Contos em geral, aproveitando a oportunidade da vida dada por Deus, o que gera enormes dúvidas quanto ao destino de cada um frente essa coisa chamada morte. Como um exercício de estar no mundo e de crescimento espiritual, aprendizado e diversão, contribuindo com a construção de uma pessoa melhor consigo mesma e com os outros.
segunda-feira, 7 de maio de 2012
A Derrota da Cobra de Araque
É muito difícil viver só. Por mais que se queira evitar qualquer convivência, às vezes é bacana ter um interlocutor, ao invés de ficar falando sozinho:
"O que cê achou do jogo?, -Cara, achei meio assim, assado,é complicado esse time jogando nada!, -Esse ano então não levamos o campeonato?, -Estás louco? De jeito nenhum, ouviste essa goleada fácil, nosso time estava uma merda..."
Quando o cara começa a conversar sozinho, mesmo em pensamento, já é algo estranho. Quando o cara começa então a discutir sozinho, em voz alta, vira um problema:
-Pôrra, mas ano que vem esse time melhora...
-Mas que nada! Pior é que sou eu mesmo dizendo essas coisas, vendo esses boleiros sem vergonha que não vestem a camisa! E a torcida na ilusão de sempre achar que no próximo ano vai ser melhor!
-Égua, mas brasileiro tem memória fraca mesmo! Não tem uma trinca de anos que a gente levou o título nacional!
-Não, tens razão, não dá para discordar deste teu argumento, mas é um time de futebol, não um museu! Não posso discutir comigo mesmo, nunca vamos concordar nisso que a gente discorda.
-Isso mesmo, então te liga e baixa o tom.
-Você que fale direito consigo, seu...
Começou a estapear-se ele mesmo, até que correu para a cozinha perseguido por ele atrás de si.
Pegou então uma faca, virando-se eviscerou o perseguidor, as tripas correram pelo chão como cobras, ele tentando botá-las de volta para dentro:
-Estás vendo, seu filhadaputa, é isso que eu faço...
Com ele mesmo.
domingo, 6 de maio de 2012
Pedras Portuguesas
Feita de madeira carcomida, havia uma escada em frente à casa que caía aos pedaços. Devia subí-la para encontrar o Velho.
Batidas na porta.
"Entra", ele disse.
Ruim, péssima situação que não dá para descrever, pior do que a tristeza:
-Como vai? Você consegue entrar e sair dessa casa, meu Velho? Percebe que em breve tudo vai desmoronar?
O que estava acontecendo? Vítima da idade? Depressão? Pois se faltava algo, o que se podia fazer.
Visivelmente faltava alguma coisa, como, como:
"Adivinha, moleque: estou naquele estágio da vida quando nada funciona sem os nossos por perto..."
Pedi que ele esperasse um pouco mais, mas ele não podia. Porque finalmente havia enlouquecido: vivia no futuro, eu no passado.
Um cara que eu conheci e que me deu tanta coisa.
Mas aquela personalidade não existia mais, visivelmente não era a mesma pessoa.
Minha dúvida era se eu ainda teria tempo e disposição para ajudá-lo.
Só que ele mudou demais.
Inacreditável alguém tão bom que em poucos anos torna-se o inverso do que pregou a vida inteira, fazendo todo mundo sofrer porque virou um extremo filhadaputa.
Mas assim são as coisas.
A gente torna-se exatamente o oposto do que queria ser.
Passam os anos, continuamos cegos, então com sorte a proximidade da morte fazia com que encontrássemos novamente a verdade.
Não que fosse o caso, mas é uma injustiça tão grande ver quem amamos enlouquecendo de uma vez e para sempre.
"Tenha coração."
Eu lembro de tudo. Penso em você e lembro de tudo.
sábado, 5 de maio de 2012
Peso Sem Alma
-Shhhh!
-Pô, negão, tá pedindo silêncio por quê?
-Shhhh, caralho, tu és surdo?
Passou a viatura, eu não tinha percebido, depois que dobrou a esquina ele me fez levantar:
-Agora confias em mim? Me dá o dinheiro e espera aqui.
Dei o dinheiro, fingindo que esperava. Ele se afastou e comecei a seguir de longe o figura.
Nesse tempo ainda andava com minha faca, qualquer coisa varava ele ou qualquer outro maluco, pois nego tinha que ser dez vezes pior que eu para me dar o conto.
Melhor conhecer essa galera do que passar batido, já que maluco quando tem uma pistola se acha o dono do mundo. Mostrei a faca:
-Vais guardar essa porra senão eu tomo ela de ti, estás doido?
Olhei pra cara dele, não estava para brincadeira. Cheio de cicatrizes, dava pra ver que o vagabundo tinha sobrevivido a tudo quanto é coisa.
Ele falou que agente tinha levado um "conto", então tivemos que armar uma "casinha".
Assim é a vida: se maluco te fode, tu fodes o cara de volta.
Tipo lei de mercado.
Queria fosse só pilantrice, mas mistura aí a mesquinhez e cara-de-pau de quem não tem nada a perder, porque caboco safado é foda!
Bem, tirando as safadezas e etecétera, a gente vivia em relativa harmonia, até o dia em que rolou a treta:
-Passate mesmo quantos anos na cadeia?
-O tempo que deverias ficar lá para aprender o que é respeito.
Mandei uma piada(?), para quebrar o gelo:
-Putz, mordeste grade esses anos todos e ninguém comeu o teu cú?
Tinha sangue no olho do infeliz, mas no fundo era uma boa pessoa.
Quando o juiz deu a sentença, quase vinte anos de reclusão, ele nem piscou, achou que merecia.
