sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Dois Barcos

       

          Quando finalmente chegamos à ilha, depois dos quarenta minutos da travessia de barco, nós cinco já estávamos  um bagaço. Sendo que a Júlia e a Carlinha, alegando que não conseguiam andar mais com tanto peso, obrigaram os respectivos namorados, Sandro e Murilo, a carregarem suas coisas também, cerca de dez volumes contando com as mochilas deles:
- Pô, Júlia! A gente não vai passar nem três dias aqui! Por que tanto bagulho tu tinhas que trazer de casa! Não estás carregando nada e estas merdas pesam pra cacete!
Era injustiça do Sandro, a culpa não era da namorada dele e sim minha, que contrabandeei um saco de compras para dentro da bolsa dela sem que ambos percebessem. Afinal de contas, embora seja muito ruim caminhar na areia carregando as coisas dos outros,   todo mundo depois ia precisar comer, e sem o ônus não tem  o bônus. E por falar em ônus, por causa dessa praguejada do Sandro, naquela noite ele e a namorada não transaram. Um com o outro, pelo menos, já que a Júlia não voltou pra casa quando o Sandro desbundou na areia, de tanto tomar birita, puto por brigarem mal tinham posto os pés ali.
O Murilo era mais amigo dele do que meu. Ele não ia um pouco com a minha cara, mas durante a vinda, enquanto eu ia bicando de leve uma garrafa de Sapupara, me pareceu que ele e a Carlinha formavam um bonito casal; mas talvez fosse porque ainda estivessem se conhecendo, ou então já o efeito do álcool no meu cérebro.
Para nossa infelicidade, a propaganda da casa de três quartos que alugamos para o último final de semana das férias devia ter sido feita há muito tempo, pois a foto do site não se parecia nem um pouco com o local em que estávamos agora. E para piorar um dos quartos já tinha sido alugado pelo proprietário, Seu Dionísio,  para um grupo de seis pessoas que eram amigos de um parente dum cunhado dele, e ele não poderia fazer aquela desfeita, embora nós tivéssemos pago adiantado.
- Bem, cês viram o quanto de gente chegou na ilha só hoje, fora os que já estavam desde o começo do mês! Se vocês fizerem muita questão, eu posso devolver o dinheiro de vocês. Só lembrando que não tem mais lugar nenhum aí para alugar, e já me veio um carroceiro perguntando se eu ainda não tinha dois quartos sobrando! E aí, como vai ser?
Depois dessa explicação Dionisíaca, e temendo perder não só um mais os três quartos se a gente exigisse a diferença do que havíamos pago, e percebendo a intenção dos meus companheiros de infortúnio com raiva por terem sido lesados, me antecipei e disse logo:
- Quê quié isso, seu Chico Anísio...
-  É Dionísio!
- Desculpa. Pois é, Seu Dionísio! Deixa essa merreca pra lá! Eu trouxe uma rede, os quartos que sobraram dão pros casais, não esquenta que eu vou adorar dormir no quintal embaixo daquelas árvores ali!
Disse, apontando duas mangueiras próximas que realmente não pareciam um lugar tão ruim quanto o inferno que estava aquela casa, com os outros hóspedes entrando e saindo a todo momento, se multiplicando por dez, tamanha a bagunça que faziam.
Naquela noite, fora a desbundada do Sandro, nada de mais interessante aconteceu, e no outro dia percebemos que havíamos dormido cedo.
Um cheiro de café fresco me acordou da rede na manhã seguinte. A cozinha ficava do lado de fora do bangalô, na parte de trás, onde pude ver que estava uma moça muito bonita, pelo visto era a única além de mim que já havia acordado:
- Posso tomar um copo? Acho que o álcool de ontem ainda não saiu totalmente do meu sangue...
