assim que ele tratava todo mundo, sempre com aquele jeito meio brabo e um humor agressivo, que no começo causou-me certa antipatia.
A conversa foi um tanto esquisita. o Marofa comentou o movimento àquela hora de pessoas fumando maconha e bebendo, como se todo mundo houvesse enlouquecido. De como era difícil pra ele frequentar o mesmo lugar todo fim de semana por não ter mais para onde ir, que era tudo um saco, pois achava o país uma sacanagem, política, religião, futebol, e falou mais um monte de coisas que não prestei atenção, aquilo realmente era um saco, até que enfim calou-se.
Tentei ser amistoso e comentei alguma merda do tipo: "É por isso que eu prefiro cachaça, fermentado bate deprê!". Ele olhou pra mim como se quisesse sentar aquela garrafa na minha cabeça, mas era de plástico, a garrafa, não minha cabeça, então apenas desenroscou a tampa e tomou outro gole.
Ficamos um tempão calados. Finalmente tentei ser legal e ofereci um gole da minha birita, que ele recusou, depois fui embora, pensando comigo que afinal não se deve misturar fermentado com destilado na mesma bebedeira.
Era sujeira bolar ali, mas foda-se, era domingo e tinha gente pra caralho circulando na praça, por todos os cantos o cheiro da erva exalava no ar, em plenas três da tarde.
Dezenas de moleques desocupados, em grupos espalhados pela grama ou sentados no coreto, tomavam vodka com refrigerante e fumavam aquela merda de derby prata que quase não solta fumaça e a gente tem que acender um atrás do outro.
Nesse dia o Marofa estava quieto, trepado no corrimão da escada do Monumento, com uma garrafa pela de Cantina das Trevas pela metade no colo, olhando pro vazio, fumando e ouvindo metal no celular, o que não pareceu bom sinal. Cheguei perto e perguntei o que havia, ele me olhou e disse:
-Senta aí...
Da primeira vez que falei com ele, achei que não tinha ido com a minha cara, e não foi mesmo.
Acontece que era assim que ele tratava todo mundo, sempre com aquele jeito meio brabo e um humor agressivo, que no começo causou-me certa antipatia.
A conversa foi um tanto esquisita. o Marofa comentou o movimento àquela hora de pessoas fumando maconha e bebendo, como se todo mundo houvesse enlouquecido. De como era difícil pra ele frequentar o mesmo lugar todo fim de semana por não ter mais para onde ir, que era tudo um saco, pois achava o país uma sacanagem, política, religião, futebol, e falou mais um monte de coisas que não prestei atenção, aquilo realmente era um saco, até que enfim calou-se.
Tentei ser amistoso e comentei alguma merda do tipo: "É por isso que eu prefiro cachaça, fermentado bate deprê!". Ele olhou pra mim como se quisesse sentar aquela garrafa na minha cabeça, mas era de plástico, a garrafa, não minha cabeça, então apenas desenroscou a tampa e tomou outro gole.
Ficamos um tempão calados. Finalmente tentei ser legal e ofereci um gole da minha birita, que ele recusou, depois fui embora, pensando comigo que afinal não se deve misturar fermentado com destilado na mesma bebedeira.
quarta-feira, 28 de dezembro de 2011
Ela Só Consegue Ser Feliz
Joaquim ligou para sua namorada e combinaram de se encontrar no bar de sempre. Quando ele chegou, Adriana já estava na terceira garrafa.
-Foi mal, amor, desculpa a demora, o trânsito é uma merda! Põe um pouco aqui no meu copo.
-Então pede outra enquanto eu vou no banheiro, que essa acabou.
-Garçom!
Quando ela se levantou, os caras da mesa ao lado ficaram olhando descaradamente. Na certa já vinham chavecando a menina há um bom tempo, pela cara de porcos e pelo número de garrafas em cima da mesa:
-Peguei outra dessas que você estava tomando. Viu só o jeito desses figuras aqui atrás olhando pra você?
-Claro! Desde a hora que sentei eles começaram, mas tu achas que vou dar papo pra esses moleques bêbados?
-Por que não disse que estava me esperando?
-Mais fácil dizer que estava esperando um filho, né? Demoraste pra caramba*!
-Foi por causa dum engarrafamento, é que teve um acidente e...
-Sei, sei. Vem cá, eu pensei uma coisa agora no banheiro e queria te falar...
-Ótimo lugar para pensar!
-Escuta. Está acontecendo agora tudo isso com a gente: parece que tens tua vida e não te importas muito comigo, eu contei daquela coisa que aconteceu no mês passado, que soubestes só porque eu te falei, mas mesmo assim, como por exemplo este atraso de hoje, não achas que é difícil da gente continuar se vendo desse jeito?
