sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Pensamentos é Dose

Açafrão, corta-se em filetes o mais fino que for possível, depois mistura com o restante do tempero refogando na panela.
As associações de moços exercem papel preponderante na formação do espírito cívico e desenvolvimento da conscência moral dos jovens do país.
As estações do ano dividem-se em Primavera, Verão, Outono e Inverno, exatamente nesta ordem; retornando para o início a cada fim de ciclo.
As pessoas que vemos em fotos, passados cem anos estão mortas, assim como você estará morto quando estiver sendo visto daqui a cem anos, assim como esta outra pessoa que te ver após mais cem anos também estará morta; que se for vista por mais outra pessoa... ad infinitum.
Insetos de qualquer tamanho e de qualquer espécie, preferem os locais escuros e úmidos para se esconder; e quanto mais fétido e repugnante for o meio onde rasteja, pior o inseto.
Os partidos políticos são a fonte da militância e do engajamento do país, para a transformação deste povo em uma sociedade melhor, longe do vício e da corrupção; e a culpa de tanta merda é deste mesmo povo, que não sabe votar.
"Todo político eleito rouba", se existisse, seria um pleonasmo triplo.
A esperança de qualquer pessoa reside no fato de que aquilo que a faz sofrer não pode durar para sempre, nem piorar. No que piora e se estende por longo tempo, dando mais motivos ainda para que tal pessoa persevere na fé.
A beleza é inversamente proporcional à inteligência na maioria dos casos. Mas na minoria, não.
É possível amar mais de uma pessoa ao mesmo tempo, mas você provavelmente terá problemas quando elas se encontrarem.
Difícil de acreditar, mas mesmo com tudo de ruim acontecendo no mundo, se você está lendo isso agora é porque está vivo, existindo dentro deste lapso de tempo que lhe foi presenteado na eternidade; então esteja feliz.
A curiosidade sobre o futuro, misterioso e incerto, é o que nos mostra a importância de construir as coisas no presente.
Novamente, eventos importantes acontecem quando você menos espera. Logo, esteja preparado.
Deus existe, e não dá a mínima se você não acredita nele.
A receita para ter saúde é viver de acordo com o que acha certo, não importa o que você imagine que seja o certo. Escute o seu coração.
Você não encontrará ninguém que não queira mudar sua vida; mas é impossível encontrar qualquer um que realmente faça alguma coisa para mudá-la.
Tomate, cebola, pimentão e alho; com esses legumes é possível fazer combinações suficientes para temperar qualquer comida.
Assim como a vida, a existência de cada segundo é de primordial importância. Portanto não desperdice seus segundos e aproveite-a.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Conto - Piada