- Claro! Aliás, foi a namorada daquele seu amigo clarinho que me deu o pacote pra fazer. Ela falou que não sabia como aquilo estava nas coisas dela, e me deu também esse saco aqui pra te entregar quando acordasses.
Putz, eram as compras! Houve tanta confusão que eu me esquecera de pegar de volta antes que eles vissem! Mas eu naquele momento estava pensando noutras coisas, então perguntei das pessoas que tinham vindo com ela, se alguma delas não seria seu namorado. Ela percebeu minha intenção e respondeu prontamente, fazendo meu coração pular:
- Infelizmente sim! Quer dizer, o João veio comigo mas a gente brigou ontem...
Pelo visto não só meu amigo tinha se desentendido com a mulher naquela noite. Conversamos mais uns minutos, até que a casa começou a despertar e o tal namorado apareceu, quando eu já tinha terminado meu café.
                            ...
Eu e o pessoal passamos o dia na areia, tomando birita, curtindo as ondas. Olhávamos pro limite do horizonte, onde encontram-se céu e mar, tão felizes me pareceram que deviam já ter esquecido qualquer desavença, e a manhã passou rápida.
Como eu era o único solteiro do grupo, às vezes saía pela vila passeando com minha Sapupara embaixo do braço, conhecendo os caras e paquerando as moças, mas meio sem objetvo, mais para relaxar e curtir do que arrumar algma coisa.  De noite fomos ouvir as bandas de reggae. Dancei com uma menina que depois me deu um beijo, mas todo tempo não parei de pensar em outra pessoa.
O domingo amanheceu chuvoso, mas como era o último dia fui assim mesmo tomar banho na maré, não ia ficar me escondendo embaixo de guarda-chuvas ou árvores. Queria mesmo era sentir no corpo queimado as gotas geladas da chuva; andar a esmo enquanto a maré estivesse baixando, e voltar para arrumar minhas coisas quando enchesse de novo.
Não faço ideia de quanto tempo andei. O sol principiava a dar as caras, em pouco tempo começaria a incomodar na pele. Por causa da chuva fina, tinha saído sem camisa ou protetor solar. Enquanto caminhava, prestava atenção nas ondas, que primeiro se afastam, para  sempre retornarem com toda a força da natureza em seguida. Desse jeito, não havia reparado na pessoa que seguia atrás de mim. Se estivesse na cidade provavelmente  seria um ladrão ou um assassino, mas quando me virei, vi aquela que não me saía da cabeça há dois dias, desde que as circunstâncias nos transformaram em hóspedes da mesma casa:
- Oi?
- Oi. Cadê o teu namorado?
- O João? A gente brigou de novo, eu queria dar uma volta e ele reclamou que estava chovendo...
- Sabes que ainda não sei o teu nome?
- Nem eu o teu...
Ficamos ali os dois. O sol batia em cheio nas costas dela enquanto eu segurava sua cintura, sinuosa, vibrante. O verde do mar e as ondas com espumas brancas de sal, onde nadamos sozinhos e nus. O vento que depois secaria a areia, que colava no suor daquele corpo ágil, doce, com um cheiro enlouquecedor de bicho saudável e limpo.
        Existem pessoas  que depois de uma pausa na vida, vêem-se na obrigação de voltar à rotina. Pessoas que vivem um espírito diferente quando estão num lugar como aquele, longe de casa, com a única obrigação de se divertir, mas que se esquecem de tudo na volta pra cidade, alguns se tornando piores do que já eram.
        Eu e meus companheiros naquele julho, mesmo com todo nosso egoísmo e defeitos, conseguíramos conviver razoavelmente. De nada disso vou me esquecer. Mas a lembrança que eu levo aqui dentro pelo resto de meus dias, daquele final de férias num ano que para mim começou e terminou de forma excelente, foi o nome daquela bela, deliciosa  e atrevida moça:
- Marcela...

