Amava? Odiava? Quem? A si e ao pai que a abandonara, a mãe cheia de caprichos, a irmã de quem tinha ciúmes e o próprio filho, prova viva de um fracasso.
O pai conhecia por fotos, mas mesmo assim não prestava, pois era o que a mãe sempre dizia, que todo homem não prestava. A irmã achava que tinha nascido junto com o mundo, que bastava crescer os peitos e a bunda para tornar-se uma mulher de verdade. Certamente é mais fácil trilhar um caminho já percorrido do que se perder pelo desconhecido. E ela, o que fazia?
Seu filho era do homem que a trocara por outra, quem sabe outras, muitas, várias, não importava. Nada valia preocupar-se com quem não era mais seu. Tinha agora um longo futuro pela frente a estender-se por gerações. O próximo passo, assim como os anteriores, irreversível em direção à cova, mas desta vez com a consciência do fim desejado, educar e alimentar a prole.
"Vivemos na escuridão. Apenas um Deus poderia encontrar o caminho."
Ela foi procurar o Deus que daria sentido aos seus atos, mas como mulher procurou-o no único lugar onde estava acostumada: nos outros ao invés de dentro de si. Num marido, num filho, num pano rasgado e um monte de tijolos, num sonho:
-A porta está aberta! Convido todos a entrar!
Mas parecia satisfeita. Milênios de cultura, sabedoria e civilização e ela ainda se fingia de sonsa.
Orgulhosa de ter encontrado e poder mostrar aos outros como supostamente fora fácil. Assim como quem dá uma topada num pedregulho e pragueja de dor, alardeava a felicidade de um dedo do pé quebrado:
-Não estou chorando, isto são lágrimas de alegria! Ha ha ha ha ha ha...
Algo em seu coração queria ver o filho morto, bastando para isso enforcá-lo numa árvore, pendurar-se por misericórdia em suas pernas, o peso extra trazendo-lhe um fim rápido e indolor. Viu o rostinho congestionado pelo sangue pondo a língua para fora, até findar-se a respiração num último espasmo que não chegaria a se completar.
"Chorem os céus. Que as lágrimas encharquem esta terra e que passado e futuro sejam tragados pelas ondas do esquecimento. Que não sobre memória ou esperança onde agarrar-se ante a tragédia dos homens: que castigo pior que as trevas da morte merecemos pela nossa iniqüidade?"
Contos em geral, aproveitando a oportunidade da vida dada por Deus, o que gera enormes dúvidas quanto ao destino de cada um frente essa coisa chamada morte. Como um exercício de estar no mundo e de crescimento espiritual, aprendizado e diversão, contribuindo com a construção de uma pessoa melhor consigo mesma e com os outros.
quarta-feira, 30 de novembro de 2011
terça-feira, 29 de novembro de 2011
Jogue Futebol
As manhãs nubladas são as melhores. É possivel ficar cinco minutos parado sem começar a suar feito um porco numa sauna. Algumas pessoas pensam melhor quietas no seu canto, outras enquanto caminham, outras ainda enquanto bebem ouvindo música e batendo papo com os amigos, como Joelderson Barroso, sentado conversando no bar há mais de meia hora sem entender qual o assunto da conversa:
-Pois eu sou assim, quando digo é na lata!
-E eu odeio falsidade!
-Peraí gente, que é minha mãe ligando e eu disse que ia estudar na casa da Lia!
-Na minha casa? Se ela ligar vão dizer que eu fui pro cinema contigo, Islene!
-Comigo? Então vou dizer que a gente foi assistir aquele filme de vampiro com aquele pão, como é mesmo o nome dele?
-Só se for pão de hot-dog, porque ele adora uma salsicha!
-Huá, huá, huá, huá, huá! Esse Alfredo é foda! Garçom, traz lá uma cerveja e diz que é pro Ricardo!
-E outra dose dessa mesma cana, faz favor...
