sexta-feira, 19 de agosto de 2011

O Homem e seu Vício


       

        Ele está ali. Mais uma vez põe os sapatos, sentado na cama, levantando o pescoço para que a fumaça do cigarro não irrite seus olhos, apreensivo, nos preparativos finais para sair de casa. O andar é baixo, é possível ouvir que passam poucos automóveis na rua.
Joga o cigarro pela janela, pega do maço mais um e acende, enquanto fica dando voltas no pequeno apartamento tentando se lembrar das coisas que está esquecendo e que vai precisar quando descer pra rua. Não faz nem meia hora que veio de lá. Tinha comprado mais uma garrafa de batida vagabunda, uma carteira de derby, e vinte contos da parada. Ainda têm três cigarros e acende mais um.
Quando passa pela portaria, o porteiro mal levanta a cabeça. No fundo tem pena do vício do homem, da vida que leva, de tudo aquilo que ele no fundo não sabe mas que é pena dele mesmo, por estar vislumbrando aquilo que espera a vida de homem, ainda mais se ele vive só e não tem filhos.
Seu Lauro não sabe disso. Passa pelo porteiro como se não o visse, e na verdade realmente  nunca o vê. Não sabe o seu nome e não se interessa em saber; Não dá a mínima pra que tipo de vida leva. Só pensa nessa momento em ir no depósito, pegar mais uma batidinha e uma carteira de cigarro, na volta passando pela boca para pegar mais quatro e voltar para se drogar trancado no apartamento.
- Ôh, meu brother! Por favor um cigarro e uma cana aqui...
Sem mesmo prescisar se levantar de cima do freezer onde dorme, o atendente já sabe de quem se trata. Todo começo de mês é a mesma coisa. Quando ele recebe o salário fica quase uma semana aporrinhando, toda noite, na hora que ele costuma tirar um cochilo. Mas freguês é freguês, e o patrão pagava pra ele a hora extra.
- E aí seu lauro! Mais uma carteira e uma buchudinha?
- E Tira o troco de vinte...
Saiu com o saco preso no pulso pela alça, não podia dar mole pra ladrões, enquanto que com a outra mão segurava o cigarro. Os quinze de troco ainda davam para pegar três; depois disso ele ia dormir, tinha trabalho no outro dia. Tinha várias coisas aliás para fazer no outro dia, e pelo ritmo em que estava não ia conseguir acordar na manhã seguinte.
Chegou na frente da vilazinha que dava acesso à boca, acendeu mais um cigarro e foi entrando. Dois rapazes que estavam na rua sentados se levantaram, atravessaram, e entraram rapidamente logo após, enquanto seu Lauro puxava as duas notas e as cinco moedas do bolso, o boqueiro não gostava de ninguém contando dinheiro em frente sua casa.
Os dois moleques são rápidos, um deles segura seus braços por trás, enquanto o outro revista seus bolsos. Ele larga o saco com a birita e o cigarro, e tenta se livrar do pivete, mas o que está à sua frente saca uma faca da cintura e desfere-lhe vários golpes na barriga, fugindo depois com seu dinheiro enquanto o outro corre com a sacola que ele deixou cair, deixando seu Lauro sangrando deitado no chão, com a mão segurando o ventre.
A dor é muito intensa, queima a pele, mas como se pudesse chegar lá dentro. Por um momento ele imagina se não foram tiros que levou; tenta se levantar e não consegue. Com muito esforço levanta o tronco para sentar-se no meio fio. Não há ninguém na rua: apenas um velho parado na esquina, escondido atrás da sombra dum poste. Seu Lauro tenta gritar para que ele chame uma ambulância, mas tem medo de que o esforço faça-o  perder mais sangue.
Por uma sorte inacreditável, ou talvez devido aquela região, embora perigosa, ser próxima ao centro, vêm dobrando a esquina um carro da polícia, descendo a rua na direção dele. Consegue levantar o braço e o carro vai parando, só que alguns metros mais longe de si .
Os policias saem apressados, carregam o corpo de um homem que está jogado no meio do asfalto, põem-no com cuidado no banco de trás da viatura, e depois partem. Seu Lauro fica sem entender nada, enquanto por sua vez o homem parado atrás da sombra do poste na esquina, rindo, começa a se aproximar...

