Contos em geral, aproveitando a oportunidade da vida dada por Deus, o que gera enormes dúvidas quanto ao destino de cada um frente essa coisa chamada morte. Como um exercício de estar no mundo e de crescimento espiritual, aprendizado e diversão, contribuindo com a construção de uma pessoa melhor consigo mesma e com os outros.
sexta-feira, 7 de outubro de 2011
Teste De Momento
Sabe quando você está ali sentado, na sua, quando parece que nada vai acontecer e o mundo dá uma volta ao seu redor?
Foi mais ou menos assim:
A gente tinha ido assistir aquele filme que estava passando no Cine Pulga, com aquela atriz que da última vez ganhou o oscar porque soube mostrar a bunda, por sinal magnífica, mostrando aos jurados que fazia apenas pela personagem a cena da curra, extremamente necessária para compor o drama interno da personagem na sua fixação pela figura masculina.
Chegamos e a fila estava muito grande, mas para para nossa enorme surpresa, naquele dia o teatro ao lado ia ter uma apresentação de "Doce Sangue De Nossas Almas: Tragédia Nua e Crua", que eu na verdade achei espetacular, pois a menina assassinada no final, putaqueopariu, entreguei o final, mas vão assistir a peça, era gostosíssima.
Enfim, fui apaixonado por ela em outros tempos, e depois ela me chamou pro camarim, pois não só ela me reconheceu, como me convidou a seguir junto com os outros atores pruma festa que tava rolando num barco, e sem saber por que dizer não, garrafa de um lado, Kali do outro, lá fomos nós, e o barco no outro dia ia pra outro estado, apresentar a mesma peça:
-Vai comigo, a gente dorme junto e tu trabalha na peça!
-Se fosse só pra ficar contigo, eu faria isso todo dia, mas eu tenho minha vida aqui...
-Olha pra mim! Eu nunca pedi prum cara ficar assim comigo, por favor, você não prefere levar outra vida?
-Eu não sei o que dizer...
-...
quinta-feira, 6 de outubro de 2011
A Incrível Estória De Seu Benjamim
Estávamos sentados nos bancos de frente para a praia, debaixo da sombra do castanheiro, com uma garrafa de 51 e um saco de cajus para tira-gosto, numa posição onde podíamos também ver as pessoas que desciam para atravessar o canal em direção à areia, alguém comentando que mais tarde quando a maré baixasse ele levaria todo mundo no mangue, outro dizendo que ia pegar não sei que rabeta. Mas eu acho que todo mundo já estava muito chapado àquela altura: nem bem a garrafa ia pela metade, tinha gente querendo fazer outra coleta:
-Ô Mão-de-Sogra, chega aí e toma uma com a gente!
-Ôpa, é pra já!
-Tens uma intéra pra outra?
-Égua, sabia que vinha facada! Quanto falta?
Quando conheci o Seu Benjamim, perguntei pro Redisco, que na verdade se chama Pedro Carlos, o motivo do apelido Mão-de-Sogra:
-Tu ja viste uma mão de sogra? Pois olha pra ele!
Como ele deu por encerrada a explicação, também não perguntei mais nada. Mas era um cara gente fina, sempre que eu passava por ele ou estava bêbado ou tentando ficar, o que não era difícil, pois de todos ali era pra mim quem mais se virava. Não tinha serviço por mais tosco que fosse que ele recusasse. Fazia coisas às vezes a troco de nada, só pela amizade:
-Taí pra mais uma! Sabe de onde é esse dinheiro? A mulher do Francisco me encomendou vinte caranguejos!
E vivia sempre pegando caranguejos, subindo em coqueiros, carregando areia ou pedras, tirando toras no mato, capinando, remendando redes, pescando com elas, tirando turú, catando sarnambí, fazendo carvão, servindo de caseiro e o que mais pintasse.