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Rádio Invasão: O Julgamento Do Ano


"A Justiça não tarda, e falha."


Depois do empastelamento da Rádio Invasão Comunitária FM, que funcionava nos fundos de casa, sem o transmissor, a mesa de som e o resto dos equipamentos, fichados na polícia federal num artigo vagabundo desses qualquer, depois de quase um mês de ressaca mental, vem meu amigo em casa com uma notícia maravilhosa!
- Égua Gabriel! Chegou lá em casa a intimação pra depois de amanhã daquela onda na rádio! E a tua chegou também?
Fui buscar o papel timbrado e mostrei a ele. Os carimbos, a assinatura e tudo o mais tinham sido feitos pela mesma pessoa naquela mesma manhã.  Em menos de quarenta e oito horas a justiça ia ser feita: o juiz ia mandar devolver tudo o que levaram, mais uma indenização pelo incômodo e pelo abuso, e no final ainda apertaria nossas mãos e convidaria para tomar uma cerveja e assistir o jogo do Flamengo com ele.
- Vai sonhando!
Na sexta feira lá estavam os dois com a roupa domingueira, cabelo ensebado pro lado, cara raspada, tudo para causar a melhor impressão possível, mostrando pra sociedade que com um pouquinho de paciência a gente podia tomar jeito. Apagamos os cigarros e entramos no fórum fazendo o sinal-da-cruz, fosse o que Deus quisesse.
Ainda não eram dez horas e a sala me pareceu lotada, com uma dúzia de pessoas dentro dum cercado num canto que seriam os réus do dia, onde nos mandaram sentar e aguardar. Olhando em torno para os pobres-diabos que roubavam galinhas ou batiam na mulher ou matavam os outros ou traficavam ou faziam tudo isso junto, me pareceu que eu estava na feira, onde cada um tentava vender melhor o seu peixe, bem diferente de como ficaram momentos depois, assim que o juiz entrou.
O nosso caso foi o terceiro ou quatro, e o juiz era um cara novo, mais ou menos da minha idade, mas era autoridade ali e eu já tinha sacado a dele.
- Senhor Wálter Rosas Gatinho Pamplona.
Quase me espoquei de rir quando ouvi o nome inteiro do Wálter, que eu conheço a tanto tempo e não sabia como era. Mas ele nem prestou atenção, se levantou rápido e foi ficar de pé na frente do juiz, que começou a descrever o nosso crime, citando a Constituição, artigo tal, inciso tal, parágrafo tal e blá blá blá blá blá...
Perguntou depois se ele se sentia culpado, e pelo jeito meu amigo estava se achando pior que o capeta no inferno, pois baixou a cabeça e disse que 'sim' com um remorso tão pungente na voz que deixou meu coração tocado. O doutor disse então que réu primário e essas coisas têm direito a uma comutação na pena, ou você prefere passar dois anos na prisão? E como o exército brasileiro não sei por quê motivo tinha haver com rádios comunitárias, meu amigo foi condenado a doar um motor de rabeta novo pra eles. Que por sinal devem estar passando maus bocados em suas rabetas, tendo que remar na forte correnteza dos rios da Amazônia.
- Senhor Gabriel Jackson Nascimento dos Anjos.
Parei na frente do homem do martelo com uma cara que eu supunha de inocente, enquanto o meretíssimo desfiava a mesma ladainha anterior, e para resumir ele perguntou:
- O senhor se considera culpado dos crimes que acabei de descrever?
Foi a minha ruína. Olhei para o Wálter e ele me devolveu um olhar de 'não faz isso', mas não teve jeito. Levantei a cabeça e comecei a falar:
- Sua excelência, me perdoe o atrevimento mas eu não me acho culpado de nada não! Acho que foi feita sim uma grande injustiça comigo e com meu amigo, pois invadiram a minha casa, me trataram como um marginal, levaram meus equipamentos, e ainda tenho de  vir até aqui numa sexta de manhã para dizer que o errado sou eu? Discordo completamente! Espero que vossa excelência avalie bem a situação e tome medidas para corrigir essa situação!
- Ah, pois sim! Então temos um engraçadinho aqui hoje, não é senhor Gabriel? Vamos ver se eu entendi bem...
Um conselho: no banco dos réus, nunca dê uma de engraçadinho. O que o togado falou não estava no gibi: começou a citar todo o código Penal, Civil, Processual, de Hamurábi, Súmulas vinculantes, desvinculantes e afins. Só faltou citar o que a avó dele falava quando ele era criança. Em outras palavras, gastou uns bons quinze minutos me passando sermão e destilando toda sua sabedoria e erudição para o auditório embasbacado. Para no final das contas dizer o seguinte:
- Então me diga, senhor Gabriel, o que você prefere? Três doações para o Hemopa ou dois anos na cadeia?
Pode não parecer, mas as duas coisas eram péssimas. Tenho um trauma de infância fortíssimo contra agulhas; quando era pequeno tinham de me amarrar para dar as vacinas. Olhei novamente para o meu amigo, que dessa vez passava a impressão de quem estava vendo o pai prestes a ser enforcado. E tomei minha decisão pelo que me pareceu ser o menos doloroso...
Durante o prazo de um ano, vou ter de fazer as tais doações de sangue, caso não queira retornar para novo julgamento e tomar uma multa. Ruim mesmo foi o pessoal na saída do fórum apontando para mim e para o Wálter, tirando sarro na maior:
- Olha aquele um ali, vai ter que dar a rabeta dele pro exército inteiro! Ha Ha Ha Ha Ha Ha Ha Ha Ha Ha Ha Ha Ha Ha Ha Ha Ha Ha...