Joaquim quase caiu da cadeira. Viver continuava difícil como sempre, mas pelo menos conhecer alguém como ela era um alívio da chatice e empulhação a que se é submetido à força diariamente:
-Mas Dri, escuta só:
(Infelizmente nessa hora algo travou sua língua. De todas as razões que poderia imaginar para que ela não o abandonasse, nenhuma delas parcia o mínimo convincente. Na verdade, qualquer argumento que pudesse levantar em seu favor soaria tão miseravelmente egoísta que era capaz dela odiá-lo pelo resto da vida, por sua mesquinhez e pequeneza, por se rebaixar a tal ponto de querer prender uma beleza para si, ao invés de deixá-la levantar vôo e cantar sua felicidade pro mundo, que um passarinho bonito como aquele não foi feito para viver preso numa gaiola.)
-Foi mal, amor, desculpa a demora, o trânsito é uma merda! Põe um pouco aqui no meu copo.
-Então pede outra enquanto eu vou no banheiro, que essa acabou.
-Garçom!
Quando ela se levantou, os caras da mesa ao lado ficaram olhando descaradamente. Na certa já vinham chavecando a menina há um bom tempo, pela cara de porcos e pelo número de garrafas em cima da mesa:
-Peguei outra dessas que você estava tomando. Viu só o jeito desses figuras aqui atrás olhando pra você?
-Claro! Desde a hora que sentei eles começaram, mas tu achas que vou dar papo pra esses moleques bêbados?
-Por que não disse que estava me esperando?
-Mais fácil dizer que estava esperando um filho, né? Demoraste pra caramba*!
-Foi por causa dum engarrafamento, é que teve um acidente e...
-Sei, sei. Vem cá, eu pensei uma coisa agora no banheiro e queria te falar...
-Ótimo lugar para pensar!
-Escuta. Está acontecendo agora tudo isso com a gente: parece que tens tua vida e não te importas muito comigo, eu contei daquela coisa que aconteceu no mês passado, que soubestes só porque eu te falei, mas mesmo assim, como por exemplo este atraso de hoje, não achas que é difícil da gente continuar se vendo desse jeito?
Joaquim quase caiu da cadeira. Viver continuava difícil como sempre, mas pelo menos conhecer alguém como ela era um alívio da chatice e empulhação a que se é submetido à força diariamente:
-Mas Dri, escuta só:
(Infelizmente nessa hora algo travou sua língua. De todas as razões que poderia imaginar para que ela não o abandonasse, nenhuma delas parcia o mínimo convincente. Na verdade, qualquer argumento que pudesse levantar em seu favor soaria tão miseravelmente egoísta que era capaz dela odiá-lo pelo resto da vida, por sua mesquinhez e pequeneza, por se rebaixar a tal ponto de querer prender uma beleza para si, ao invés de deixá-la levantar vôo e cantar sua felicidade pro mundo, que um passarinho bonito como aquele não foi feito para viver preso numa gaiola.)
terça-feira, 27 de dezembro de 2011
Trabalhos e Livros
Sabia quem era, mais de nome que pessoalmente. A gente se via três vezes por semana na turma onde eu pagava uma matéria, e ela ficava mais na dela. Só que niguém passa despercebido, embora existam pessoas que pela maneira, pelos gestos contidos, pelas atitudes simples em meio a um grupo não se fazem notar, que se misturam facilmente na multidão e sentem-se bem assim.
Ela fazia parte desse grupinho que sentava sempre junto, conversavam, gritavam, riam. Vestia-se normalmente, sem chamar muita atenção para seu corpo, talvez pelo ambiente de sala aula mais que pelo gosto pessoal, o que às vezes não dava certo, pois quando vinha com uma saia um pouco curta ou qualquer coisa assim, era engraçado ver até outras mulheres virarem a cabeça para olhar quando ela passava perto.
Teve esse um trabalho que valia a última nota, e por que cargas d'água fui acabar na mesma equipe com ela e duas pessoas, nunca vou ficar sabendo. A gente dividiu o que cada um ia pesquisar, pessoal se virando como podia, que no final bastava juntar tudo e fazer as emendas necessárias para entregar a parte impressa, e quem tivesse dúvidas botava direto no grupo de discussão, pois o professor, embora fosse um pós-doutor super-ocupado, era bacana com os graduandos e se dignava a responder o que julgava pertinente, iluminando o caminho do que ele mesmo queria que fizéssemos.