Uma vez ele apareceu perguntando quem podia ajudar ele num negócio leve, três metros de pedras pruma casa que ele ia construir. Estava ficando sem um puto então me ofereci pro serviço, mas Seu Benjamim me olhou como se não acreditasse muito:
-Já carregaste pedras na vida?
-Bom, eu acho que já, quer dizer, depende da pedra...
-Depende da pedra? Então carrega aquela ali pra eu ver.
-Qual, essa dali do lado de lá do pau?
-Não, a outra de trás, aquela com um matinho.
Disse isso e deu um sorriso: era uma pedra enorme, pontuda e cheia de cracas.
Eu já passara por ela várias vezes quando ia atravessar o canal a pé, como naquela hora de maré seca. Falei que era impossível, aquela pedra devia ser muito pesada, além do que estava presa no lodo, e se ele não queria me dar o serviço pelo menos não ficasse de palhaçada, zoando com a minha cara, pois se nem ele se garantia com aquela uma.
Ele levantou a cabeça com uma certa tristeza no olhar, soltou a respiração, enxugou o copo de cachaça num só longo gole, botou a camisa nos ombros e foi cobrindo os cem metros que o separavam da pedra.
E não só conseguiu carregá-la, como veio trazendo-a nos ombros, ela que pesava em torno de oitenta quilos, cheia de lama e areia e bichos, largando-a depois aos meus pés.
-Ô Mão-de-Sogra, chega aí e toma uma com a gente!
-Ôpa, é pra já!
-Tens uma intéra pra outra?
-Égua, sabia que vinha facada! Quanto falta?
Quando conheci o Seu Benjamim, perguntei pro Redisco, que na verdade se chama Pedro Carlos, o motivo do apelido Mão-de-Sogra:
-Tu ja viste uma mão de sogra? Pois olha pra ele!
Como ele deu por encerrada a explicação, também não perguntei mais nada. Mas era um cara gente fina, sempre que eu passava por ele ou estava bêbado ou tentando ficar, o que não era difícil, pois de todos ali era pra mim quem mais se virava. Não tinha serviço por mais tosco que fosse que ele recusasse. Fazia coisas às vezes a troco de nada, só pela amizade:
-Taí pra mais uma! Sabe de onde é esse dinheiro? A mulher do Francisco me encomendou vinte caranguejos!
E vivia sempre pegando caranguejos, subindo em coqueiros, carregando areia ou pedras, tirando toras no mato, capinando, remendando redes, pescando com elas, tirando turú, catando sarnambí, fazendo carvão, servindo de caseiro e o que mais pintasse.
Uma vez ele apareceu perguntando quem podia ajudar ele num negócio leve, três metros de pedras pruma casa que ele ia construir. Estava ficando sem um puto então me ofereci pro serviço, mas Seu Benjamim me olhou como se não acreditasse muito:
-Já carregaste pedras na vida?
-Bom, eu acho que já, quer dizer, depende da pedra...
-Depende da pedra? Então carrega aquela ali pra eu ver.
-Qual, essa dali do lado de lá do pau?
-Não, a outra de trás, aquela com um matinho.
Disse isso e deu um sorriso: era uma pedra enorme, pontuda e cheia de cracas.
Eu já passara por ela várias vezes quando ia atravessar o canal a pé, como naquela hora de maré seca. Falei que era impossível, aquela pedra devia ser muito pesada, além do que estava presa no lodo, e se ele não queria me dar o serviço pelo menos não ficasse de palhaçada, zoando com a minha cara, pois se nem ele se garantia com aquela uma.
Ele levantou a cabeça com uma certa tristeza no olhar, soltou a respiração, enxugou o copo de cachaça num só longo gole, botou a camisa nos ombros e foi cobrindo os cem metros que o separavam da pedra.
E não só conseguiu carregá-la, como veio trazendo-a nos ombros, ela que pesava em torno de oitenta quilos, cheia de lama e areia e bichos, largando-a depois aos meus pés.
quarta-feira, 5 de outubro de 2011
Volta Pro Mundo
-É preciso não olhar pra trás...