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Rádio Invasão: Pausa Para Os Comerciais

"Onde a idiotice reina, a justiça se esconde."

Estou no meio do programa da rádio, quando vibra o celular:
  - Atende logo aí, Wálter, deve ser algum ouvinte!
-É a Larissa, toma pra ti veres o que ela quer...
Era uma das nossas amigas produtoras/colaboradoras/locutoras/etc,  dizendo pra gente cair fora: ela tinha acabado de ver o carro da polícia federal dobrar a esquina, no momento em que estava saindo da nossa rua. Desliguei e avisei meu amigo da situação,  exatamente enquanto começavam a  bater forte na porta lá da frente. Como não tinha mais tempo de sair correndo, tentei então esconder o transmissor no forro da casa, mas não consegui. Logo os agentes arrombaram a porta do estúdio e me deram voz de prisão. O Wálter pegaram enquanto ele tentava pular o muro pro quintal do vizinho, com uma das mãos cortada pelos cacos de vidro que o Seu Gilberto tinha cimentado para se proteger dos  ladrões.

- É isso aí macacada! Estão os dois presos e a gente vai apreender e levar todos os equipamentos que vocês têm aqui e...
Fiquei olhando pra cara do oficial, que parecia estar se deliciando por mais uma arriscada e importantíssima operação bem sucedida, com o Wálter algemado do meu lado pra não tentar  fugir de novo,  quando o polícia pára de se congratular, dá uma fungada no ar do ambiente, da mesma forma que faria se um de nós dois tivesse peidado, olha fixo então pra mim com um sorriso de pura alegria e diz, como se tivesse acabado de descobrir por acaso o Fernandinho Beira-Mar na minha lixeira:
- Epa! Opa! Eu sei que cheiro é esse! Alguém aqui estava fumando maconha antes da gente chegar! Qual de vocês estava fumando, onde foi que esconderam a parada? Deixa eu ver o dedo de vocês, assopra aqui um pouco do teu hálito na minha cara, ô fujão!
O meu amigo provavelmente achava que nós íamos ser mandados para Alcatraz, então assopraria o bafo dele até na cara do Papa. Mas para infelicidade do federal quem tinha fumado erva não tinha sido nenhum de nós dois, e sim a Larissa, que tinha passado pra dar um alô e aproveitado também o estúdio fechado pra queimar unzinho, levando depois a beata num potinho que guardava na bolsa.
 
Logicamente que eles não acreditariam na palavra de dois delinqüentes, então deram uma geral na casa, digna de figurar nos melhores filmes de tráfico brasileiros. Viraram inclusive o cesto de lixo no chão, provavelmente atrás de papéis amassados, baganas de cigarro e copinhos de café, pois era só isso que havia lá dentro, como o já nem tão alegre Oficial Da Polícia Federal brasileira pôde constatar com as próprias mãos.
- Ah, eu não achei nada mas não tem problema! Com certeza souberam esconder  muito bem! De qualquer forma, eu vou ter que levar logo vocês pra lavrar o flagrante lá na delegacia, pois ainda tenho de cumprir mais uma missão especial hoje!
Oxalá não fosse inspecionar o desembarque de peixes na pedra do Ver-o-Peso, depois de um serviço tão heróico quanto aquele, de prender e levar embora dois jovens mais ou menos batalhadores, mais ou menos idealistas, mas muito profundamente entristecidos, vendo o país desperdiçar daquela forma o tempo de seus agentes e o erário público.
Que com seu modesto equipamento não viam crime nenhum em propagar pelas ondas do ar aquilo que pensam, aquilo que gostam de escutar, aquilo que querem que os outros escutem. Algo que procurávamos não fosse alienado e idiotizante demais, quase uma gota no oceano, mas que talvez somado a outras atitudes ajudasse um dia a mudar o estado das coisas e das pessoas pra melhor.