O legal de tomar birita rodeado dos amigos é que você pode aprender muitas coisas, principalmente se gostar de piadas sujas, fofocas e segredos de todos os tipos e tamanhos, no caso de haver apenas homens na mesa, e de voltar pra casa sozinho. Pois aquela mesa era uma vergonha, todo mundo já tinha ficado com todo mundo, e quando o papo começava a tomar esse rumo significava que era melhor ir embora:
-Lembras quando ficavas com o Alfredo, lia?
-Mas na época eu ainda não conhecia o Ricardo, né amor?
-E foi o Joelderson quem nos apresentou, porque eu tinha ficado afins da Islene que era namorada dele!
-Mas logo que a gente começou a ficar tu pegaste ela, né, seu safado!
-Huá, huá, huá, huá, huá! E ela ainda estava contigo, Joelderson! Se tem uma coisa que eu gosto na lene é que ela te botou um par de chifres! Huá, huá, huá, huá, huá...
-Não fala assim, Ricardo, não foi nada disso! A gente tinha um relacionamento aberto, não é mesmo, Joel?
-Será que vocês poderiam mudar de assunto, faz favor...
Outra coisa super divertida é lembrar os foras e traições do passado. Ou não, tem muita gente que sente prazer em espezinhar os outros, já que pimenta no cú alheio não arde:
-Huá, Huá, huá, huá! Olha só, ele ficou puto! Huá, huá, huá, huá, huá!
-Qual é, mermão, é só brincadeira do Ricardo! Vais dizer que ainda és afim da Islene?
Ele encarou os olhos sonolentos e meio bêbados da amiga ao lado, quase que sorrindo para ele, aguardando a resposta com uma contração estranha no canto dos lábios, e convenceu-se de que só tinha uma coisa a fazer:
-lamento aí galera, mas lembrei que marquei uma bola com o pessoal da rua, valeu pela companhia, taí a minha parte. Tchau Lene e Lia, falou seus pilantras...
-Já vais embora? Esse Joelderson é mesmo um camarada... Cuidado com o chifre para não furar a bola! Huá, huá, huá, huá, huá, huá, huá, huá!
-Pois eu sou assim, quando digo é na lata!
-E eu odeio falsidade!
-Peraí gente, que é minha mãe ligando e eu disse que ia estudar na casa da Lia!
-Na minha casa? Se ela ligar vão dizer que eu fui pro cinema contigo, Islene!
-Comigo? Então vou dizer que a gente foi assistir aquele filme de vampiro com aquele pão, como é mesmo o nome dele?
-Só se for pão de hot-dog, porque ele adora uma salsicha!
-Huá, huá, huá, huá, huá! Esse Alfredo é foda! Garçom, traz lá uma cerveja e diz que é pro Ricardo!
-E outra dose dessa mesma cana, faz favor...
O legal de tomar birita rodeado dos amigos é que você pode aprender muitas coisas, principalmente se gostar de piadas sujas, fofocas e segredos de todos os tipos e tamanhos, no caso de haver apenas homens na mesa, e de voltar pra casa sozinho. Pois aquela mesa era uma vergonha, todo mundo já tinha ficado com todo mundo, e quando o papo começava a tomar esse rumo significava que era melhor ir embora:
-Lembras quando ficavas com o Alfredo, lia?
-Mas na época eu ainda não conhecia o Ricardo, né amor?
-E foi o Joelderson quem nos apresentou, porque eu tinha ficado afins da Islene que era namorada dele!
-Mas logo que a gente começou a ficar tu pegaste ela, né, seu safado!
-Huá, huá, huá, huá, huá! E ela ainda estava contigo, Joelderson! Se tem uma coisa que eu gosto na lene é que ela te botou um par de chifres! Huá, huá, huá, huá, huá...
-Não fala assim, Ricardo, não foi nada disso! A gente tinha um relacionamento aberto, não é mesmo, Joel?
-Será que vocês poderiam mudar de assunto, faz favor...
Outra coisa super divertida é lembrar os foras e traições do passado. Ou não, tem muita gente que sente prazer em espezinhar os outros, já que pimenta no cú alheio não arde:
-Huá, Huá, huá, huá! Olha só, ele ficou puto! Huá, huá, huá, huá, huá!