Vinha descendo a rua na direção da escadinha, eram duas da tarde e as poucas pessoas que caminhavam, procurando qualquer sombra possível, tinham testas franzidas, ao invés de abrirem bem os olhos para aproveitar o espetáculo que é estar aqui e vivo:
-De alguma forma, o futuro virá e tudo será diferente...
Não sabia que futuro seria esse, e de novo queria achar que as coisas passariam a ser diferentes, mas sempre acabava reepetindo as mesmas merdas de sempre, com as mesmas pessoas de sempre, restringindo a si e aos outros, envenenando-se e tornando-se mau, piorando a cada dia em que insistia que podia enganar-se para sempre.
Continuou andando, distraído, enquanto ao seu lado passava um rapaz apressado, aparentando ter a mesma idade, que talvez por ser feriado caminhava também distraído, também com a cabeça baixa por causa do sol, mas que na hora de atravessar em direção à calçada do Banco Central, não viu o carro que subia a toda velocidade, e acertou-lhe de uma forma tão violenta que foi possível ouvir o som dos ossos se quebrando.
O motorista desceu e parecia meio embriagado, ou simplesmente atordoado pela porrada, sentou no meio fio e começou a chorar com as mãos no rosto: o rapaz estava obviamente morto e não havia mais nada que se pudesse fazer.
Por curiosidade, pelo choque daquele corpo ali estendido, alguém que um minuto atrás passara-lhe ao lado, cheio dessa energia que anima nossas vontades, mas que não pode controlar o mundo, foi-se aproximando, e assustou-se com a semelhança entre ele e o cadáver.
Sem que percebesse, um garoto de aproximadamente dez anos de idade parou ao lado, também ficou olhando a cena, e começou a falar um monte dessas besteiras de criança, mas depois se virou e encarou sério e perguntou:
-É teu parente?
-Não, não conheço, ele só passou pelo meu lado...
-Mas viu como ele se parece com o senhor? O que o senhor faz da vida?
E em menos de um minuto, sem saber o motivo, viu-se ali resumindo toda sua vida, o que fazia, seus problemas e mais o que achou importante para um garoto que provavelmente não faria a mínima idéia do que ele estava falando. Foi então que algo incrível aconteceu:
-Tio, deixa eu te dizer uma coisa. Se isso que acabaste de falar é verdade, saiba que esse homem estendido aí na frente era exatamente da tua idade, não tinha nem a metade do que tu tens, mas tava feliz da vida, porquê tinha acabado de ser contratado prum emprego melhor e ia contar isso agora pra namorada, ali na escadinha de frente pro rio. Além do que ele também é meu irmão...
terça-feira, 4 de outubro de 2011
A Luta Dos Robôs Laranja
O sol ilumina o desenho na parede: uma espécie de cenário amazônico, desses que é mais comum em bar, com uns bichos estranhos misturados, uma onça do lado de uma garça em cima de uma pedra que olhando melhor é um jabuti, eu acho.
O mais estranho é que tem no canto esquerdo superior uma coruja de um palmo, cinzenta, com grandes olhos amarelos com furinhos vermelhos no centro. Essa coruja vigia de certa forma meus movimentos, neste cubículo, há quase três anos.
Às vezes me incomodo de ver aquele bicho agourento ali. Mais de uma vez tive a certeza de vê-la mudar de lugar. O único pedido da senhoria era que nâo puséssemos tinta sobre o desenho, que ocupava todo o lado esquerdo da parede. Quem o fizera havia morrido tragicamente, quando morava ali, se jogando pela única janela, e se espatifou no asfalto dez andares abaixo, completamente nú.