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Antigos Amigos

"Frescor agradecido de capim molhado
 Como alguém que chorou
 E depois sentiu uma grande, uma quase envergonhada alegria
 Por ter a vida continuado..."


Desci do ônibus e fui caminhando, com as mãos nos bolsos, enquanto pensava na vida. Ia tão distraído tentando olhar para as coisas e para as pessoas, que acabei passando a rua de casa e me encontrava agora numa esquina em frente a um bar, onde havia alguma gente conversando despreocupada, escorados num balcão de alumínio e bebendo cerveja. Num sábado daquele de sol, depois de largar as seis horas obrigatórias do serviço, tendo ainda que rir para todo mundo fingindo que gosta de ensacar as compras dos outros, resolvi entrar e tomar uma também.
Fiquei olhando as outras pessoas beberem, ouvindo o que diziam umas para as outras, não os assuntos banais do jornal ou do futebol, que a gente acaba comentando também só para não ficar de fora. Por que no fundo é isso que todo mundo quer, se comunicar falando qualquer assunto, o que importa é que o outro escute. Por algum motivo, um dos senhores se virou e perguntou se eu ia torcer para o Remo ou Payssandu,  e eu acabei tomando sete cervejas falando com desconhecidos sobre futebol.
O calor já tinha amenizado, eu ja´podia sair do bar e voltar pelo caminho que tinha feito, então estaria em casa e poderia lavar o corpo daquela poluição. Me despedi de meus já antigos companheiros, e quando eu ia saindo, um mendigo, sentado ao pé de um poste com sua lata de moedas, pediu-me uma esmola. Quando se olha um morador de rua o que se vê não agrada os olhos, e eles geralmente não me despertam compaixão, mas esse pelo estado em que se encontrava, imundo, mais deitado que sentado, me fez procurar nos bolsos alguma coisa para dar, acontece que eu não tinha nada.
Me desculpei e saí andando, envergonhado de ter gastado tudo o que carregava com cerveja e não ter nem uma moeda para o pedinte. Vergonha de saber que eu tinha acabado de beber e conversar com várias outras pessoas, e o mendigo também é uma pessoa, pelo menos parece com uma, então por quê ele não podia estar lá bebendo com a gente? Em quê  aquele homem seria tão diferente de mim? Sua aparência era deplorável realmente, mas o que se poderia dizer de seu caráter? Seria um devasso, um pervertido, um drogado, um justo, um Santo?
E o que dizer dos tantos que usam ternos italianos, mas são apenas sepulcros caiados, imaculados por fora mas só ossos e podridão por dentro. E o que dizer de mim, que desde cedo na rua, num fim de tarde de sábado, com um celular novo que eu pegava do bolso e que não tinha tocado o dia inteiro, pois nem eu tinha ninguém para ligar.
Fui andando e pensando na vida. Já não olhava mais as pessoas ou as coisas; tinha a cabeça pesada, parecia que um pensamento dentro dela dava voltas e não encontrava lugar onde pousar. Na rua os carros acendiam os faróis e movimentavam-se cada vez mais apressados, como se o pôr-do-sol fosse sinal para o início de alguma festa, quando na verdade sinaliza apenas que mais um dia chega ao fim.
Parei com as chaves em frente o portão de casa, as luzes estavam todas apagadas lá dentro, provavelmente não tinha ninguém. Abri a porta e apertei o interruptor, então ouvi um grito:
-Surpresaaaaaa!!!!
Algumas tias e tios, meus primos, dois amigos do peito e minha namorada. Minha mãe e meu irmão mais novo. A mesa com uma toalha limpa e um bolo de chocolate no centro com as duas velinhas da idade nova que eu nem me lembrava mais sendo acendidas. Os chegados mais próximos se reunindo em volta de mim começando a cantar parabéns-pra-você. Eu com esses olhos que querem ver tantas coisas ficando marejados...
Era meu aniversário.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Flores Pisadas

"No gelo da indiferença ocultam-se as paixões
 Como no gelo frio do cume da montanha
 Se oculta a lava quente do seio dos vulcões..."