         Os três caminhavam sob o sol escaldante do deserto a mais de cinco horas, os cantis já estavam secos e eles começavam a sentir os primeiros sinais da desidratação que os levaria à morte. Tinham sido escolhidos para atravessar uma caravana de camelos até a capital, por serem os que melhor conheciam os perigos do deserto, além de amigos de longa data. Apesar disso, não poderiam imaginar que uma tempestade de areia deixasse apenas os três como sobreviventes, entre a vida e a morte, quando ainda faltava a outra metade do caminho para percorrer:
- Ah! Mas por quê isso, me responda!?
- O que fizemos nós para merecer tal desgraça?
- Esperem! Acho que nossas preces foram ouvidas, olhem aquilo ali!
O mais novo deles apontava na direção do que parecia ser um oásis, com algumas palmeiras em volta da água fresca, que parecia brotar como por milagre no meio do nada. Sem perda de tempo, correram até aquela fonte preciosíssima do líquido vivificante, mas logo após o terceiro  ou quarto gole, perceberam que aquilo não passava de uma miragem, e que estavam bebendo areia:
- Gasp! Gasp! Argh! Seu energúmeno, como podes dizer que isto aqui é água, se já provei várias vezes e vejo que no copo só tem areia! Estúpido!
Disse isso e deu-lhe um tapa no rosto, atirando-o ao chão. O terceiro tinha permanecido indiferente até aquele momento, mas resolveu intervir para que não houvesse mais agressões:
- Ramsés! Mustafá! Chega! Eu sou o mais velho de nós, e em situações como essa eu devo automaticamente assumir o comando, de acordo com o código de conduta da nossa profissão. Então eu digo que parem com esta briga imediatamente! Se vamos morrer em breve no meio do deserto, que pelo menos seja em paz!
Assim falou Zeroastro, tendo como efeito que os dois fizeram as pazes e se abraçaram. Era uma loucura brigar ali, enquanto a morte espreitava, e precisavam um do outro mais do que seriam capazes de um dia imaginar que talvez precisassem.
Mal tornaram à caminhada, não chegaram a andar nem dez metros, e novamente Ramsés chamava a atenção, dessa vez para um objeto que despontava brilhando refletindo  a luz do sol, como se tivesse sido posto por alguém naquele exato momento sobre a areia. Era uma Lâmpada Mágica, e assim que a teve em mãos, Zeroastro esfregou-a. Então do bico começou a sair uma fumacinha, que foi ganhando forma até se transformar num Gênio Bom:
- Como você esfregou a lâmpada, irei atender agora a três desejos seus e depois irei sumir junto com minha Lâmpada. Então, o que vai ser?
Como chefe legítimo pela lei de conduta dos beduínos do deserto, ele não ia deixar seus subordinados e amigos para trás, então concedeu-lhes dois dos desejos a que tinha direito. Depois pediu para dali em diante curtir uma vida de milionário, cercado de belas mulheres e morando de frente para o mar, no que foi prontamente atendido pelo Gênio, que mandou-o para o Rio de Janeiro e fez com que ganhasse na mega-sena.
Mustafá foi mais modesto: queria morar numa ilha cercada de águas turquesa, em que as pessoas vivessem numa comunidade igualitária em que todos fossem donos de tudo e não houvesse propriedade privada, mas onde ele que fosse o chefe e pudesse mandar em todos os outros. O Gênio pensou um pouco, e decidiu enviá-lo para Cuba, onde ele acabou sendo o próximo na linha de sucessão dos Irmãos Castro.
Faltava apenas Ramsés, mas ele não sabia o que pedir. Veio-lhe uma sensação estranha, que se falasse português entenderia ser saudade; parado ali no meio de toda aquela areia e sob aquele sol esturricante, com o Gênio impaciente à sua frente e que não cansava de olhar as horas no relógio de pulso. Naquele momento, tudo aquilo de que ele mais sentia falta era da presença de seus amigos, Zeroastro e Mustafá, que estiveram ali junto dele havia apenas alguns instantes.
Aconteceu talvez pelo calor. Ou pela solidão daquela amplitude vazia, onde nada havia em que pudesse pousar os olhos para se consolar, apenas a figura do Gênio, urgente em sair daquele inferno e voltar para o ar-condicionado. Ramsés fitou então o céu, e murmurou:
- Diabo de dúvida que não existia minutos atrás! Quem dera eu pudesse me encontrar com meus dois amigos mais uma vez aqui, para poder consultar-me com eles, que sempre tiveram um bom conselho para me dar...
Foi então que ouviu um longo suspiro de alívio, e logo em seguida:
- louvado seja Alá! Será feito imediatamente, meu amo, seu desejo é uma ordem! Pronto, aí está! Agora adeus para sempre!
Após o quê, sumiu  em meio a uma nuvem de fumaça, como se nunca tivera existido.