Logo que mudei, pensei em cobrir com cartazes ou coisa parecida aquela pintura, mas por preguiça acabei me acostumando e deixei ficar do jeito que estava. Quando apoiva os cotovelos na janela e olhava pra baixo, sempre pensava na estória do pintor suicida, mas de alguma forma é difícil desviar o olhar, as pessoas ficam acenado lá embaixo, querendo me dizer alguma coisa, e eu tenho que me debruçar bem pra poder ouvir.
O sol nessa época costuma se pôr rapidamente, minha vista fica um tanto quanto embaralhada, dou um pulo e me sento na borda da janela como sempre faço, e fico olhando o desenho na parede, os bichos todos, mas por um momento eu pude ver perfeitamente quando um deles levantou a asa negra.
Podia ser o efeito que a minha sombra provocava sobre o desenho, mas fiquei movimentando as mãos, tentando agarrar aquela coruja, a cor agora completamente vermelha escapando por certos furinhos, preenchendo aqueles olhos, derramando-se no chão, o sol cada vez mais rápido:
-Pára cara! O que tu vais fazer!
Eu não sei quem é esse camarada que entra arrombando a porta, é alguém que veio falar comigo, com certeza, pois vejo ele se afastando muito rápido da janela, gritando meu nome por vários segundos, com os olhos muito vermelhos, e eu tenho certeza que por trás desse grito tinha muita coisa que ele queria me dizer.
O mais estranho é que tem no canto esquerdo superior uma coruja de um palmo, cinzenta, com grandes olhos amarelos com furinhos vermelhos no centro. Essa coruja vigia de certa forma meus movimentos, neste cubículo, há quase três anos.
Às vezes me incomodo de ver aquele bicho agourento ali. Mais de uma vez tive a certeza de vê-la mudar de lugar. O único pedido da senhoria era que nâo puséssemos tinta sobre o desenho, que ocupava todo o lado esquerdo da parede. Quem o fizera havia morrido tragicamente, quando morava ali, se jogando pela única janela, e se espatifou no asfalto dez andares abaixo, completamente nú.
Logo que mudei, pensei em cobrir com cartazes ou coisa parecida aquela pintura, mas por preguiça acabei me acostumando e deixei ficar do jeito que estava. Quando apoiva os cotovelos na janela e olhava pra baixo, sempre pensava na estória do pintor suicida, mas de alguma forma é difícil desviar o olhar, as pessoas ficam acenado lá embaixo, querendo me dizer alguma coisa, e eu tenho que me debruçar bem pra poder ouvir.
O sol nessa época costuma se pôr rapidamente, minha vista fica um tanto quanto embaralhada, dou um pulo e me sento na borda da janela como sempre faço, e fico olhando o desenho na parede, os bichos todos, mas por um momento eu pude ver perfeitamente quando um deles levantou a asa negra.
Podia ser o efeito que a minha sombra provocava sobre o desenho, mas fiquei movimentando as mãos, tentando agarrar aquela coruja, a cor agora completamente vermelha escapando por certos furinhos, preenchendo aqueles olhos, derramando-se no chão, o sol cada vez mais rápido:
-Pára cara! O que tu vais fazer!
Eu não sei quem é esse camarada que entra arrombando a porta, é alguém que veio falar comigo, com certeza, pois vejo ele se afastando muito rápido da janela, gritando meu nome por vários segundos, com os olhos muito vermelhos, e eu tenho certeza que por trás desse grito tinha muita coisa que ele queria me dizer.
segunda-feira, 3 de outubro de 2011
Como É Bom Morrer No Mar
Deitados na cama, suados, nus, ela olhava pela janela a árvore imensa, o céu azul mudando de cores por causa do finzinho da tarde. Deviam ser umas cinco, seis horas, e eu ali sem conseguir pensar em nada, nem ao menos juntar duas palavras para descrever o que estava sentindo.
Ela virou-se com um sorriso, mostrou a língua, eu lhe dei um beijo e novamente veio aquela coisa a que eu ainda não tinha dado nome, e lamentei por não ter nascido poeta.