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Vida e Morte De Palhuca Frontera

"Ainda que eu andasse pelo vale da sombra da morte, não temeria mal algum, porque Tu estás comigo..."


Selva de Quiproquó. Tiros e obuses são trocados entre os dois lados. A milícia dos Cabreros Verdes e as forças do Exército da Coalizão Armada (ECA), na disputa pelo domínio das plantações de papoula do país, vão abandonando seus cadáveres em meio à vegetação. Em breve as feras terão seu repasto. Famílias inteiras lutam na guerrilha que interessa apenas aos que detém o poder na região: Cartéis de Opileros e o chefe do Estado Golpista, General Cochabamba; senhores da guerra que nunca saem perdendo, não importa o resultado.
Famílias recrutadas por ambos os lados não tem escolha. Sem saber por quê, irmãos, amigos de infância, vizinhos, pais, filhos, manejam armas e atiram contra as próprias aldeias no interior. Substituíveis, não aparecerão na contagem oficial de mortos.
Chorava de joelhos , o fuzil jogado ao chão, um homem ensanguentado em seus braços. Não dava ouvidos às tropas da ECA, cada vez mais perto, precedidas por seus projéteis de chumbo. Chamava-se Palhuca Frontera e fora alistado no lado dos Cabreros, após conseguir fugir de Vila Porrilhas, onde um novo destacamento tinha sido requisitado à força pelo General Cochabamba. Seus irmãos não tiveram a mesma sorte, e era um deles que jazia ali em seu colo, morto pelo fogo de sua própria arma.
Não teve tempo de chorar, estava sendo perseguido e era questão de tempo até alcançarem-no. Deixou a arma para trás, para não atrapalhá-lo na fuga, e começou a correr sem rumo pela selva, e a cada vez que fechava os olhos, vinha-lhe a imagem do homem que surgira por detrás dos arbustos vestindo a farda inimiga, surpreendendo-o. Fora mais rápido no gatilho, apenas para perceber que tirara a vida do irmão caçula, que não via a meses.
Amaldiçoaria-se pelo resto da vida por não ter percebido. Queria parar de correr e se entregar de uma vez aos tiros do inimigo. Mas que inimigo? A maioria dos que lutavam não entendiam o real motivo daquela luta sangrenta, de estarem matando seus patrícios.
Inimigos era quem os obrigava a isso, inimigos do povo, fascínoras aproveitadores, que sempre de uma forma ou de outra encontravam a vitória, não importando quantas almas precisassem dispor para o fim nefasto que em suas cabeças julgavam o mais nobre: dinheiro e poder. Para os peões insignificantes restava apenas a dor da tragédia, a invalidez dos membros aleijados, o cheiro de pólvora a corroer pulmões doentes, lavouras arrasadas, o fedor da carniça que não se apagaria nunca da memória, a pobreza, a miséria.