-Qual é, mermão, é só brincadeira do Ricardo! Vais dizer que ainda és afim da Islene?
Ele encarou os olhos sonolentos e meio bêbados da amiga ao lado, quase que sorrindo para ele, aguardando a resposta com uma contração estranha no canto dos lábios, e convenceu-se de que só tinha uma coisa a fazer:
-lamento aí galera, mas lembrei que marquei uma bola com o pessoal da rua, valeu pela companhia, taí a minha parte. Tchau Lene e Lia, falou seus pilantras...
-Já vais embora? Esse Joelderson é mesmo um camarada... Cuidado com o chifre para não furar a bola! Huá, huá, huá, huá, huá, huá, huá, huá!
segunda-feira, 28 de novembro de 2011
O Cachorro e os Ossos
Minha saudade era grande, maior que o Guajará, maior que um prédio de trinta andares, maior que ganhar de sete a zero. Fui atrás dela nos locais em que costumávamos frequentar, mas em nenhum deles foi-me permitido entrar novamente:
-Mas eu preciso falar com ela!
-Ela não está aqui! Seguranças!
Na rua então era impossível achar qualquer coisa fora a imundície de sempre. Passei no mercado e peguei a birita mais escrota, sentei na sarjeta e comecei a encher os cornos de cachaça.
-Fala, truta! Manda um gole pro seu amigo...
Um desses senhores de baixíssima renda e sem problemas de IPTU sentou-se ao meu lado, mostrando um copinho de plástico que enchi só até metade:
-Esse teu copo tá rachado.
-Eu sei.
Disse e virou de uma vez o goró que poderia matar um adulto saudável, mas nele não fez nem cócegas. Perguntei se não queria mais um pouco e ele disse que achava aquilo tudo uma merda; a bebida, o próprio fedor, a vida:
-Estou dizendo, é tudo uma merda mesmo. Queres ouvir minha estória?
-Concordo com o senhor, mas não, muito obrigado, tenho que encontrar alguém e...
-Não faz mal, conto assim mesmo, é difícil encontrar quem me escute! Bem, eu tinha uma empresa lucrativa e uma casa muito boa, carro do ano, empregados e essa pessoa que eu casei porque fiz um filho. Pois bem, a grana foi diminuindo, tive que demitir gente, me deseperei, comecei a meter coca pelos tubos e quase enlouqueci. Mas antes que acontecesse o pior, minha mulher fez a gentileza de me internar e conseguiu que um juiz me interditasse enquanto eu estava na clínica, para que ela ficasse com tudo o que eu tinha. Quando saí e voltei pra casa, ela me expulsou porque tinha colocado outro cara pior que eu lá dentro. Acabei de vir de lá, onde fui pedir um prato de comida e terminei ganhando um soco.
-Putz, que merda! Toma mais um gole...
-Mas o pior é ter que tomar essa porcaria! Isso é um lixo!
O mendigo tinha razão. Porra, tanta coisa boa por aí e eu tomando uma cachaça horrível ao lado de um desqualificado em quem não tinha o mínimo interesse, com pena de si mesmo porque não passava de um bosta? Saudade é uma coisa, idiotice é outra.
Fui pra casa fazer qualquer coisa, deixando a birita para o infeliz que continuava a se lamentar da injustiça do mundo, mas que quando me viu indo embora despediu-se com uma pérola de Sabedoria da Lata do Lixo:
-É como eu digo, camarada: a vida é uma merda mesmo, mas tem certas coisas que só fazem deixá-la pior...
-Mas eu preciso falar com ela!
-Ela não está aqui! Seguranças!
Na rua então era impossível achar qualquer coisa fora a imundície de sempre. Passei no mercado e peguei a birita mais escrota, sentei na sarjeta e comecei a encher os cornos de cachaça.
-Fala, truta! Manda um gole pro seu amigo...