Joana segurou meu rosto com as duas mãos, me olhou por alguns segundos, sentou-se sobre as pernas cruzadas e me perguntou, meio brincando, meio sério:
-O que foi?
-Nada, por que?
-Olhastes de um jeito tão estranho, parece que eu pude ver através dos teus olhos.
-E o que foi que você viu?
-Não sei, esse brilho estranho, eu diria que por um momento vi tua alma...
Novamente a sensação inominada me invadia, como se houvesse disparado um gatilho e agora não fosse possível voltar atrás. Ainda assim não podia explicar, se pudesse teria o maior prazer em contar àquela mulher tanta coisa que se agitava na minha cabeça, qualquer coisa como uma lembrança boa, distante, imaterial, embora ela estivesse ali na minha frente, ao alcance da minha mão que estiquei para tocá-la, encostando a ponta dos dedos em seu seio, descendo até os pelos do púbis, uma agonia, uma alegria, uma tristeza:
-E se eu dissesse que não sei o que é amor?
-Mas a gente não se ama, por quê me dirias isso?
-E se eu dissesse que não tenho nenhuma resposta, e como você só pergunto das coisas sem nada esperar, e que sempre soube viver com isso, mas agora parece que finalmente fiz a pergunta certa, e como consequência acabei perdendo a única certeza que tinha, e que isto me causa um enorme desconforto e agonia, como se só isso importasse?
-E alguma vez já tinhas sentido isso antes?
-Não sei. Parece que sim, quer dizer, há muito tempo que não, mas foi numa época em que eu não tinha medo de nada e achava que só eu importava no mundo, mas agora é como se eu tivesse caído no meio do oceano e tivesse desaprendido a nadar...
Calamos. Ela tentava enxergar dentro dos meus olhos o que nem eu conseguira entender, descruzou as pernas e deitou novamente ao meu lado, desta vez passando suavemente a mão pelo meu corpo, como se quisesse me consolar. Então subitamente estremeceu, apoiou o cotovelo no travesseiro e me encarou: naquele momento descobria a sorte de ser poeta, pois a única pergunta que me fez era a resposta para todas as outras perguntas, e continha no fundo aquilo que foi, é e sempre será; o que os homens vêm sentindo desde o começo dos tempos, e que a cada dia morre um pouco com cada um:
-Agora acreditas?
Ela virou-se com um sorriso, mostrou a língua, eu lhe dei um beijo e novamente veio aquela coisa a que eu ainda não tinha dado nome, e lamentei por não ter nascido poeta.
Joana segurou meu rosto com as duas mãos, me olhou por alguns segundos, sentou-se sobre as pernas cruzadas e me perguntou, meio brincando, meio sério:
-O que foi?
-Nada, por que?
-Olhastes de um jeito tão estranho, parece que eu pude ver através dos teus olhos.
-E o que foi que você viu?
-Não sei, esse brilho estranho, eu diria que por um momento vi tua alma...
Novamente a sensação inominada me invadia, como se houvesse disparado um gatilho e agora não fosse possível voltar atrás. Ainda assim não podia explicar, se pudesse teria o maior prazer em contar àquela mulher tanta coisa que se agitava na minha cabeça, qualquer coisa como uma lembrança boa, distante, imaterial, embora ela estivesse ali na minha frente, ao alcance da minha mão que estiquei para tocá-la, encostando a ponta dos dedos em seu seio, descendo até os pelos do púbis, uma agonia, uma alegria, uma tristeza:
-E se eu dissesse que não sei o que é amor?
-Mas a gente não se ama, por quê me dirias isso?
-E se eu dissesse que não tenho nenhuma resposta, e como você só pergunto das coisas sem nada esperar, e que sempre soube viver com isso, mas agora parece que finalmente fiz a pergunta certa, e como consequência acabei perdendo a única certeza que tinha, e que isto me causa um enorme desconforto e agonia, como se só isso importasse?