Só que ela estava com muitas dúvidas sobre a sua parte, que era praticamente o complemento da que estava sob minha responsabilidade, além do que eu tinha visto aquela matéria toda no ano passado, então nada mais natural do que, depois de alguns encontros na biblioteca, ela me convidasse a concluir a parte que faltava na casa dela, onde bastaria juntar o que havíamos feito com a parte que os outros enviariam e corrigir o necessário.
Como ela estava só nesse dia, os pais haviam viajado ou saído, terminamos o que faltava sentados conversando no sofá, sem prestar atenção no filme que ela tinha colocado pra rolar, um negócio sobre arte eu acho, até que reparei na estante e comentei quantos livros bacanas ela tinha ali.
-Eu sei, mas são da minha mãe. Ela lê muito, eu só os meus preferidos.
-E quais seriam?
-Nem todos dessa estante...
Me levou no quarto dela e me mostrou seus preferidos: Rubem Fonseca, Gabriel Garcia Márquez, Dostoiévski, mais Caio Fernando Abreu, Clarice Lispector, Bukowsky e toda essa literatura pop de grande valor artístico. Mas foi quando ela tirou guardado de dentro de uma gaveta numa mesinha ao lado da cama, e me mostrou um livro meio surrado, com as pontas das páginas puídas e a capa presa com durex, que algo me tocou por dentro e me fez estremecer:
-Mas este aqui ó, é o meu livro de cabeceira, viu? Gosto tanto que não me canso de ler!
Eu olhei pra ela, peguei o livro que não era o melhor do mundo, mas cuja estória eu poderia comparar à minha vida, e que vinha cruzando-a em diferentes situações desde a primeira vez que o havia tido em mãos, mas que nunca tinha conseguido lê-lo todo, e que naquele momento me fez perceber o quão especial era aquela garota aparentemente tão simples e sem mistérios.
E passamos com conceito excelente.
segunda-feira, 26 de dezembro de 2011
Existência Infinita
A gente vinha andando pela calçada, ela falava de como estava sua vida, o que achava que deveria mudar, os planos que tinha pro futuro, enfim, das coisas que fazem a nossa existência um pouco menos pesada.
-Sabe, e eu gostaria que tudo isso pudesse ser do teu lado...
Ela continuou falando, pois não respondi nada, apenas escutava o que ela tinha a dizer, e deixava que o som daquela voz doce entrasse em meus ouvidos, mostrando que ainda é possível encontrar pessoas decentes, com vontade de correr atrás dos seus sonhos e modificar o mundo ao redor.
Ela calou durante alguns minutos. Apertava minha mão entre as suas, agora a incompreensão transformara-se em raiva, talvez por seu interlocutor também não saber o que dizer:
-O que falta então pra você realmente começar essa busca?
-Eu não sei. Talvez falte primeiramente alguém do meu lado, aí sim mais tranquila posso voltar meus esforços para outros objetivos.
-É uma boa idéia, pois a cada objetivo alcançado você muda o foco para o passo seguinte, assim não desperdiça energias e consegue executar o maior número de coisas em menos tempo!
-E qual a coisa que posso ter em menos tempo que vai fazer tão feliz a minha vida?
Tanta coisa. Tanta coisa você poderia ter nesse exato momento que faria mais feliz a sua vida, de cada objeto ou pessoas que existam ao seu redor é possível tirar um aprendizado. Se a cada gesto de nosso corpo, se a cada pensamento em nossa vida, acaso tenha uma lição a ser aprendida, por que estaríamos nós a ignorá-la?
-Temos um mestre que nos ensina que a felicidade está nas menores coisas assim como nas maiores...
-Eu entendo. Você acha que não, mas eu compreendo. Pergunto-me sempre como pode num coração diminuto como o meu, um simples pedaço de carne, caber tanto amor por uma pessoa e tanta vontade de ser feliz ao lado dela?
-...
-Sabe, e eu gostaria que tudo isso pudesse ser do teu lado...
Ela continuou falando, pois não respondi nada, apenas escutava o que ela tinha a dizer, e deixava que o som daquela voz doce entrasse em meus ouvidos, mostrando que ainda é possível encontrar pessoas decentes, com vontade de correr atrás dos seus sonhos e modificar o mundo ao redor.
Ela calou durante alguns minutos. Apertava minha mão entre as suas, agora a incompreensão transformara-se em raiva, talvez por seu interlocutor também não saber o que dizer:
-O que falta então pra você realmente começar essa busca?
-Eu não sei. Talvez falte primeiramente alguém do meu lado, aí sim mais tranquila posso voltar meus esforços para outros objetivos.
-É uma boa idéia, pois a cada objetivo alcançado você muda o foco para o passo seguinte, assim não desperdiça energias e consegue executar o maior número de coisas em menos tempo!
-E qual a coisa que posso ter em menos tempo que vai fazer tão feliz a minha vida?