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

A Invasão

          O Henrique olhava lá pra fora debruçado na janela, enquanto eu e o lobão  estávamos sentados no chão, escolhendo alguns dos vinis da coleção dele para rodar. A geladeira estava abastecida de cervejas, ainda não eram seis da tarde, então aquele domingo certamente prometia. Não imaginava o quanto.
- Ei Lobão, Ícaro, chega rápido aí galera que cês tem que ver isso daqui!
Da janela ele apontou para longe, onde havia um brilho distante no horizonte, muito forte pra ser um avião ou satélite, até porque se movia mais rápido que qualquer aparelho conhecido.  O apê do Henrique ficava no décimo andar, então tínhamos uma boa visão do ponto de luz que se aproximava com uma velocidade incrível, e tão rapidamente quanto chegou, parou, mantendo-se atravessado no espaço entre a região das ilhas e a cidade. Um gigantesco artefato, parecendo como que saído de um filme de ficção, que se eu pudesse comparar com alguma coisa conhecida, seria com um porta aviões colossal flutuante, pois pelo que podíamos ver aquilo  não tinha asas.
Olhamos por um momento um na cara do outro, e nós três imaginamos exatamente a mesma coisa, mas ninguém teve coragem de dizer uma palavra. Estava com a sensação mais estranha que já havia sentido, como se estivéssemos presenciando uma invasão alienígena do mundo ou o começo de uma guerra. Senti medo naquele instante, pois vi que repentinamente,  de cima e debaixo e pelos lados, começaram a cair inúmeros objetos menores do principal, pequenas bolas negras dentro da baía do Guajará, por sobre onde se encontrava aquilo que eu agora começava a perceber que era uma espécie de nave mãe, mas completamente imóvel e sem fazer qualquer ruído.
Pairava no ar aparentemente sem qualquer esforço, pois não se ouvia barulho de motores ou turbinas, nem qualquer outro som que a nave produzisse.
- Olha só o quanto de gente está se juntado lá embaixo! Vamos lá perguntar se alguém sabe o que é isso que está acontecendo...
Muito confusos, fomos descendo as escadas junto com vários outros moradores, que tinham acabado de ver  a mesma coisa e estavam apavorados, saindo de suas casas e se aglomerando nas esquinas para ficar apontando pra cima, sem mais o que fazer. Os dois elevadores tinham parado de funcionar, mas ninguém ao menos se lembrava disso.
Fizemos, sem saber que estávamos naquele momento nos despedindo, um acordo de não nos separarmos de jeito nenhum, até que aquela confusão terminasse. Demos as mãos um ao outro, pois em todo lugar se via gente e carros parados, podíamos facilmente nos perder. Todos aqueles que moravam no bairro ou estavam ali por qualquer outro motivo, haviam resolvido se postar imóveis na rua, olhando para cima e cutucando e comentando uns com os outros, pois embora todos estivessem vendo, ninguém queria acreditar. Permaneciam todos parados junto com os carros, motos e ônibus, que também se quedavam inertes, como se estivessem vendo anjos no céu.
Os objetos pretos que caíram no rio Guamá, lá no fundo ficaram, e quinze minutos haviam passado sem que mais nada acontecesse com a nave gigantesca, que estava como quando havia chegado, imóvel e sem ruídos. Apenas o chão, mas podia ser impressão minha, vibrava imperceptivelmente como se um terremoto se aproximasse, e se fosse possível sentir com os pés um terremoto se aproximando.