Um desses senhores de baixíssima renda e sem problemas de IPTU sentou-se ao meu lado, mostrando um copinho de plástico que enchi só até metade:
-Esse teu copo tá rachado.
-Eu sei.
Disse e virou de uma vez o goró que poderia matar um adulto saudável, mas nele não fez nem cócegas. Perguntei se não queria mais um pouco e ele disse que achava aquilo tudo uma merda; a bebida, o próprio fedor, a vida:
-Estou dizendo, é tudo uma merda mesmo. Queres ouvir minha estória?
-Concordo com o senhor, mas não, muito obrigado, tenho que encontrar alguém e...
-Não faz mal, conto assim mesmo, é difícil encontrar quem me escute! Bem, eu tinha uma empresa lucrativa e uma casa muito boa, carro do ano, empregados e essa pessoa que eu casei porque fiz um filho. Pois bem, a grana foi diminuindo, tive que demitir gente, me deseperei, comecei a meter coca pelos tubos e quase enlouqueci. Mas antes que acontecesse o pior, minha mulher fez a gentileza de me internar e conseguiu que um juiz me interditasse enquanto eu estava na clínica, para que ela ficasse com tudo o que eu tinha. Quando saí e voltei pra casa, ela me expulsou porque tinha colocado outro cara pior que eu lá dentro. Acabei de vir de lá, onde fui pedir um prato de comida e terminei ganhando um soco.
-Putz, que merda! Toma mais um gole...
-Mas o pior é ter que tomar essa porcaria! Isso é um lixo!
O mendigo tinha razão. Porra, tanta coisa boa por aí e eu tomando uma cachaça horrível ao lado de um desqualificado em quem não tinha o mínimo interesse, com pena de si mesmo porque não passava de um bosta? Saudade é uma coisa, idiotice é outra.
Fui pra casa fazer qualquer coisa, deixando a birita para o infeliz que continuava a se lamentar da injustiça do mundo, mas que quando me viu indo embora despediu-se com uma pérola de Sabedoria da Lata do Lixo:
-É como eu digo, camarada: a vida é uma merda mesmo, mas tem certas coisas que só fazem deixá-la pior...
domingo, 27 de novembro de 2011
Monte dos Sonhos
O vento era capaz de derrubar as pessoas, deixando-as prostradas com o corpo dolorido, os ossos gelados e a respiração difícil. Mal insidioso que se não fosse logo tratado levava-as à morte em menos de duas semanas.
Era estranho naquela terra como o fato ocorria: geralmente pelas sete, oito horas, quando a escuridão já estava completamente instalada, vinha aquele primeiro pé de vento que era considerado o mais perigoso: continha o germe da moleza e da preguiça invencíveis, contaminando mais facilmente quem se arriscava abrindo as janelas exatamente nesse horário.
Durava cerca de quinze minutos o miasma travestido de brisa, cujos sintomas vinham sendo notados em parcela cada vez maior da população. É possível que o efeito deletério dessa massa de ar seja acumulativo, então daqui algumas gerações todos nós estaremos prostados no fundo de uma cama, e será a extinção da raça humana.
Não sabiam ao certo se o vento deixava mesmo as pessoas doentes. Nesse caso havia uma solução, talvez a pior de todas, e estava prestes a ser tomada: Assumiriam todos os riscos que seriam deixados aos netos e bisnetos no futuro, ao impedir o ar maligno de circular, bastando gastar uma fortuna construindo um muro de um qulômetro de altura e mil de comprimento isolando a região.
O miasma impregnante continuava a movimentar-se, desta vez na direção de onde concentravam-se os resíduos da energia do pôr-do-sol, a que os cientistas chamavam Poeira Solar Espacial, e como toda e qualquer poeira cósmica esta fazia mal aos pulmões, ainda mais numa terra onde, com ou sem fluidos atmosféricos circulando, corações e mentes viviam encharcados.
Formalizou-se então uma parceria Privada-Pública, ou seja, o governo jogava dinheiro na privada e os empreiteiros davam descarga, depois do tal muro anti-brisas, que desde o começo era uma verdadeira cagada e nunca ia funcionar como devia, mas tinha sido levado adiante para que alguns privilegiados metessem a mão numa grana preta.