Palhuca continuava a correr. Vez em quando parava para recuperar o fôlego, o estômago a doer-lhe sobre os intestinos secos, a quanto tempo não comia? Mal conseguia controlar a respiração, logo escutava o som de explosões e tiros cada vez mais próximos, e era obrigado a empreender fuga novamente.
O corpo cansado do ritmo forçado, o cheiro de algum cadáver nas proximidades a maltratar-lhe as narinas, nuvens cinzentas pairando sobre as copas das árvores, os pensamentos trazendo sempre a expressão agonizante do irmão morto em seus braços. Não era mais possível dar um único passo. Exausto, encostou-se numa árvore e foi deslizando as costas até sentar-se no chão, sobre as folhas.
Por um breve instante tentou imaginar que não estava ali e nada daquilo estaria acontecendo. O sol entrava no ocaso, em breve a escuridão protegeria-o de seus algozes. Mas quando prestou novamente atenção, percebeu que alguém vestido com a farda camuflada do ECA caminhava em sua direção, mirando-o com a metralhadora em punho.
  Esforçou-se por manter a lucidez, acreditaria nos seus olhos? Prendeu a respiração na tentativa inútil de não se fazer perceber. O soldado já o havia visto e engatilhava a arma, caminhando a apontar-lhe o cano ao peito. Palhuca Frontera sentiu que eram aqueles os momentos derradeiros de sua vida, então deixou o pavor tomar conta de si, e uma onda gelada percorreu seu corpo exausto, fez arrepiar os pêlos de sua nuca, quando  veio-lhe uma vontade muito grande de chorar, embora seus olhos continuassem secos.
Na iminência da morte, passa-lha a vida pela cabeça. Recorda fatos remotos que imaginava esquecidos, tudo que antes não havia compreendido parece revelar-se ante seus olhos. Perdôo-lhe, meu irmão! Fomos atirados como cães nesta guerra maldita que nos embruteceu a alma e fez com que assassinássemos nossos conterrâneos sem que fosse possível enxergar o real inimigo. Ambos estamos fatigados, corpos arruinados, apenas autômatos.
Quem mata um igual guarda pra sempre a tragédia do seu ato, o horror de uma vida desperdiçada, como um peso a esmagar-nos a consciência. Nunca mais seremos os mesmos, andaremos sonâmbulos por este mundo, com a impressão de não mais pertencermos a ele.
Dedos moles pressionam o gatilho, o barulho de molas que se comprimem, movem pinos, ruídos metálicos, um zumbido surdo em seus ouvidos que finalmente chega ao fim.
...
A mata estremece com o estrondo seco. A certeza do dever cumprido, eliminando um dos insurgentes, limpar o país do caos e desordem da qual eles eram a fonte, provoca uma contração vaga nos lábios do soldado. Quando aquilo terminasse, retornaria um dia à família e ao trabalho na lavoura, tudo voltaria então a ser como antes. Como antes. Lembrou-se novamente um camponês. O orgulho do que acabara de fazer esmoreceu um pouco, mudou-se em outro sentimento, que confundiu-se com a escuridão trazida pela noite.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Derradeiro Coração