Perguntei então do Lobão e do Henrique, e eles também estavam sentindo a mesma coisa. Olhei na direção do fim da rua, onde várias pessoas estavam juntas olhando o rio, na escadinha do cais do porto, e chamei a atenção de meus amigos. As pessoas ali estavam se afastando rapidamente, algumas até começavam a correr.
O Lobão largou minha mão primeiro e saiu correndo também. O Henrique olhou pra mim, eu queria falar para ele correr se quisesse, porque era o que eu queria fazer, mas ele esticou o braço e pontou para frente: de dentro da água vi várias formas negras emergindo e esmagando com pisadas as pessoas. Robôs de forma vagamente humana, com cerca de seis ou sete metros de altura, movendo-se muito mais velozmente do que qualquer humano seria capaz, matando  vários dos que ali se encontravam, utilizando agora raios mortíferos que partiam do que seria provavelmente seus braços.
No meio da confusão acabei perdendo o Henrique de vista. Desesperado também, corri pelo meio da praça na tentativa de salvar minha vida. Muita gente caída ao chão, alguns  entravam em pânico e começavam a gritar. Outros ficavam parados, catatônicos, esperando a morte certa. Houve os que tentaram ligar seus carros e não conseguiram sair do lugar, mesmo porque era inútil qualquer veículo naquele momento, tamanho o caos formado, que atravancava a debandada de tantos desesperados em salvar a própria vida.
Os robôs eram muitos e avançavam a passos largos, subindo pela rua e matando quantos pudessem no caminho. Um grupo de loucos apareceu de uma rua transversal, deu para escutar o que gritava, que aquilo era o apocalipse, o fim do mundo descrito na bíblia, antes de serem instantaneamente pulverizados pelo raio de uma daquelas máquinas genocidas.
Não havia jeito de escapar. Conseguira correr bastante, mas eles eram muito rápidos e eu já estava ficando cansado, e num relance vislumbrei alguns metros à frente meu amigo Henrique, que gritava pra mim de dentro de uma loja pra que eu entrasse lá também, antes dos funcionários cerrarem a grade. Porém, no segundo seguinte, meu amigo e as pessoas que estavam com ele e tinham entrado ali para se protegerem, sumiam em meio a uma explosão de fogo e fumaça, atingidos pelo raio que eu vira passar bem de perto, por cima da minha cabeça.
As máquinas não estavam deixando ninguém vivo, cada ser humano e até as árvores e os cães de rua eram explodidos pela arma devastadora, reduzindo a pó e escombros tudo o que encontravam em seu caminho. Eu não conseguia correr mais, os prédios todos estavam prestes a ir ao chão, então não havia mais lugares onde me esconder, nem motivos para continuar correndo. No meio da rua parei e me voltei, fazendo cotocos com as mãos levantadas e xingando todos os palavrões que pude lembrar. Um daqueles monstrengos parou bem na minha frente, apontou-me os dois braços, e eu percebi que no lugar onde em nós está a cabeça, neles havia apenas uma esfera totalmente negra, como o restante do corpo, mas com um único ponto luminoso ao centro.
Era uma minúscula luz azul que brilhava bem no meio, como se fosse um exato e onisciente olho, e que naquele momento parecia dirigir seu facho azulado diretamente para minha testa.