As mortes continuaram sempre, já que o motivo das pessoas derrubadas sem forças era o mosquito transmissor da malária que alimenta-se precisamente depois do pôr-do-sol, ocasionando ao cidadão uma febre danada e uma moleza de morte pelo corpo.
A obra gastou o que pôde e o que não pôde. Destruiram a paisagem e alguns sonhos; jogaram tempo e dinheiro fora para no fim das contas erguerem um tapume gigante. Dinheiro que faltou para fazer coisas realmente úteis, como tentar interromper o ciclo de miséria neste país ao invés de incrementá-lo, metendo goela abaixo do povo ignorante uma maracutaia injustificável e fraudulenta na maior cara-de-pau, só para variar.
Era estranho naquela terra como o fato ocorria: geralmente pelas sete, oito horas, quando a escuridão já estava completamente instalada, vinha aquele primeiro pé de vento que era considerado o mais perigoso: continha o germe da moleza e da preguiça invencíveis, contaminando mais facilmente quem se arriscava abrindo as janelas exatamente nesse horário.
Durava cerca de quinze minutos o miasma travestido de brisa, cujos sintomas vinham sendo notados em parcela cada vez maior da população. É possível que o efeito deletério dessa massa de ar seja acumulativo, então daqui algumas gerações todos nós estaremos prostados no fundo de uma cama, e será a extinção da raça humana.
Não sabiam ao certo se o vento deixava mesmo as pessoas doentes. Nesse caso havia uma solução, talvez a pior de todas, e estava prestes a ser tomada: Assumiriam todos os riscos que seriam deixados aos netos e bisnetos no futuro, ao impedir o ar maligno de circular, bastando gastar uma fortuna construindo um muro de um qulômetro de altura e mil de comprimento isolando a região.
O miasma impregnante continuava a movimentar-se, desta vez na direção de onde concentravam-se os resíduos da energia do pôr-do-sol, a que os cientistas chamavam Poeira Solar Espacial, e como toda e qualquer poeira cósmica esta fazia mal aos pulmões, ainda mais numa terra onde, com ou sem fluidos atmosféricos circulando, corações e mentes viviam encharcados.
Formalizou-se então uma parceria Privada-Pública, ou seja, o governo jogava dinheiro na privada e os empreiteiros davam descarga, depois do tal muro anti-brisas, que desde o começo era uma verdadeira cagada e nunca ia funcionar como devia, mas tinha sido levado adiante para que alguns privilegiados metessem a mão numa grana preta.
As mortes continuaram sempre, já que o motivo das pessoas derrubadas sem forças era o mosquito transmissor da malária que alimenta-se precisamente depois do pôr-do-sol, ocasionando ao cidadão uma febre danada e uma moleza de morte pelo corpo.
A obra gastou o que pôde e o que não pôde. Destruiram a paisagem e alguns sonhos; jogaram tempo e dinheiro fora para no fim das contas erguerem um tapume gigante. Dinheiro que faltou para fazer coisas realmente úteis, como tentar interromper o ciclo de miséria neste país ao invés de incrementá-lo, metendo goela abaixo do povo ignorante uma maracutaia injustificável e fraudulenta na maior cara-de-pau, só para variar.
sábado, 26 de novembro de 2011
Estranha Noite Daquele Dia
Ela apareceu deitada ao meu lado folheando um livro, com uma expressão tão grave que não resisti ao impulso de admirá-la durante alguns segundos, até que levantou os olhos das páginas e me encarou:
-O que foi?
-Nada, apenas olhando você.
-Bem, estava concentrada neste livro, seria realmente bom se desses uma lida.
-O que diz aí?
-Conta estórias de pessoas que conversavam com espíritos sem perceber que se tratavam de pessoas mortas.
-É mesmo?
