quarta-feira, 27 de julho de 2011

O Pingüim Que Fumava Maconha

   Estava deitado em casa, me embalando na rede com uma revista no colo que ainda não tinha aberto, quando  minha namorada me ligou:
- Rogério! ai que bom que você atendeu meu amor, você tem que vir agora nesse exato instante aqui em casa que eu tenho que conversar uma coisa muito séria com você pessoalmente!
Achei que tinha acontecido qualquer merda, sei lá por que ela ia me ligar num domingo de manhã com  aquela urgência toda, se não fosse com certeza algo bem grave. Ainda mais porque eu costumo encher a cara aos sábados, e os domingos de manhã raríssimas vezes me pegavam acordado, exceto nos dias em que eu estava amanhecido:
- Pô amor, tem que ser agora? Hoje é domingo e eu nem sei que horas são, o que foi que aconteceu?
-Não posso te falar agora, meu amor, tem que ser pessoalmente aqui. Vem logo que é muito importante e depois a gente almoça juntos.
Achei estranho o modo como ela disse essa última frase, falando baixo como se tivesse aproximado o fone da boca para ninguém ouvir o que dizia...
- Mas o que foi que aconteceu? Tem alguém aí do teu lado, tua mãe tá por aí?
-Amor, não posso falar mais mesmo, vem logo agora que eu estou te esperando, beijo...
E desligou o telefone na minha cara. Quando tentei retornar, só dava fora de área. Embora eu tivesse o número do residencial não gostava de ligar para ele, para não correr o risco de ter que falar com os pais dela, que por um motivo qualquer que me havia fugido não aprovavam o nosso namoro, que já ia para o terceiro ano entre idas e vindas.
Olhei pro relógio, já eram quase onze, resolvi pegar o ônibus até a casa dela e saber o que houvera, aproveitando também para filar um rango, já que só tinha tomado um copo de café preto naquela manhã.
                                                                 ...
Subi pro apartamento e quando entrei os pais dela mal me cumprimentaram, sentados no sofá. Dr. Délio fumando um cigarro e D. Dica com uns olhos esbugalhados tomando uma daquelas beberagens de ervas para emagrecer que empurram pra gente substituir as refeições.
Cristina me puxou pelo braço até o quarto dela onde o irmão Marco jogava playstation e o expulsou de lá, fechando a porta. Aquilo estava muito estranho, e mal ela se virou, quem foi falando fui eu:
- Pô, Cris, que estória é essa que tá rolando aqui? São teus pais que estão com raiva de mim de novo, mas por que dessa vez?
- Amor desculpa, senta aqui do meu lado que eu vou te mostrar o que foi...
Ela estava sentada no computador e me mostrou sua página de relacionamentos, eu que por prudência tinha excluído a minha. Um amigo nosso em comum tinha postado uma mensagem agradecendo a minha presença na marcha da maconha; que tinha sido legal e coisa e tal e que contava comigo para  marchas que o coletivo fosse organizar futuramente. E os pais dela tinham lido aquela prezepada.
Foda-se o cara querer fumar maconha, a vida é de cada um, conheço um bando de maconheiros muito menos escrotos que neguinho que não fuma nada. O pior era que eu não fumava, só tomava umas biritas de vez em quando. Eu tinha ido naquele dia pra dar uma força, sacar o "Movimento Pela Liberdade", que inclusive foi bem fraco, talvez porque a maioria interessada tivesse se esquecido.
- Puta que pariu, por que tu não apagastes isso?
- Amor, não fala palavrão. Foi porque na hora que eu tava abrindo a mamãe veio por trás de mim e acabou vendo...
-  Pôrra, mas agora que a merda tá feita que queres que eu faça?
Cristina não teve tempo de responder a pergunta, que era mais ou menos retórica, mas ela de qualquer forma não saberia dizer o que queria que eu fizesse, já que naquele momento bateram e foram entrando, depois de confabularem na sala, o Dr. Délio e a D. Dica, que ficaram em pé e me fizeram sentar na cama, enquanto a Cris continuava no computador. Foi o velho quem quebrou o silêncio, depois de espalhar a fedentina do cigarro por todo o recinto:
- Senhor Rogério, gostaria que você soubesse que gostamos muito de nossa filha e não admitimos, não admitimos ouviu bem?, que ela ande na companhia de um viciado em drogas. Você viu o que seu amigo escreveu ali para nossa Cristina sobre sua presença naquela reunião de drogados. Eu não estou lhe acusando de nada, veja bem, mas eu gostaria de ouvir de sua boca, meu filho, você fuma maconha?
Olhei para Cristina e vi o pânico em seus olhos. Aquilo havia sido uma armadilha que eles tinham armado contra mim e ela caíra como um patinho. Bastava eu dizer a verdade, que não fumava merda de droga nenhuma e tudo voltaria a ser como antes, ou seja, permaneceria aquela eterna desconfiança sobre até que ponto o meu caráter poderia influenciar negativamente a santa que eles tinham em casa.
O fato é que depois de quase três anos eu já estava de saco cheio daquilo tudo;  até porque independente daquilo, o nosso relacionamento não chegaria a lugar algum. Então fiz uma coisa que eles não esperariam nunca: Que eu dissesse a verdade. Ou seja, menti.
-Dr. Délio, D. Dica, perdão pelo aborrecimento, mas eu fumo maconha sim, e muita! Uma sacola cheia por dia. Inclusive antes de vir para cá fumei um baseado deste tamanho.
   Disse para eles com a cara mais cínica possível e estendendo bastante os braços como um daqueles caras que contam estórias de pescador.
                                                                      ....