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Tudo que você queria ser

       Ele esperava o almoço ficar pronto sentado no sofá, folheando o jornal que havia pegado mais cedo na repartição, onde não precisaria mais voltar naquele dia, pois tinha dito para um colega bater o ponto dele de tarde. Lia com mais atenção a parte dos crimes, talvez porque no fundo todo dia esperava encontrar ali algum conhecido, o que não raro acontecia.
A mulher que abrira a porta recebera-lhe com um beijo rápido, estava cuidando do almoço, e enquanto falava sobre as coisas de sua vida, procurava não se desocupar da cozinha, cortando temperos e colocando na panela do feijão. O cheiro da comida era bom, toda vez que ele ligava avisando que ia almoçar, ela se esforçava um pouco mais para melhorar o gosto do trivial, feijão com arroz, salada e bife, que costumava preparar mecanicamente, da mesma forma que comia.
Os crimes acabaram. Ele agora folheava a parte de esportes, colhendo a opinião dos comentaristas sobre o seu time que havia sido derrotado no dia anterior, conforme ele acompanhara pela televisão, contra um frágil adversário dos cafundós. A mulher permanecia falando e batendo panelas para dar a impressão de que estava ocupada, mostrando potes, abrindo a geladeira, vez ou outra parando para olhar para ele e perguntando qualquer coisa sem o menor objetivo, pois ante o seu mutismo era sempre ela mesma quem respondia.
Na mesa enquanto comiam, ele tentava olhar para ela e ficava procurando naquele rosto traços que reavivassem em seu interior alguma coisa da pessoa que ele fora, do tempo em que achava aquela mulher linda e se apaixonara. Tinham vivido juntos durante um bom tempo e tido um filho. Mas enfim não estavam mais juntos, ela havia conseguido se arranjar com outro cara, que tinha topado cuidar também do filho dele, que afinal precisava de uma presença masculina em sua vida, para um bom desenvolvimento psicológico e sei lá o que mais. "Além do que a Gláucia tem razão, o Alfredo é muito boa gente..."
- E o júnior?
- Não ouviu eu dizendo que a van daqui a pouco vem trazendo ele da escola?
- E o teu marido?
- Trabalhando, né? Tu sabes que ele nunca vem pra almoçar, fica o dia todo na empresa, ainda mais agora que ele vai estar comandando uma equipe pra desenvolver  um projeto que...
Ele continuou mastigando e olhando para a cara da ex-mulher, e não saberia dizer por que continuava a encontrá-la. Se bem que ultimamente só tivesse ido para filar um almoço, pois também não gostava que seu filho visse só ele e a mãe ali. Quem diria que a menos de dez anos eles não poderiam estar  juntos um segundo sequer, que procuravam logo um lugar em que pudessem transar e se satisfazer, tamanho o fogo dos dois na época, tão intenso que eles imaginavam pudesse ser eterno.
Ela continuava falando do trabalho do marido, coisa que adorava fazer, para que ele pudesse comparar o quanto ela tinha feito a escolha certa largando um fracassado e ficando com um cara bem-sucedido, abandonando até quem sabe aquele que teria sido seu grande amor, em prol do filho que ela esperava fosse gostar cada vez mais no futuro, já que ele não seria capaz de sustentar nem a ele mesmo, caso ela exigisse na justiça o que era de direito dela, igual sabia que uma outra tinha feito...
Ela finalmente se calou e ficou olhando para ele, tentando parecer apreensiva, mas ele fingiu que não ligou e continuava calado, olhando pro jornal na mesa ao lado do prato. Terminou de mastigar, engoliu o copo de suco, e foi se levantando, pedindo desculpas que não ia demorar mais porque o júnior ia chegar:
- Mas tu demoras tanto pra vir aqui, porque não esperas ele pelo menos dessa vez?
Ele sentiu uma contração ruim no estômago, ou um pouco mais embaixo, como se só agora percebesse a bexiga cheia e precisasse urgentemente urinar. Aquele era o tipo de comentário que ela fazia justamente para que ele se sentisse mal, como naquele momento.
- Tu sabes muito bem por que eu não posso.
- Não podes ou não queres?
Novamente a pontada ruim no ventre, novamente o incômodo que dava vontade de urinar, mas ele não queria entrar numa discussão por tão pouco. Lembrou-se então da época em que ainda viviam juntos, quando a paixão, porém, já tinha acabado. Então haviam pego o hábito de tripudiar nas cinzas que sobraram um do outro, até que não houvesse mais nada a ser feito, além da separação.
- Obrigado pelo almoço, minha nega.
- Desculpa, nego. Olha, mas eu te ligo assim que ele viajar pelo trabalho, aí tu vens dormir de novo aqui comigo, não vens meu amor?
Ele faz que sim com a cabeça, então se despedem com outro beijo rápido, que nem de longe lembrava os beijos de antanho, tornando esse momento especialmente doloroso para ambos.Nessas horas vinha-lhes sempre a lembrança da época em que costumavam passar as tardes brincado com a língua na boca um do outro, quando aquilo costumava dar-lhes um prazer indescritível.