"Meu doido coração aonde vais,
 No teu imenso anseio de liberdade?
 Toma cautela com a realidade;
 Meu pobre coração olha cais! "


Ela caminhava rápido pela rua. Soluçava e tinha os olhos voltados para o chão, não queria que estranhos percebessem sua amargura. Entrou na praça, sentou-se num banco ainda segurando o choro, mas percebeu que não poderia fazer isso ali, com os papéis que levava tão bem guardados naquela caixa que ela mesma havia decorado com tanto esmero. Resolveu ligar para sua melhor amiga:
- Flávia, tú estás em casa? Posso passar aí... e começou a chorar ao telefone.
- Liza, que foi que houve, por que estás chorando? Vem logo pra cá!
Quando chegou na casa da amiga, seu rosto estava vermelho e inchado, como se tivesse apanhado de alguém. Ela entrou no quarto mas não conseguiu dizer nada, sentou-se na cama e espalhou os papéis de carta que trazia e disse apenas:
- Lê... e voltou a chorar, levando as mãos ao rosto.
Flávia começou a ler as cartinhas uma por uma, e eram muitas. Todas escritas com canetas de cores diferentes, cheias de desenhos e decalques diversos, coraçõezinhos, anjinhos, arco-íris, e tudo o mais que uma garota de quinze anos apaixonada costuma escrever para o seu amor, mas que nunca tem coragem de enviar. Ali ela contava em detalhes desde o dia em que conhecera Jorge, os meses em que passara os melhores momentos da sua vida ao lado dele, de quanto o amava e de quanto queria que ficassem juntos para sempre:
- Mas amiga, ainda não entendi! Tudo que escrevestes aqui é muito lindo, até perfumastes tuas cartas, me diz então o que aconteceu...
- Hoje a gente completou um ano de namoro, ele me disse que me amava tanto, mas eu não tive coragem de mostrar isso pra ele, ele vai me achar uma boba,  a gente fez amor e eu tô me sentindo uma vagabunda!
- Mas liza, por que fizestes isso? E a igreja? Prometestes casar virgem!
- Eu sei, mas quero muito casar com ele! Sei, sou muito nova pra pensar nisso, mas na hora ele insistiu tanto, foi tirando minha blusa, eu não aguentei e aconteceu...
E continuou a chorar. Enquanto se acalmava, com Flávia fazendo cafunés em seus cabelos loiros, consolando-a como podia. Ela pensou bastante em tudo que estava sentindo naquele momento confuso: a dor do sexo que o namorado machucara um pouco devido também à falta de experiência, pois era apenas um ano mais velho; o temor de ser mandada para o inferno por ter se entregado fora do casamento; e outra coisa que vinha lá do fundo e que nunca sentira antes, não sabia o que era, mais que foi lhe dando coragem até que decidiu o que ia fazer:
- Eu já tomei minha decisão, amiga. Amanhã no colégio eu vou mostrar todas minhas cartinhas pro Jorge, e quero que ele me diga se vai ficar pra sempre comigo!
- Não faz isso, liza, ele é só um garoto, deve estar tão assustado quanto tu, e além do mais...
Além do mais, mas isso Flávia, embora fosse sua melhor amiga não podia dizer... Além do mais, ela tinha ouvido estórias sobre a fidelidade de Jorge. Diziam às escondidas que ele traía-a com uma outra menina chamada Patrícia, que era uma garota muito fácil, que se entregava pra qualquer um, e que costumava "ficar" às escondidas com o namorado da amiga. Mas esta já tinha tomado sua decisão, estava irredutível, e no dia seguinte levou a caixa com seus sonhos de uma vida feliz ao lado de seu primeiro amor para o colégio.
Chegou bem mais cedo que de costume, e perguntou pelo namorado. Disseram que ele estava lá pra trás, e assim que ela adentrou pelo pátio onde costumava ficar com ele no intervalo, no banco escondido do lado oposto da escada que dava acesso às salas de aula, viu-o aos beijos com Patrícia.
Seus braços ficaram moles de repente. A caixinha, com todos os escritos de uma vida que acabava de começar, cai no chão e destapa-se, deixando o vento espalhar pelo cimento os restos de um coração despedaçado. O sentimento que ela sentira crescer dentro do peito desde o dia anterior, o dia em que transara pela primeira vez, e que ela não sabia o que era, agora tomava forma definida. Mudaria sua vida pra sempre dali por diante, enquanto o aroma do perfume com que aspergira os bilhetinhos ia-se perdendo aos poucos no ar da manhã:
  Tornara-se mulher.

terça-feira, 16 de agosto de 2011

A Visagem


  "Lembre disto: Não esqueça que você é meu servo. Eu o criei para que me servisse."