Renata era a garota mais bonita da turma. Tales estava apaixonado, e como era um sujeito romântico, descobriu com uma amiga o número do celular dela e ligou na mesma noite:
-Você tem que saber que eu te amo, Renata! Sua existência só será feliz ao meu lado!
-Sai dessa Tales! A gente nem se conhece direito!
-Como podes dizer isso depois de eu ter me declarado? Não sentes pena deste jovem coração? Olha que eu posso fazer uma loucura!
-Mas que? Olha Tales, parou por aqui, nem vem com esse papo de fazer  pressão com ameaça pra cima de mim! Ih, quer saber, vou desligar...
-PelamordeDeus, Rê, escuta! Lembra daqueles recadinhos que você vinha recebendo desde o começo do ano e achava que era daquele Mauricinho? Sabe quando você comentava que coisas lindas ele escrevia, e ficava mostrando os bilhetes às suas amigas? Pois é, eram todos meus! Agora sabes o quanto eu te amo, e eu sabia que tu me amavas também, vamos namorar, casar, amancebar, juntar, sei lá!
Silêncio do outro lado da linha. Durante alguns segundos em que não consegue falar por puro nervosismo, Tales escuta a suave respiração de sua amada, que tenta recuperar-se do susto para enfim declarar:
-Ouve só: como é que eu vou saber se os poemas eram mesmo teus?
-Ué, simples, lembra desse?
"Na ignominiosa existência celerada
 da solidão conspurcada que evito
 não há mais como negar este fato
 Porque sei que te amo Renata!"
-Pôxa, eu lembro desse, é lindo...
-Então vais me aceitar como teu homem? Ai, como vamos ser felizes! já posso imaginar nós dois construindo nossa vida juntos, a maturidade, as piadas, os passeios, o sexo... Ah sim, o sexo! Porque eu sempre sonho com a gente fo...
-Ei! Tá louco? Não disse que ia ficar contigo. Aliás, acho bom tu esqueceres toda essa bobagem. Olha, eu estou meio confusa, os poemas eram teus mas... Quer saber de uma coisa? Vou jogar aquelas porcarias no lixo, agora que sei que são tuas! Como pude pensar que eram do Maurício...
-Espera! Não faz isso com quem te ama, sei que você me ama também senão não tinha guardado meus poemas! Serei para sempre teu escravo, teu escudeiro, teu eunuco, quero dizer, meio eunuco, ou melhor...
-Tú já estás variando, Tales. Vai dormir que já está tarde e a gente conversa amanhã na aula. Tchau!
-Calma, peraí! Tenho certeza que tu vais me amar também, eu não ia me enganar desse jeito, não desliga ainda, eu não ia suportar! Acabo de me declarar e me tratas desse jeito, como se fosse só bobagem minha? Ah, mas tu me ama, só pode ser por isso que estás assim deste jeito, ficaste apaixonada também e me amas agora mais que tudo, não é? Não é? Alô? Alô?
"Click"
                                    ...