-Exatamente. Como entrar no ônibus e sentir que dentre os passageiros existe um que somente tu podes ver. Ou no cinema quando alguém no escuro acena em tua direção, mas ao acenderem-se as luzes a pessoa sumiu. E a sensação mais estranha, ao notares que estás sozinho neste quarto conversando com uma pessoa que não existe...
A garota simplesmente desapareceu e um calafrio percorreu-me a espinha. Fechei os olhos e comecei a rezar mentalmente. Queria gritar mas não conseguia emitir um único ruído, meu corpo estava completamente paralisado, os músculos não obedeciam. O fantasma que sumira tinha razão: embora eu tivesse enchido a caveira até mais tarde na rua, cheguei em casa naquela noite desacompanhado.
O quarto ficou novamente vazio. Aos poucos fui recuperando o movimento dos membros, até que enfim levantei e saí ainda meio atordoado, as pernas desobedecendo o comando do cérebro.
Durante instantes não pude acreditar que aquilo realmente tivesse acontecido, talvez uma peça pregada por um amigo. Imaginei se alguém não entrara sem que eu notasse.
Fui descendo confuso as escadas verificar o portão e tive que me apoiar nas paredes para não cair.
Reparei então: a porta da frente estava realmente destrancada, e eu tinha quase certeza de que chegara em casa só. E o pior era que o molho de chaves fora largado em cima da mesa da cozinha, junto com o cadeado, eu que nunca deixei a porta da frente aberta.
Estranho mesmo foi que logo em seguida a luz apagou-se deixando tudo escuro como breu. Explodiu um transformador e o meu e outros cinco bairros ficaram sem energia.
A rua de casa e portanto a minha casa estava às escuras também.
Tentei seguir em direção à cozinha assim mesmo. Já havia feito aquele trajeto milhares de vezes. Além das chaves e do cadeado, pegaria uma vela e fósforos além de um copo de aguardente para relaxar, mas no meio do caminho senti que alguém impedia-me de andar.
Olhei para baixo e vi uma mão de mulher segurando-me o pulso esquerdo, eu sem coragem levantar a cabeça e encarar o que quer que fosse, novamente paralisado, sentindo os pêlos da nuca arrepiarem-se ao escutar meu nome dito numa voz gélida, e um recado que havia sido trazido para mim:
-Cuidado com o que procuras...
sexta-feira, 25 de novembro de 2011
Todas as Letras
Como estava vivo, decidiu fazer alguma coisa. Convencera-se que os dias seriam definitivamente iguais uns aos outros dali por diante, ou seja: vinte e quatro horas com sol pela manhã até a tarde; algumas estrelas vadias e para variar a lua todo mês percorrendo cada quarto burocraticamente nos céus à noite.
Dependia apenas de si fazer com que os dias não se repetissem de forma alienante, e ele tivesse que viver congelado numa eterna segunda-feira, ainda por cima de ressaca:
-Beber no sábado!
Foi uma grande idéia. Ganhava o sábado, que daquele momento em diante virava o Dia Mundial da Cachaça, o domingo então pasava a ser o Dia Internacional da Ressaca, e a Segunda-Feira Suportável vinha de brinde.
-E os outros dias? Perguntou-se, lembrando em seguida que nas sextas já haviam instituído o Mergulho Fora da Realidade, mas ainda sobravam três dias.
Imaginou então como seria bom se durante um dia inteirinho fosse ele uma pessoa correta e de íntegro caráter, então escolheu a Quinta Honrada do Caráter para fazê-lo.
Geralmente a terça era o dia em que encarava a vida com a maior alegria e otimismo, com disposição para agradecer o privilégio de existir neste mundo, e por mais que o dia anterior tenha sido desagradável, a gente ainda tem o resto da semana pela frente para tentar fazer as coisas diferentes. Ficou sendo a Terça de Curtir a Vida.
Mas e na quarta? O que fazer na quarta-feira, o dia que por sua posição deve merecer algum destaque, pois encontra-se no meio da semana. Para ele um dia inusual por outro motivo: as quartas também eram dias de grandes surpresas, para o bem e para o mal, como se oscilasse entre dois caminhos opostos de luz ou trevas, relva ou espinhos.