No fim da tarde já estava em casa, de novo me embalando na rede com a revista que ainda não tinha lido no colo, sem namorada, sem aporrinhação, mas também sem ter almoçado graças àquela palhaçada de marcha. Pôrra, que merda, tenho cara de pingüim ou praça do exército para ficar marchando feito um babaca por aí, ainda mais por causa de um motivo tão idiota quanto esse, com o país estando a merda que está? Ora vá...
Mas não cheguei a terminar o pensamento, porque naquele instante alguém tocava a campainha. Bosta! Só faltava ser a polícia que o Dr. Délio falou que ia chamar se eu me aproximasse da filha dele de novo. Mas para meu profundo espanto, era o irmão mais novo da Cris, o moleque Marcos, que eu achava que não sabia falar, só jogar playstatyion.
- Ô rapaz, entra aí, repara a bagunça não que casa de homem é assim mesmo, qual é o galho, querem internar a tua irmã por minha causa? Queres um café, água, cerveja, qualquer coisa?
Ele não queria nada. Como nunca tinha estado ali antes ficou olhando meio apalermado até encontrar um lugar para se sentar, ao lado da mesa, onde colocou um papelzinho dobrado que começou a desembrulhar, até tirar de dentro um baseado todo amassado, parecendo uma minhoca suicidada, e então falou:
- Aí Rogê, é assim que todo mundo te chama né? Fiquei bolado com a onda hoje lá em casa, mas tu fostes muito firme, cara, falastes na cara dos velhos e achei foi bem-feito, pra eles deixarem de ser caretas, achando que podem montar nos outros. Aí falei pra Cris: 'pô, o  teu namorado deve tá na pior'; mas ela falou: 'foda-se', aí eu pensei, 'pô, eu tenho uma massa paraguaia aqui, vou levar pro Rogê aí ele vai ficar numa nice', já que tú fumas também...
Puta merda, e mais essa! Agora ia ter que explicar pro guri que eu menti pros pais dele, só porque sabia que aquele era o melhor jeito de me livrar completamente das aporrinhações, atual e futuras; que não fumava aquilo e ainda por cima achava uma perda de tempo. Mas já tinha decepcionado gente demais naquele dia, e o garoto não tinha culpa de nada, achava que tinha ido lá me fazer um favor. Então me peguei dizendo as seguintes palavras:
- Faz o seguinte então, vai acendendo aí enquanto eu vou aqui na cozinha ver se  acho um cinzeiro ou qualquer merda assim... Não queres mesmo uma cerveja?

2 comentários:

  1. Legal, parabéns pelo conto. Seguirei. Convido a visitar também o meu blog: http://olhodeprosa.blogspot.com. Abraço!

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  2. Valeu, irmão, já passei lá. Um abraço!

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