No dia seguinte, Renata estranhou. Como poderia Tales ter faltado a aula? Talvez envergonhado pelo que havia dito, mas que ideia! Só que ele continuou a faltar o restante da semana; e quando a preocupação levou-a a telefonar para a mãe dele e saber o que havia acontecido para ele ter parado de frequentar o cursinho; e para falar também daquilo que tinham conversado naquela noite, descobriu a tragédia ocorrida. Dona Morgada, a mãe, controlando o choro, é quem atende o celular do filho e dá de supetão a notícia:
-Ainda não soubeste? Meu filho partiu desta para melhor!
-Meu Deus, como assim? O Tales morreu?!?
-De jeito nenhum, vira essa boca pra lá! Eu quis dizer que ele partiu, viajou. Disse que ia morar com o pai e tentar vestibular lá mesmo pela capital, que nunca mais ia pôr os pés na nossa cidade. Como negar, Cristo, o menino tão bom...
E rompeu novamente o berreiro, que dava pena de assistir. Muito cedo para sentir saudades, pensou Renata. Não pruma mãe.
                                   ...
Ela se joga na cama, tenta esconder os olhos vermelhos com o travesseiro, não acredita no que acabou de ouvir antes de desligar o telefone. Como pôde, aquele?
       Raiva, ou melhor, um ódio novo, do orgulho ferido de quem é desmascarado é o que Renata sente dominá-la agora. Com o coração exposto daquela forma, um sentimento incontrolável que não sabe ainda dizer o que é, surge monstruoso. Renata não sabia, talvez apenas suspeitasse, receio de chegar e perguntar, dizer a ele pela manhã, só que assim desse jeito não dava! O que ele esperava de resposta? As palavras de Tales ficariam ainda por muito tempo incomodando em sua mente, e naquele momento tais pensamentos provocavam uma onda de soluços, revelando a verdade que escondera de todos mas não de si. Mordia os lábios, as lágrimas escorrendo e molhando o lençol, bufafa, gemia, rangia os dentes, encolerizada. Durante muito tempo, mesmo depois da viagem dele, o grande médico que se tornara. Desde aquele dia até o fim de sua vida, avó de muitos netos, persistia a dúvida residente nas últimas palavras do apaixonado, em seu apelo derradeiro ao amor que ela realmente sentia:
-"Mas como foi que aquele filho de uma égua descobriu?"

domingo, 7 de agosto de 2011

Àquela Que Amei

“De onde vem essa iluminação que chamam de amor, e logo depois se contorce, se enleia, se turva toda e ofusca e apaga e acende feito um fio de contato defeituoso, sem nunca voltar àquela primeira iluminação?”

  
Eu amava, ou pelo menos achava que amava, a linda mulher que nem mulher feita era ainda, no tempo em que jovens éramos e do mundo nada conhecíamos. Ansiava por encontrar o amor numa futilidade qualquer, como quem troca uma estação no rádio e ouve justamente a música que mais gosta e acha que não foi por acaso. Uma simples coincidência como acordar pela manhã e ir à escola.
Quando conheci-a não sabia ainda o que era amor.Ainda hoje não tenho certeza de que sei, mas guardo com carinho a lembrança daquela época de inocência perdida; de quando ainda encontrava pessoas boas; de quando enxergava nos outros a maldade sem saber ainda o que era o mal; de quando achava que podia ler no rosto de alguém o seu caráter ou a falta dele, coisas que apenas o impuro sabe, por ter na fisionomia e no corpo as marcas de seu próprio passado. A inocência de quem não se sabe inocente justamente por ter apenas o futuro e a própria história para ir seguindo num caminho só de ida, do jeito de quem olha para trás e a única coisa que vê ainda é a infância recente, e tudo é novo no mundo.
Talvez o nosso tenha sido verdadeiramente o grande amor, o primeiro e talvez único amor. Angustia-me saber que tudo aquilo se perdeu. Mudamos os dois, eu certamente para pior, já sem a inocência daqueles primeiros anos quando quero ainda encontrá-la em outra pessoa, e sei que hoje em dia é impossível para mim, falso e hipócrita que sou, chafurdando num cinismo louco de aleijado que finje não ser repugnante o braço que falta.
Mas naquele tempo as manhãs eram belas; a luz do sol era diferente, as cores guardavam-se vibrantes e presentes. Tínhamos o  viver ameno de quando a gente imagina as coisas boas que ficam na lembrança, e cada vez que lembramos mais belo parece. Mais felizes e completos e amantes éramos um do outro; e todas as palavras podiam ser ditas, e por maior que fossem as tolices, menos eram porque assim a gente achava que devia ser, e ávidos nos entregávamos para viver o outro dentro de si. Era assim que as coisas aconteciam.
Ela linda e fresca como a fruta madura cujo sumo escorre pelas mãos e desce pelo pulso, então sujando meu rosto me beijava, e ali ficávamos os dois rindo e se beijando, olhando o pôr-do-sol na beira do rio, e continuávamos a sorrir, ela seu sorriso de leite e mel,  eu desconhecido do que acontecia no resto do mundo; e tudo estava certo porque a vida era assim e certamente não podia ser de outro jeito, os planos desenhados na areia branca com a ponta de uma vara ou um dedo do pé, convictos de que tudo ia dar certo, tão simples e natural.
Mas como foi rápido. Passou depressa embora para nós fosse uma eternidade tudo que acontecia. Como então as coisas se precipitaram e a gente sem perceber foi mudando cada vez mais rápido, as cores se tornando opacas, cruas como são na realidade. E essa realidade que ao nosso redor girava e não ousava entrar, agora se imiscuía e me devastava e me corroía por dentro e por fora. Então sem perceber veio a indiferença, não da tua mas de minha parte, que o tempo se encarrega destas coisas, ensina-nos a mentir e a sermos mesquinhos, sacanear os outros. O prazer tornava-se volúpia, a saudade de ti tornada desejo sensual do teu corpo, a liberdade ao teu lado em culpa, pois eu já te culpava por não me enganares, por não te tornares má também! E assim eu me aprisionava no escuro até não conseguir lembrar  da luz, e me afundava e apodrecia cada vez mais, sem que soubesses.
Sei que fomos felizes, e sei que valeu a pena pela memória que guardo. De toda vez que pensava em ti e lembrava o teu rosto, de quando me vinha aquela pontada e eu fechava os olhos, de uma dorzinha no peito boa de sentir. Quase como a que acaba de me vir agora.