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Esmeralda

       Os galhos partiam-se sob seus pés à medida que ela avançava. Pedaços de seu vestido rasgavam-se e ficavam presos aos ramos que por pouco não lhe arranhavam a pele.  Corria como se não precisasse de pulmões, e em meio àquela floresta escura, que aos poucos ia se tornando azulada pelo nascer do sol, ela sentia-se em casa.
Sua vida, como o lugar que a cercava, sempre fora repleta de perigos ocultos, de galhos pontudos que tentavam de qualquer modo atingi-la, mas que conseguiam tão somente rasgar os pedaços de sua roupa que ficavam pelo caminho. Os seus olhos bebiam os primeiros raios da manhã que varavam pelas copas, os pássaros todos tinham já acordado, e que lindos eram os diferentes cantos que se juntavam num som jamais imitado por qualquer instrumento humano.
Estava próxima do final do caminho, sabia porque conseguia sentir o cheiro úmido e vivo que vinha do mar à frente, a maresia e o sal que impediam o musgo de crescer nos troncos pelos quais ela passava agora, sempre correndo e cada vez mais feliz, e a felicidade era tanta que escorria em pequenas gotas pelo canto dos olhos, e o brilho contra os raios solares deixavam pelo tapete daquela floresta caírem os pequenos brilhantes, que eram absorvidos pela terra fresca.
Finalmente ela pôde enxergar alguns metros à frente a claridade absoluta que vinha da manhã nascente, e o esplendor do sol atingiu-na em cheio quando ela saiu da mata e postou-se na beira daquele abismo, com o mar descortinando-se esverdeado, batendo nas rochas sob seus pés muitos metros abaixo, cor de espumas de esmeraldas.
"Meu nome também é esmeralda...", pensou ela quando viu tudo aquilo que com absoluta certeza o Senhor dos Céus havia criado, com o objetivo de que ela sentisse prazer ao estar ali naquele lugar, que Ele havia-lhe determinado e que em pensamento também lhe dizia: "Vês! E para sempre toda esta terra e estas águas, e todos os animais que andam por cima da terra e nadam por debaixo destas águas serão teus. E tudo o que foi por Mim criado está agora em tuas mãos, e toda a vida que virá de ti será através deste êxtase que sentes agora, porque assim Eu quis."
Ela estendeu os braços, fechou os olhos que choravam de uma felicidade que era mais que felicidade, e mais ainda que qualquer sentimento, e tão grande era a força daquelas palavras que escutara, que ela teve certeza: Se quisesse se atirar no abismo não morreria. Ao contrário, alçaria vôo ao céu longínquo, e gritaria com toda a força de sua alma um amor imenso pelo mundo, capaz de alcançar as estrelas.