      Naquela noite, estávamos eu e o meu primo tomando umas biritas na porta de casa. Fazia tempo que minha família tinha aquele imóvel, mas era difícil alguém aparecer por lá, somente na época das férias,  como era o caso. A casa tinha dois andares, espaçosa, mas estranhamente eu não estava me sentindo muito bem lá. Alguma coisa parecia estar pesando no ar, não saberia dizer o que, e o vazio dos cômodos só reforçava essa sensação:
- Caramba! Já acabou a cerveja!
Era o Rodrigo voltando com as duas últimas latinhas da geladeira. Bem que eu tinha dito para pegarmos duas caixas ao invés de uma!
- Mas não esquenta, primo, que eu vou ali ver se o mercadinho tá aberto e trago mais umas geladas...
- Falou! Traz outra caixa então.
Dei a intera do dinheiro pra ele e fiquei olhando enquanto se afastava. O mercado era pertinho dali, então entrei e deixei a porta só encostada, sem trancar, subi para o quarto onde tinha armado minha rede, e deitado comecei a me embalar.
Por causa das biritas, ou porque a manhã tinha sido muito cansativa, fui aos poucos deixando de me balançar e acabei caindo no sono. Foi então que tive um sonho.
Uma moça toda de branco, no meio de um extenso campo que não se enxergava o fim, se chegava para mim enquanto ia chamando meu nome, pedindo que a seguisse para dentro de uma espécie de floresta toda retorcida, muito densa e escura, de onde saíam sons horríveis, como de pessoas gritando para que eu não me aproximasse, choro e ranger de dentes.
Minhas pernas não obedeciam, pelo contrário, quanto mais eu tentava me afastar parecia que a mulher de branco chegava mais perto. Embora seu rosto fosse muito difuso e não desse para vê-lo, ela falava numa língua estranha e me chamava com a mão, até que chegou muito próxima e eu pude perceber que ela tinha os dentes pontudos e saltados para fora da boca, como um tubarão ou sei lá o quê.
Quando ela estava prestes a me tocar, exalando um cheiro muito enjoativo como de flores esmagadas, e dando uma espécie de riso histérico com aqueles dentes todos, eu acordei com meu próprio grito: A rede em que estava estava sendo puxada por um lado, quase tocando no teto, coisa que comigo dentro só poderia ser feito por alguém que tivesse muita força, logo não seria o Rodrigo. Senti minha garganta fechando, não conseguia emitir mais um ruído sequer, e naquele momento de pavor só pude pensar num nome:
- Jesus Cristo...
A minha voz saiu rouca e muito fraca, como a voz de um defunto, se defuntos falassem, mas nesse momento a rede foi como se tivesse sido largada, e eu fiquei encolhido dentro dela só pensando em Jesus e na bíblia, até ela parar de se mexer.
Estava suando frio, escutei os passos do Rodrigo lá embaixo, ele tinha acabado de voltar com as cervejas, e me perguntou como se ele é que estivesse vendo uma assombração:
- Égua, primo, que cara é essa? Estás completamente pálido, parece até que viu fantasma, ha, ha, ha! Vou botar logo as brejas pra gelar!
Ele foi se dirigindo para o freezer, mas alguma coisa fez ele parar no limiar da porta.  Então virou-se, me encarou agora sério, e perguntou algo que no susto eu ainda não tinha notado:
- Tu estás sentindo esse cheiro enjoativo? Parece com cheiro de flores mortas....

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Poeminha Dos Anjos

A morte a mim não mais importa
se bate à porta, ou  vem na ânsia
de que enfim eu não me esconda
feito medrosa criança

Mereço nesta terra maior agonia
Esta desesperadora consorte
que casa comigo e anuncia
sua madrinha indissolúvel, a morte

Sinto vermes roendo o olho
Comendo a carne morta hospedeira
Em meus ossos, buracos de peneira
Pútrida carne é a flor que colho

Na ladeira desta vida em declínio
Disputam dentro de minha barriga
Vermes de profundos escrutínios
Enfrentando-se com as lombrigas

Não há dúvidas, na morte cessa
todo o ato que podia em vida
nesta campa em que me encerram
que lição trago apreendida?

Que não quero voltar pra fantasia
melhor fico no lugar que me puseram
Que a morte é dos vivos último erro
e pros mortos é morte a própria vida