"Talvez exista neste dia o componente da possibilidade do alegre ou trágico."
Olhou pela janela e viu que, por mais absurdo que parecesse, as nuvens formavam a imagem peculiar do que lhe viera na mente naquele instante, então pensou: "isto é coincidência demais para ser mera coincidência", e logo em seguida deu-se conta de que era precisamente uma quarta-feira, depois imaginou que grande coincidência seria ainda se coubesse no mundo um dia inteiro onde cada pessoa pudesse ficar à vontade com seus pensamentos, livre para rir ou chorar, descobrindo-se assim uma nova forma de contar as semanas.
Dependia apenas de si fazer com que os dias não se repetissem de forma alienante, e ele tivesse que viver congelado numa eterna segunda-feira, ainda por cima de ressaca:
-Beber no sábado!
Foi uma grande idéia. Ganhava o sábado, que daquele momento em diante virava o Dia Mundial da Cachaça, o domingo então pasava a ser o Dia Internacional da Ressaca, e a Segunda-Feira Suportável vinha de brinde.
-E os outros dias? Perguntou-se, lembrando em seguida que nas sextas já haviam instituído o Mergulho Fora da Realidade, mas ainda sobravam três dias.
Imaginou então como seria bom se durante um dia inteirinho fosse ele uma pessoa correta e de íntegro caráter, então escolheu a Quinta Honrada do Caráter para fazê-lo.
Geralmente a terça era o dia em que encarava a vida com a maior alegria e otimismo, com disposição para agradecer o privilégio de existir neste mundo, e por mais que o dia anterior tenha sido desagradável, a gente ainda tem o resto da semana pela frente para tentar fazer as coisas diferentes. Ficou sendo a Terça de Curtir a Vida.
Mas e na quarta? O que fazer na quarta-feira, o dia que por sua posição deve merecer algum destaque, pois encontra-se no meio da semana. Para ele um dia inusual por outro motivo: as quartas também eram dias de grandes surpresas, para o bem e para o mal, como se oscilasse entre dois caminhos opostos de luz ou trevas, relva ou espinhos.
"Talvez exista neste dia o componente da possibilidade do alegre ou trágico."
Olhou pela janela e viu que, por mais absurdo que parecesse, as nuvens formavam a imagem peculiar do que lhe viera na mente naquele instante, então pensou: "isto é coincidência demais para ser mera coincidência", e logo em seguida deu-se conta de que era precisamente uma quarta-feira, depois imaginou que grande coincidência seria ainda se coubesse no mundo um dia inteiro onde cada pessoa pudesse ficar à vontade com seus pensamentos, livre para rir ou chorar, descobrindo-se assim uma nova forma de contar as semanas.
quinta-feira, 24 de novembro de 2011
Tudo Pode Virar
Escrevo no final da tarde, enquanto faço uma das coisas de que mais gosto quando estou sozinho: admirar o pôr-do-sol. As nuvens tomando forma ao sabor do vento, renovando-se sempre, alterando o modo de entender esse fenômeno corriqueiro e por isso mesmo sem valor algum, como se no fundo compreender as coisas comuns não significasse desistir das maiores.
Via o fluir das cores refletidas na atmosfera pelo sol poente, todos os tons: do verde ao azul, do amarelo ao vermelho, laranja, roxo, rosa, harmonizando-se incrivelmente em volta do disco alaranjado; e se aparece a primeira estrela, na verdade um planeta, alguém vai pensar que foi a tristeza desta Terra tão antiga que se fez lágrima e solidificou no éter.
"(...)Deus me deu este coração e a vida não me ensinou o que fazer com ele. A última réstia de luz acabou de sumir. Foi embora a música e nada sobra neste mundo silencioso e vazio."
O que antes era um fim em si, depois transformou-se no meio para alcançar outro fim supostamente maior, que era viver essa felicidade tão bonita pelo menos enquanto durasse. Enquanto você esteve ao meu lado, só isso importava e minha vida estava completa, eu ria para as paredes. Mas veio a desgraça:
-O que estás pensando? Por que queres saber?