-E alguma vez já tinhas sentido isso antes?
-Não sei. Parece que sim, quer dizer, há muito tempo que não, mas foi numa época em que eu não tinha medo de nada e achava que só eu importava no mundo, mas agora é como se eu tivesse caído no meio do oceano e tivesse desaprendido a nadar...
Calamos. Ela tentava enxergar dentro dos meus olhos o que nem eu conseguira entender, descruzou as pernas e deitou novamente ao meu lado, desta vez passando suavemente a mão pelo meu corpo, como se quisesse me consolar. Então subitamente estremeceu, apoiou o cotovelo no travesseiro e me encarou: naquele momento descobria a sorte de ser poeta, pois a única pergunta que me fez era a resposta para todas as outras perguntas, e continha no fundo aquilo que foi, é e sempre será; o que os homens vêm sentindo desde o começo dos tempos, e que a cada dia morre um pouco com cada um:
-Agora acreditas?
domingo, 2 de outubro de 2011
Eles Não Sabem O Que Fazem
-Como se pode fazer o que se quer com todos esses problemas?
Disse isso para si mesmo em voz alta. Estivera nos últimos tempos pensando no rumo que as coisas haviam tomado. Dez anos passaram, mas parecia que tudo o que acontecera tinha sido exatamente no dia anterior, como se após todo esse tempo ele estivesse apenas dormindo e só agora ao olhar em volta se desse conta e começasse a acordar.
Tinha em cima da cômoda uma carteira de cigarros amassada, pegou-a e viu que dentro dela os cigarros já tinham mofado. Ainda guardava cigarros em casa, embora tivesse parado de fumar, mas naquele momento a vontade retornara. Talvez fosse assim pelo resto de sua vida, a cada vez que o nervosismo viesse, junto retornaria aquela vontade de fumar, que na verdade já não era tão grande assim que o fizesse tragar um cigarro mofado.
Pegou a garrafa de vodka ao lado da cama e tomou um grande gole, enchendo bem a boca antes de botar o líquido para dentro. Odiava vodka, o gosto dava vontade de vomitar, parecia que estava bebendo perfume barato, mas era o tipo de álcool que se conservava por mais tempo, outro tipo de bebida ficava simplesmente intragável de um dia pro outro, ainda mais para quem tinha, primeiro por preguiça e depois por hábito, o costume de beber direto na boca da garrafa.
-Cara, ainda são três da tarde e já estás tomando esta porcaria?
O amigo estava de pé ao lado dele, e agora olhava como se estivesse com pena, mas logo em seguida mudou de expressão e deu uma risada, depois continuou:
-Desculpa cara, mas se eu bebesse como tu, acho que não tinha mais fígado!
Ele não se importou com o comentário imbecil, aliás parecia agora que tudo o que fizera durante todo aquele tempo fora cercar-se de imbecis. Pensou em tomar mais um gole, mas o primeiro ainda não havia sentado direito. E exatamente nesse instante teve um pensamento tão forte que afastou todos os outros, e fez com que pegasse um dos cigarros mofados e pusesse no canto da boca, fazendo um gesto para que o outro lhe passasse os fósforos de cima da mesa:
-Talvez eu não tenha mais fígado mesmo. Nem coração, cérebro ou pulmões. Talvez meu corpo esteja vazio e por dentro desta casca só exista o que existia cem anos atrás e que vai existir daqui a um milhão! Ou seja, nada...
Disse isso para si mesmo em voz alta. Estivera nos últimos tempos pensando no rumo que as coisas haviam tomado. Dez anos passaram, mas parecia que tudo o que acontecera tinha sido exatamente no dia anterior, como se após todo esse tempo ele estivesse apenas dormindo e só agora ao olhar em volta se desse conta e começasse a acordar.