domingo, 28 de agosto de 2011

Primeiro Beijo

        O Thiago jogava muito bem, ele e o Igor eram os únicos da vila que não podiam ser do mesmo time, pela desproporção das forças em relação ao restante de nós, apenas esforçados. Tirante o Bernardo, que só participava das peladas porque era dono da bola, já que seu único recurso era dar chutões e barrigadas nos menores, pois ele nem sempre acertava a bola.
Até que eu não era tão ruim, mas  a posição de zagueiro dificilmente é notada, por maior o esforço que se faça nas divididas e desarmes. Todo final de semana era sagrado a molecada da vila bater uma bolinha, usando como traves os portões das duas casas que ficavam nos extremos do que a gente chamava de 'campo'; a do próprio Bernardo e a do Plínio, que por causa disso sempre era convidado para jogar, embora o que ele preferisse mesmo era brincar com as meninas que às vezes eram a nossa torcida.
- Vai Marcos, não deixa ele passar com essa bola!
Eu e o Bernardo somos da mesma altura, mas naquela época ele tinha bem mais corpo que eu, e a única coisa que eu podia fazer para evitar que ele avançasse para o gol, seria calçando o pé direito na bola e mantendo o esquerdo para trás como apoio, evitando uma daquelas terríveis barrigadas, pois ele não sabia driblar. Ele veio com tudo e encheu o pé, a bola dividida espirrou pro canto e ele caiu em cima de mim. Do chão ainda vi o Thiago pegar a sobra e marcar com o gol vazio para o time deles.
 - Grade!
O Igor nem me deixou levantar direito e já foi me esculhambando, dizendo que a culpa do gol era minha, e em parte era, só que aquele nosso time estava uma porcaria, ninguém se lembrava de voltar para marcar quando perdia a bola, e o Plínio estava mais interessado em não sujar a roupa do que em ajudar nosso time na partida.
Fui sentar meio puto próximo das meninas, não ficaria perto do Igor, que àquela hora dava um esporro no Rick, coitado, o mais novo de todos, que parecia prestes a chorar. Prestando atenção na cena, nem percebi quando uma garota que eu nunca tinha visto sentou do meu lado:
- Tá doendo?
- O quê?
Ela apontou pro meu braço, e eu vi que tinha arranhado o cotovelo naquela última dividida, mas era um machucadinho sem importância. Olhei para a garota que havia me perguntado isso, e no mesmo instante senti algo no peito que me fez baixar os olhos. Ela era muito bonita, devia ser um ano ou dois mais velha que eu, mas do jeito que falava, com uma voz tão amiga e com a pele fresca de quem havia acabado de tomar banho, me deu a sensação de que eu era um moleque sujo de rua, o que naquele momento realmente era.
- Isso não é nada não, depois sara.
- Não queres ir ali na mangueira do prédio lavar?
Tinha começado a me lembrar dela. Era a moça que sempre via a gente jogar nossas peladas de fim de semana, de um apartamento do quinto andar onde morava, no prédio que tomava todo um lado da  nossa vila. Descobri então que ela tinha virado amiga da irmã do Thiago, e que agora começaria a descer com mais frequência para bater papo. Ela perguntou de novo se eu não queria me lavar, eu estava meio confuso, não achava mesmo que aquele machuacado fosse grande coisa,  mas para não dar uma de mal educado acabei entrando com ela pela garagem, que era onde ficava a cisterna do prédio.
O nome dela era Tainara, e enquanto eu lavava os braços e aproveitava também para molhar a cabeça e tomar um pouco d'água sem que ela percebesse, disse-me que sempre que escutava o nosso jogo de bola, ela ia dar uma olhada para ver se eu estava jogando também.
Quando ouvi aquilo quase engasguei e deixei a mangueira cair no chão, molhando um pouco a barra do vestido dela. Não sei se foi também por causa do cansaço, mas senti naquele momento as pernas bambearem um pouco e o meu rosto ficando muito quente, como se água ao invés de refrescar estivesse fervendo na pele.
- E-eu te molhei? Foi mal, é que...
- Deixa pra lá.
Ela disse isso sorrindo, no momento em que eu criava coragem para olhar mais uma vez pra ela e pensava "que sorriso lindo!". E devo ter ficado com cara de babaca, porque ela riu mais ainda, me segurou pelo braço sem se importar com o machucado, e foi me conduzindo até o fim da garagem, num canto em que a gente não podia ser visto.
- Você já beijou uma mulher na boca?
Juro que não consegui dar nenhuma resposta, estava fascinado com a presença que aquela garota tinha, quase da mesma idade, mas bem mais madura que eu. Ela entendeu perfeitamente que eu nunca tinha beijado, deu mais um daqueles sorrisos maravilhosos, que dessa vez quase fez meu coração arrebentar dentro do peito, e foi aproximando o rosto e aquela pele fresca e perfumada de mim, que não sabia o que fazer, quando enfim ela encostou os lábios rosados nos meus, e senti aquela lingua macia e gostosa brincando dentro da minha boca, passeando pelos meus dentes, com o sabor mais doce que já havia experimentado, me incentivando a fazer o mesmo, e eu me segurando para continuar de pé, já que minhas pernas tinham perdido de vez as forças.