-Talvez você tenha mudado.
Um dia descobri em uma folha avulsa seu sonho de menina: casar com um príncipe encantado, ter uma família maravilhosa com dois lindos filhos, morar numa casa no campo e viajar todo ano pro litoral.
Agora não sabe dizer se ainda quer tanto isso, se o modelo de felicidade da infância desmoronou frente à realidade.
Diz que não é mais prioridade casar e parir custe o que custar. Quer primeiro concluir o curso na faculdade e começar uma carreira na área. Ainda quer viajar sim e muito, pelo mundo inteiro, mas sozinha ou com algum amante e unicamente para curtir, não carregada de responsabilidades e com um monte de malas.
E quanto ao cara certo, não é mais tão importante quanto era antes se no fim das contas ela nunca chegar a conhecer o cara perfeito. Mas também não dá o braço a torcer quando digo que ela vai acabar abandonando todos seus antigos sonhos:
-Que antigo sonho? Pode me chamar de egoísta, mas não vou deixar de fazer tudo que eu quero e passar vinte anos da minha vida dando atenção, amor e carinho para quem no fim das contas, quando não precisar de mim mais pra nada, vai me pagar com a ingratidão!
-O fim de quem ama...
Eu sei que não é possível concordar com nada disso, e você tem razão. Sua vida é outra, suas experiências e então seus pensamentos são outros, o que não significa neste caso que um de nós esteja certo ou errado, embora eu acredite que você tenha razão sempre.
Via o fluir das cores refletidas na atmosfera pelo sol poente, todos os tons: do verde ao azul, do amarelo ao vermelho, laranja, roxo, rosa, harmonizando-se incrivelmente em volta do disco alaranjado; e se aparece a primeira estrela, na verdade um planeta, alguém vai pensar que foi a tristeza desta Terra tão antiga que se fez lágrima e solidificou no éter.
"(...)Deus me deu este coração e a vida não me ensinou o que fazer com ele. A última réstia de luz acabou de sumir. Foi embora a música e nada sobra neste mundo silencioso e vazio."
O que antes era um fim em si, depois transformou-se no meio para alcançar outro fim supostamente maior, que era viver essa felicidade tão bonita pelo menos enquanto durasse. Enquanto você esteve ao meu lado, só isso importava e minha vida estava completa, eu ria para as paredes. Mas veio a desgraça:
-O que estás pensando? Por que queres saber?
-Talvez você tenha mudado.
Um dia descobri em uma folha avulsa seu sonho de menina: casar com um príncipe encantado, ter uma família maravilhosa com dois lindos filhos, morar numa casa no campo e viajar todo ano pro litoral.
Agora não sabe dizer se ainda quer tanto isso, se o modelo de felicidade da infância desmoronou frente à realidade.
Diz que não é mais prioridade casar e parir custe o que custar. Quer primeiro concluir o curso na faculdade e começar uma carreira na área. Ainda quer viajar sim e muito, pelo mundo inteiro, mas sozinha ou com algum amante e unicamente para curtir, não carregada de responsabilidades e com um monte de malas.
E quanto ao cara certo, não é mais tão importante quanto era antes se no fim das contas ela nunca chegar a conhecer o cara perfeito. Mas também não dá o braço a torcer quando digo que ela vai acabar abandonando todos seus antigos sonhos:
-Que antigo sonho? Pode me chamar de egoísta, mas não vou deixar de fazer tudo que eu quero e passar vinte anos da minha vida dando atenção, amor e carinho para quem no fim das contas, quando não precisar de mim mais pra nada, vai me pagar com a ingratidão!
-O fim de quem ama...
Eu sei que não é possível concordar com nada disso, e você tem razão. Sua vida é outra, suas experiências e então seus pensamentos são outros, o que não significa neste caso que um de nós esteja certo ou errado, embora eu acredite que você tenha razão sempre.
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