Tinha em cima da cômoda uma carteira de cigarros amassada, pegou-a e viu que dentro dela os cigarros já tinham mofado. Ainda guardava cigarros em casa, embora tivesse parado de fumar, mas naquele momento a vontade retornara. Talvez fosse assim pelo resto de sua vida, a cada vez que o nervosismo viesse, junto retornaria aquela vontade de fumar, que na verdade já não era tão grande assim que o fizesse tragar um cigarro mofado.
Pegou a garrafa de vodka ao lado da cama e tomou um grande gole, enchendo bem a boca antes de botar o líquido para dentro. Odiava vodka, o gosto dava vontade de vomitar, parecia que estava bebendo perfume barato, mas era o tipo de álcool que se conservava por mais tempo, outro tipo de bebida ficava simplesmente intragável de um dia pro outro, ainda mais para quem tinha, primeiro por preguiça e depois por hábito, o costume de beber direto na boca da garrafa.
-Cara, ainda são três da tarde e já estás tomando esta porcaria?
O amigo estava de pé ao lado dele, e agora olhava como se estivesse com pena, mas logo em seguida mudou de expressão e deu uma risada, depois continuou:
-Desculpa cara, mas se eu bebesse como tu, acho que não tinha mais fígado!
Ele não se importou com o comentário imbecil, aliás parecia agora que tudo o que fizera durante todo aquele tempo fora cercar-se de imbecis. Pensou em tomar mais um gole, mas o primeiro ainda não havia sentado direito. E exatamente nesse instante teve um pensamento tão forte que afastou todos os outros, e fez com que pegasse um dos cigarros mofados e pusesse no canto da boca, fazendo um gesto para que o outro lhe passasse os fósforos de cima da mesa:
-Talvez eu não tenha mais fígado mesmo. Nem coração, cérebro ou pulmões. Talvez meu corpo esteja vazio e por dentro desta casca só exista o que existia cem anos atrás e que vai existir daqui a um milhão! Ou seja, nada...
sábado, 1 de outubro de 2011
Começar É Só Começar
Como não sabia o que escrever ante a tela em branco e o cursor piscando, resolvi testar o fluxo de consciência:
Estava subindo para o terraço de um edifício, daqueles antigos, sujos do tempo e da fuligem deste ar poluído da cidade que envenena todos nós. Estou indo lá me encontrar com alguém que não sei bem quem é, embora de alguma forma consiga sentir que se trata de alguém que gosto muito, e que devo subir as escadas depressa antes de alguma merda acontecer.
Chegando lá a primeira pessoa que vejo é minha namorada; ela parecia bem, embora sua expressão demonstrasse um certo nervosismo, como se ela estivesse fazendo um esforço para se controlar. Olhei em volta e vi uma escada de madeira pesada, dessas de armar , praticamente encostada no parapeito, inclinando-se perigosamente na borda do prédio, sobre um abismo de vinte andares. E em cima dela, como que embriagado, balançava-se um macaco enorme, do tamanho de uma pessoa, segurando um rojão aceso numa das mão e masturbando-se com a outra.
Três cachorros subiam a escada atrás de mim, eram enormes, pretos, e vinham com a boca espumando e latindo e tinham os nomes escritos nas coleiras de prata brilhante, Alef, Norco e Demo. Fechei a porta que não tinha maçaneta atrás de mim, enquanto eles latiam e arranhavam e faziam o maior barulho, mas não conseguiam me pegar, pois era uma porta corta-fogo, portanto bem resistente, então arrastei umas caixas e pus na frente para que não passassem dali.
Quando olhei em volta novamente, minha namorada havia sumido. O macaco apontava o rojão para um prédio em frente, todo de vidro, onde várias pessoas trabalhavam e pareciam muito ocupadas, já que não viam que estavam prestes a ser explodidas por um gorila tarado.