domingo, 14 de agosto de 2011

O Pequeno Assalto


        Não sei quem primeiro teve a ideia, mas enquanto eu e o Jairo assistíamos o noticiário em casa, na hora em que estavam explicando das quadrilhas que roubavam os caixas eletrônicos com dinamite, meu amigo me cutucou:
- Cara!
- Coé, Badigo?
- Mermão, tá sacando só esse sistema?
- Que sistema?
Ele fez um gesto pra que eu calasse a boca, e ficou compenetrado assistindo o resto da matéria. Quando terminou, ele me explicou que na época em que servira o exército, ficou amigo de um taifeiro que tinha acesso ao paiol, e que ainda falava com o cara, que podia arrumar uns explosivos pra ele e...
- Tás maluco? E sabes tú mexeres com isso?
- Êh, rapá, fica frio! Fácil demais! Eu sei como é: tu acende a parada e fica de mocó, depois que voa tudo pelos ares, é só pegar a grana e sair correndo, igual no jornal!
- Mas e os cana?
- Tou falando, é muito rápido! A gente vai naquele caixa do mercadinho do Simeão, de madrugada, depois a gente sai fora rápido que não vai pegar nada...
Meu brother não tinha nada na cabeça, e pelo visto eu menos ainda, porque acabei concordando. Então a gente passou o resto da noite planejando o bicho do dia seguinte.
Confesso que não acreditei que ele ia descolar as bananas, achava que a estória do taifeiro era papo furado, por isso me surpreendi no outro dia quando ele apareceu com uma mochila que eu nunca tinha visto:
- Caraca! Que pôrra é esssa?
Quando ele abriu o fecho, vi que tinha lá dentro os dois ferros e o pé-de-cabra que a gente costuma usar, além de três canudos compridos da grossura do meu braço:
- Tá na mão! Te falei que eu descolava o negócio? Agora é só ir lá e selar a parada!
No mesmo dia, na hora combinada, duas da manhã, lá estávamos os dois. Forçando a pôrra do portão que não queria abrir de jeito nenhum, e embora a rua estivesse deserta, achei que a gente tava fazendo muito barulho:
- Shhhhhh! Força aí que o negócio tem que ser jogo rápido...
Fez um barulhão quando a gente finalmente conseguiu arrebentar o cadeado. Entramos e meu amigo foi logo tirando a dinamite da mochila:
- Toma aí, põe as três escoradas aí atrás!
- As três?!? Tú tens certeza?
- Claro, pôrra! Tá achando que isso daí é estalinho? Agora rasga pra fora que eu vou acender...
Antes dele riscar o fósforo eu já tinha saído, olhando pra ver se não vinha ninguém atrás da gente, e me escondi atrás de um camburão de lixo. O Jairo veio logo  atrás:
- E aí, Badigo?
- Espera só um pouco...
Alguns segundos depois, enquanto tapávamos os ouvidos, fui arremessado contra a parede, com um bando de sacos de lixo caindo por cima de mim e do meu amigo:
- Cacete!
- Puta que o pariu! Botei dinamite demais!
A fachada do mercadinho do seu Simeão, quando vimos, estava completamente destruída. Por pouco não vem o prédio todo abaixo. O caixa eletrônico, que era o nosso objetivo, estava estraçalhado fumegando no meio da rua, e todas as casas num raio de cinco quilômetros tinham acordado com o estrondo e estavam acendendo as luzes:
- Caraca, que merda! Olha!
Apontei pra cima, e do meio da nuvem de poeira e fumaça, eu e Badigo víamos as notas caindo, como se Deus tivesse mandado chover dinheiro. As menores  eram de cinquenta, e o dinheiro espalhava-se pra todo lado, enquanto os moradores das casas próxima viam aquilo e saíam de pijamas, correndo para a rua querendo pegar nossa grana.
- Pó pará co'essa palhaçada!
Foi o que disse meu amigo, puxando o ferro da cintura e dando dois tecos pra cima, querendo afugentar aquela gente toda, que achava que tinha ganho nas portas da esperança:
- Tás maluco? Vamos logo dar o fora daqui...
Tentei puxá-lo, mas foi difícil. Meu brother também queria ficar ali acocado, catando dinheiro queimado, até a polícia chegar, o que não ia demorar muito. Ele estava transtornado e não me ouvia, talvez tivesse ficado surdo. Então catei umas três notas de cem nem tão chamuscadas, e saí no pinote, assim que escutei a viatura chegando.
Nunca mais depois desse dia explodi coisa alguma. Continuei no meu ofício de escrunchador, que é bem menos arriscado, embora não dê muita grana, mas dá pra viver. Meu chapa Jairo Badigo pegou oito anos, e eu passei esse tempo todo mandando levar cigarros pra ele no presídio, da marca que ele mais gosta, aqueles de filtro vermelho. Semana que vem, quando ele sair, embora tenha dito pro cara da condicional que estava regenerado, nós vamos sair metendo mais uns bichos por aí, duvido ele recusar!
Porque vocês sabem: malandro não pára. Malandro dá um tempo...