Tanta coisa. Tanta coisa você poderia ter nesse exato momento que faria mais feliz a sua vida, de cada objeto ou pessoas que existam ao seu redor é possível tirar um aprendizado. Se a cada gesto de nosso corpo, se a cada pensamento em nossa vida, acaso tenha uma lição a ser aprendida, por que estaríamos nós a ignorá-la?
-Temos um mestre que nos ensina que a felicidade está nas menores coisas assim como nas maiores...
-Eu entendo. Você acha que não, mas eu compreendo. Pergunto-me sempre como pode num coração diminuto como o meu, um simples pedaço de carne, caber tanto amor por uma pessoa e tanta vontade de ser feliz ao lado dela?
-...
domingo, 25 de dezembro de 2011
A Bailarina Azul
Ela estava acostumada a esperar pelo pior, não: acostumada a passar pelo pior.
Tinha como inconcebível a idéia de que as coisas um dia poderiam dar certo, só que na verdade era muito jovem, não havia vivido ainda o suficiente para tomar sozinha suas decisões embora o que decidisse afetasse à todos em sua volta, e nunca chegava a consultar nenhum deles:
-Quero só ver, sou de maior, já ganho meu dinheiro, vou morar com quem quiser e onde quiser, pois não aguento mais viver com a senhora sob o mesmo teto!
-Mas minha filha, tens só vinte anos, não existe a mínima condição de viveres tu e esse garoto, que eu nem sei direito quem é!
-Olha lá como a senhora fala que o Fabiano não é mais nenhum garoto, ele já vai fazer vinte e cinco anos!
O que ela queria realmente não era viver com o Fabiano, mas como ainda não conhecia suficientemente a si mesma, estava resolvida a experimentar o tanto quanto possível até um dia descobrir, embora disso também não soubesse e precisasse descobrir vivendo que ainda havia muito por descobrir na vida:
-Ufa! Essa foi a última, né amor?
-Ai, Bianô! Nem acredito que a partir de hoje a gente mora junto! Mesmo faltando comprar algumas coisas, já dá pra gente dormir aqui assim que montares a cama ali onde eu falei, aí depois a gente traz o resto das caixas!
-Ainda tem mais?
E tinham muitas, e sempre haveriam caixas e mais caixas, das mais variadas formas e tamanhos, e os anos se passariam, e a vida passaria depressa e não os deixaria perceber que iam acumulando caixas e caixas cheias de coisas inúteis, repletas de trastes que atraíam bichos e poeira, outras apodrecendo com a sujeira e o mofo de um tempo já desbotado na memória, até que enfim descobrissem que não precisavam de nada daquilo, que a nossa casa não é um depósito, que a companhia de alguém que amamos desfruta-se melhor em ambientes arejados.
Tinha como inconcebível a idéia de que as coisas um dia poderiam dar certo, só que na verdade era muito jovem, não havia vivido ainda o suficiente para tomar sozinha suas decisões embora o que decidisse afetasse à todos em sua volta, e nunca chegava a consultar nenhum deles:
-Quero só ver, sou de maior, já ganho meu dinheiro, vou morar com quem quiser e onde quiser, pois não aguento mais viver com a senhora sob o mesmo teto!
-Mas minha filha, tens só vinte anos, não existe a mínima condição de viveres tu e esse garoto, que eu nem sei direito quem é!
-Olha lá como a senhora fala que o Fabiano não é mais nenhum garoto, ele já vai fazer vinte e cinco anos!
O que ela queria realmente não era viver com o Fabiano, mas como ainda não conhecia suficientemente a si mesma, estava resolvida a experimentar o tanto quanto possível até um dia descobrir, embora disso também não soubesse e precisasse descobrir vivendo que ainda havia muito por descobrir na vida:
-Ufa! Essa foi a última, né amor?
-Ai, Bianô! Nem acredito que a partir de hoje a gente mora junto! Mesmo faltando comprar algumas coisas, já dá pra gente dormir aqui assim que montares a cama ali onde eu falei, aí depois a gente traz o resto das caixas!
-Ainda tem mais?
E tinham muitas, e sempre haveriam caixas e mais caixas, das mais variadas formas e tamanhos, e os anos se passariam, e a vida passaria depressa e não os deixaria perceber que iam acumulando caixas e caixas cheias de coisas inúteis, repletas de trastes que atraíam bichos e poeira, outras apodrecendo com a sujeira e o mofo de um tempo já desbotado na memória, até que enfim descobrissem que não precisavam de nada daquilo, que a nossa casa não é um depósito, que a companhia de alguém que amamos desfruta-se melhor em ambientes arejados.
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