Gritei para que o bicho não fizesse nada daquilo, mas ele não apenas me ignorou completamente como também acendeu um charuto depois de gozar. O prédio em frente foi atingido pelo foguete, mas ao invés de desmoronar como eu havia imaginado, apenas quebrou algumas vidraças, que logo se transformaram em puro aço translúcido pregado com rebites.
Consegui tirar o macaco de cima da escada antes que ele caísse, dei um tapa em sua mão para que largasse o charuto, encarei sua cara cínica e irônica estranhamente familiar, sorrindo pra mim e piscando um dos olhinhos, o bicho mais safado do mundo ali na minha frente, e a única coisa que pude dizer foi:
-Seu feladaputa, estás ficando doido!?! É porra que tens na cabeça também???
Ele deu uma risadinha, soltou a fumaça do trago que tinha segurado bem na minha cara, e não me surpreendeu quando disse no maior tom de galhofa e desrespeito:
-Era só brincadeirinha, hi hi hi hi hi...
Joguei o desgraçado com escada e tudo lá de cima, torcendo para que os cachorros estivessem lá embaixo e roessem seu cadáver. E estavam.
Estava subindo para o terraço de um edifício, daqueles antigos, sujos do tempo e da fuligem deste ar poluído da cidade que envenena todos nós. Estou indo lá me encontrar com alguém que não sei bem quem é, embora de alguma forma consiga sentir que se trata de alguém que gosto muito, e que devo subir as escadas depressa antes de alguma merda acontecer.
Chegando lá a primeira pessoa que vejo é minha namorada; ela parecia bem, embora sua expressão demonstrasse um certo nervosismo, como se ela estivesse fazendo um esforço para se controlar. Olhei em volta e vi uma escada de madeira pesada, dessas de armar , praticamente encostada no parapeito, inclinando-se perigosamente na borda do prédio, sobre um abismo de vinte andares. E em cima dela, como que embriagado, balançava-se um macaco enorme, do tamanho de uma pessoa, segurando um rojão aceso numa das mão e masturbando-se com a outra.
Três cachorros subiam a escada atrás de mim, eram enormes, pretos, e vinham com a boca espumando e latindo e tinham os nomes escritos nas coleiras de prata brilhante, Alef, Norco e Demo. Fechei a porta que não tinha maçaneta atrás de mim, enquanto eles latiam e arranhavam e faziam o maior barulho, mas não conseguiam me pegar, pois era uma porta corta-fogo, portanto bem resistente, então arrastei umas caixas e pus na frente para que não passassem dali.
Quando olhei em volta novamente, minha namorada havia sumido. O macaco apontava o rojão para um prédio em frente, todo de vidro, onde várias pessoas trabalhavam e pareciam muito ocupadas, já que não viam que estavam prestes a ser explodidas por um gorila tarado.
Gritei para que o bicho não fizesse nada daquilo, mas ele não apenas me ignorou completamente como também acendeu um charuto depois de gozar. O prédio em frente foi atingido pelo foguete, mas ao invés de desmoronar como eu havia imaginado, apenas quebrou algumas vidraças, que logo se transformaram em puro aço translúcido pregado com rebites.
Consegui tirar o macaco de cima da escada antes que ele caísse, dei um tapa em sua mão para que largasse o charuto, encarei sua cara cínica e irônica estranhamente familiar, sorrindo pra mim e piscando um dos olhinhos, o bicho mais safado do mundo ali na minha frente, e a única coisa que pude dizer foi:
-Seu feladaputa, estás ficando doido!?! É porra que tens na cabeça também???
Ele deu uma risadinha, soltou a fumaça do trago que tinha segurado bem na minha cara, e não me surpreendeu quando disse no maior tom de galhofa e desrespeito:
-Era só brincadeirinha, hi hi hi hi hi...
Joguei o desgraçado com escada e tudo lá de cima, torcendo para que os cachorros estivessem lá embaixo e roessem seu cadáver. E estavam.
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