sábado, 13 de agosto de 2011

Parabéns, Meu Pai


        Ele entra no bar e olha em volta. Alguns dos velhos conhecidos estão por ali, mas ninguém lhe cumprimenta ou lhe dá atenção. Todos sabem que ele está ali apenas cumprindo seu ritual diário das duas cervejas depois do serviço, e que não gosta de ser incomodado.
Tem apenas sessenta e um anos, embora aparente muito mais. Os cabelos brancos que teimam em crescer apenas nas têmporas, acumulam-se num tufo atrás das orelhas. Há um bom tempo ele não se preocupa mais com a aparência, embora a mulher ainda se esforce um pouco que ele troque de roupas e saia pelo menos limpo de casa. Toma a cerveja que pediu, num primeiro e longo gole de olhos fechados, e depois repara no embrulho que trouxe debaixo do braço, e que está postado à sua frente no balcão.
Aquele bar, embora sempre frequentado pelos mesmos antigos fregueses, que já se haviam habituado à sujeira e pobreza do lugar, estava tornando-se agora um lugar da moda. Por isso, em uma das mesas da frente está um grupo de quatro jovens, dois rapazes e duas moças, que riem e falam alto, tentando à todo custo chamar atenção para si, enquanto conversam suas trivialidades que provavelmente julgam a coisa mais importante do mundo. Antônio não lhes dá atenção. Continua bebendo sua cerveja alheio aos outros, observando com desinteresse o jornal da televisão, anunciando mortes trágicas, corrupções e assassinatos, mas sempre no final colocando uma matéria amena, para preparar os telespectadores para a novela que vem em seguida.
Um dos jovens, o mais falador deles, com sua camisa sem mangas colada no corpo musculoso que ele tem orgulho de exibir para si mesmo, nota o velho solitário e seu embrulho no balcão, e com a coragem típica de quem se aproveita dos mais fracos, resolve tirar um sarro:
- Égua, olha aquele velho! Pelo jeito não toma banho desde que nasceu, o fedor dele tá batendo aqui!
O grupo inteiro ri. Ele também ouviu mas não liga. Faz tempo que parou de ligar pras coisas; hoje não sabe nem se ainda se importa com a própria família, os dois filhos e a mulher. Pede a segunda cerveja e permanece assistindo as notícias banalizadas pelo apresentador, que foi treinado para mudar as expressões de acordo com o que está falando, mas que quase nunca consegue. O fortinho não desiste, e como viu que se tornou centro das atenções dos amigos bêbados, continua a provocar Antônio:
- Ei velho! Sabia que água não é só pra tirar ressaca? Tua mãe não te ensinou a te lavar direito?
"Minha mãe morreu faz tanto tempo..." Pensa o homem, que olhou bem nos olhos de quem disse isso, mais com pena que  com raiva: "O que foi feito dessa juventude? O que foi feito do mundo? O que fiz de mim mesmo, com minha vida? Ao menos o que me resta dela..."
Ele desvia os olhos enquanto bebe mais um gole e percebe que a segunda cerveja está no fim, mas não sabe se pede a terceira ou vai logo pra casa. Seus filhos e sua mulher estão esperando, talvez preocupados, mas sabem que ele gosta de beber um pouco antes de...
Antônio não termina o pensamento. Quando novo fôra sargento do exéxrcito, temido pelos seus comandados mais por sua força que por sua patente, mas naquele momento a única coisa que sente é a dor de um soco desferido em seu rosto, que ele não sabe de onde veio e que faz com que ele caia no chão, machucando as costas contra as lajotas tão familiares, do bar que freqüenta ha mais de dez anos:
- Velho filho-da-puta! Tás me encarando por quê? Tás a fim de brigar? Te levanta e me encara, seu safado...
Os outros fregueses e o dono do bar evitam que o fortinho continue chutando-no caído, mas o outro rapaz do grupo se mete e os quatro conseguem sair às gargalhadas do bar, levando junto o embrulho de Antônio enquanto falam obscenidades, até que a uma distância segura, o agressor pára e fala:
- Olha que eu faço com esse saco de merda!
E pisoteia dançando e galhofando no saco de supermercado que ele vinha levando com cuidado. Que tinha custado bem mais que seu salário, e que por isso havia aberto o crediário na loja. O presente que havia comprado para que a mulher e os filhos tivessem o que dar para ele no dia seguinte, dia de festas e carinho com os filhos.
O dia dos Pais.