sábado, 27 de agosto de 2011

Música Para Não Ser Escutada ou O Puxirum

        Nasci em 1984, no hospital da capital para onde minha mãe foi mandada às pressas, já que houve complicações no parto e naquela cidade do meu estado não tinha emergência. Em outras palavras, quase morri ao nascer, graças aos safados que se dizem políticos e roubam junto com os familiares e apaniguados tudo o que conseguem enfiar nos bolsos, na maior cara de pau, tendo o mais perigoso deles conseguido se eleger por outro estado, onde alastrou seu poder como a podridão que exala dos cadáveres e pode ser sentida à distância, prevaricando eternamente com o mandato que lhe proporciona este povo ludibriado.
Minha infância não vou dizer como foi miserável, passando fome e sofrendo de doenças comuns que matavam à rodo, e que levaram três irmãos meus, a menorzinha de apenas seis meses, devido à falta de saneamento básico que fazia todos na cidade cagarem em buracos no chão, cavados próximos aos poços de onde a gente tirava água para beber. Parece que faz tempo, mas lá até hoje é assim, embora mês passado tenha finalmente chegado água encanada. Só que apenas na casa do prefeito.
Escapei da morte, das lombrigas, da disenteria, dessas doencinhas de nada que só matam uma meia dúzia de dez, crianças na maioria, gente que viveu pouco ou nada ainda, então não é tão ruim assim. Trágico seria morrer um jovem doutor ou filho da classe média, em que a família investiu tanto, apostou todas as suas fichas, para ver morrer de dor de barriga. Sacanagem tua! Quer dizer que no meu país, que paga bilhões de juros todo ano, crianças pobres no interior morrem de caganeira! Mas não vivemos na Europa? E a nossa seleção de futebol, vai bem? Ah, tá...
Para não morrerem de fome todos, minha mãe escolhia quem ia alimentar, e era com o coração partido que ela deixava de dar comida aos mais fracos, sabendo que não podia desperdiçar o pouco que tinha com quem brevemente ia morrer. Naquela casa ninguém conseguia dormir a noite por causa do choro. Eu e meus irmãos chorávamos de fome, e minha mãe de fome mas de pena também, e de raiva por causa de um castigo tão grande para gentes tão pequenas, que se pudessem derramar toda a dor que traziam no peito, fariam brotar novo oceano na poeira seca das ruas sem calçamento.
Um dia acordei de madrugada, os olhos grudados ainda pelas lágrimas que haviam secado e virado remela, fui buscar um gole d'água do pote, e resolvi dar uma olhada na rede onde estava deitada minha mãe. Lá estava ela dormindo, com nossa irmãzinha caçula no colo, sorrindo na certa porque estava vendo os anjos de Nosso Senhor no seu sonho. Mas quando prestei atenção direito nos braços dela, vi que a neném estava morta. Estava morta. Seis meses e já estava morta.
Não peguei a água. Não limpei os olhos. Só sentia que a dor não parava mais de creser, rasgando a carne por dentro. Foi então que vislumbrei uma outra coisa tomando forma, muito mais sutil e mais forte do que qualquer sensação que eu já conhecera. Que subia pelas minhas entranhas e se apoderava do meu corpo como se fosse uma entidade que estivesse me possuindo; que me fez correr para vomitar a bílis no mato, e era o meu sangue com fel que eu via ali misturado entre as folhas. Então claramente escutei alguém me dando uma ordem ao pé do ouvido, mas não havia pessoa alguma em redor.
Não acordei ninguém. Entrei e fui andando devagarinho, botei duas camisetas e um calção na ponta de uma vara, muito bonitinho, só que antes de sair levei também o revólver do meu pai, que ele escondia por detrás dos sacos de carvão pros filhos não mexerem, e fugi de casa. Tinha acabado de completar dez anos, e naquela noite fresca e estrelada, enquanto caminhava sem rumo, eu já podia me considerar um homem feito. Assim como os políticos e o Senhor dos Céus, eu também tinha agora nas mãos o poder sobre a vida dos outros.
Não demorou muito até que eu despachasse a primeira alma sebosa que cruzou meu caminho, e faz tanto tempo que até perdi a conta de quantos mandei para debaixo da terra. Sei que não vou durar muito, resolvi escrever isso aqui da cadeia para que o meu filho quando nascer possa saber quem foi o pai, que era mais homem que muito valente junto, que matava de tiro, facada, ou até de mãos limpas, como quando da vez em que despachei um desafeto meu só no mata-leão.
Se tu meu filho um dia leres isso, saiba que teu pai não foi malvado não. Quero que saibas que matei tanta gente porque a vida foi ingrata comigo, e a única que podia ser minha aliada era aquela que quase me pegava já no dia em que vim ao mundo. Mas um dia nossa parceria vai terminar, e eu poderei quem sabe descansar este corpo sofrido nos braços dessa indesejada das gentes, mas de quem não tenho mais medo, ela que me acompanha já a tanto tempo e sempre me olha sorrindo, com aquele sorriso de quem sonha sempre com os anjos do Nosso Senhor Jesus Cristo.