sábado, 6 de agosto de 2011

Easy Rider

"Assim, quando viu a totalidade das coisas que havia criado contentou-se; porquê o que havia criado era belo e bom..." (Gênesis)

Lembro do dia em que andei o dia inteiro pelo comércio atrás de alguma coisa que não apertasse meus pés. E já tinha desistido depois de ver que o meu dinheiro não dava. Então quando estava prestes a ir embora, já saindo da loja o moço me gritou:
-Ei! Senhor com licença! Desculpa mas não queres dar uma olhada num quarenta e três?
Me voltei e era o rapaz que tinha me atendido. Na minha idade poucas pessoas gostam de dirigir-se a mim, no mais das vezes para perguntarem as horas. E no restante dos casos, é sempre gente tentando me vender qualquer coisa, quase sempre uma porcaria! Quando não os que se aproximam para me roubar...
-Olha só, está há um tempão no estoque! Mas é só um número maior que o seu, mas o senhor pode comprar umas meias que a gente também têm na promoção!
Tinha passado a tarde inteira batendo perna pelo comércio e adjacências, atrás de um tênis confortável. Odeio dizer isso para mim mesmo, mas cada vez mais os calçados sociais vem  incomodando meus pés! Na minha juventude era moda usarmos o tênis All Star cano longo branco. E era esse que o também jovem vendedor vinha-me oferecer agora:
  -Leva pro senhor! Ou pro seu filho! O preço de etiqueta é cem reais mas eu faço um desconto pro senhor, se for no débito ou de uma vez no cartão!
       O rapaz me mostrou um tênis All Star, daqueles de cano alto, algodão crú, o de minha maior preferência. Olhei o tênis minuciosamente como costumo fazer, e não encontrei nenhum defeito. Ignorando-se o fato de ser um número maior do que o meu; ignorando também o fato dos cordames me fazerem perder um bom tempo para amarrá-los. Sem esquecer que já estou velho demais para usar All Star cano longo cor de algodão cru.
          Enquanto o rapaz tirava a nota, olhei bem para aquele All-Star. Tinha um exatamente igual durante minha juventude, e lembrei-me de quanto que um daqueles itens era tão cobiçado na época. Tanto que você tinha de matar o contrabandista que vinha da Guiana, se quisesse conseguir um.
        Eu tenho um filho que amo. E eu sei que pode parecer piegas, mas naquela hora lembrei-me dele, com quem não falo já há muitos anos. Consegui um bom desconto e só paguei cinquenta reais. Mas um cara do meu lado que tinha visto tudo que eu tinha falado pro vendedor; e que fez questão de olhar pra minha carteira enquanto eu tirava as únicas míseras cinco notas de dez, disse enquanto pagava pra caixa em que estava sendo atendido:
       - Égua! Eu nunca que ia comprar um presente prum filho que eu nem vejo esse tempo todo, se tivesse só essa merreca no bolso!