Eu podia ter dito que foram só duas facadinhas, uma no peito e outra na garganta, mesmo à sangue-frio, num verme que valia menos que um cuspe. A gente passou uma semana de tocaia, dia e noite rondando a casa dele, tudo premeditado, até o dia em que o Negão viu ele saindo sozinho da garagem, distraído, achando graça no celular, então percebi que meu brother tinha razão: o cara era um traficante de merda, puta safado, deixando todo mundo fodido, depois pagava uma de patrão, chupando a pica dos viadinhos que enrabavam ele no motel.
Achei foi graça vendo o cara estrebuchando no chão, com um talho enorme na garganta, pedindo pra não morrer. O som saía engrolado, misturado com o barulho do jorro de sangue da ferida aberta com a facada. Depois saí fora, pouco antes da polícia chegar:
-Te devo muito, Negão, livraste minha cara.
-Velho, te falei, não me arrependo. Já-já saio daqui, mas se pudesse traria aquele filhadaputa de volta à vida, só que não sou Jesus e infelizmente ele continua bem morto mesmo.
-Pô, negão, tá pedindo silêncio por quê?
-Shhhh, caralho, tu és surdo?
Passou a viatura, eu não tinha percebido, depois que dobrou a esquina ele me fez levantar:
-Agora confias em mim? Me dá o dinheiro e espera aqui.
Dei o dinheiro, fingindo que esperava. Ele se afastou e comecei a seguir de longe o figura.
Nesse tempo ainda andava com minha faca, qualquer coisa varava ele ou qualquer outro maluco, pois nego tinha que ser dez vezes pior que eu para me dar o conto.
Melhor conhecer essa galera do que passar batido, já que maluco quando tem uma pistola se acha o dono do mundo. Mostrei a faca:
-Vais guardar essa porra senão eu tomo ela de ti, estás doido?
Olhei pra cara dele, não estava para brincadeira. Cheio de cicatrizes, dava pra ver que o vagabundo tinha sobrevivido a tudo quanto é coisa.
Ele falou que agente tinha levado um "conto", então tivemos que armar uma "casinha".
Assim é a vida: se maluco te fode, tu fodes o cara de volta.
Tipo lei de mercado.
Queria fosse só pilantrice, mas mistura aí a mesquinhez e cara-de-pau de quem não tem nada a perder, porque caboco safado é foda!
Bem, tirando as safadezas e etecétera, a gente vivia em relativa harmonia, até o dia em que rolou a treta:
-Passate mesmo quantos anos na cadeia?
-O tempo que deverias ficar lá para aprender o que é respeito.
Mandei uma piada(?), para quebrar o gelo:
-Putz, mordeste grade esses anos todos e ninguém comeu o teu cú?
Tinha sangue no olho do infeliz, mas no fundo era uma boa pessoa.
Quando o juiz deu a sentença, quase vinte anos de reclusão, ele nem piscou, achou que merecia.
Eu podia ter dito que foram só duas facadinhas, uma no peito e outra na garganta, mesmo à sangue-frio, num verme que valia menos que um cuspe. A gente passou uma semana de tocaia, dia e noite rondando a casa dele, tudo premeditado, até o dia em que o Negão viu ele saindo sozinho da garagem, distraído, achando graça no celular, então percebi que meu brother tinha razão: o cara era um traficante de merda, puta safado, deixando todo mundo fodido, depois pagava uma de patrão, chupando a pica dos viadinhos que enrabavam ele no motel.
Achei foi graça vendo o cara estrebuchando no chão, com um talho enorme na garganta, pedindo pra não morrer. O som saía engrolado, misturado com o barulho do jorro de sangue da ferida aberta com a facada. Depois saí fora, pouco antes da polícia chegar:
-Te devo muito, Negão, livraste minha cara.
-Velho, te falei, não me arrependo. Já-já saio daqui, mas se pudesse traria aquele filhadaputa de volta à vida, só que não sou Jesus e infelizmente ele continua bem morto mesmo.
sexta-feira, 4 de maio de 2012
Impedida Liberdade
"Seja humilde na alegria, moderado na tristeza, comedido na vida."
Esta é a estória de um grande amigo.
Ele nasceu na década de oitenta, estudou, trabalhou, fez tudo como o costume manda, mas reclamava demais, não conseguia sofrer quieto. A gente insistia:
-Brother! Realmente não acredito que aches tua própria vida a merda que dizes que ela é! Tua situação é ótima, tem gente que só se fode, olha em redor...
-Pôrra! Queres me comparar com a escória? Caralho, eu devia ter nascido milionário!
Coitado.
A capacidade de reclamar é inversamente proporcional à motivação para tentar fazer alguma coisa da vida, e diretamente proporcional à capacidade de colecionar desgraças..
Deus sabe o motivo, mas ele encontrou uma mulher, ou foi ela que o encontrou, mas antes que ele pudesse escapar, ela engravidou.
Então finalmente entendeu o que todo mundo sempre "teimava em me dizer, eu acreditando que era papo-furado, preso na minha concha, só escutando minha própria voz, reclamando..."
Era feliz e não sabia.
E sua esposa, como toda mulher que se preze, estava deixando-o louco. Aí começou a fazer merda atrás de merda, mais do que o habitual, e reclamava, reclamava, deixando os que realmente gostavam dele muito tristes, embora por um motivo qualquer não fossem capazes de desistir assim tão fácil:
-Quando esse cara vai cair na real, meu Deus?
Pois finalmente um dia, antes que fosse tarde, ele percebeu o motivo de tudo aquilo que estava acontecendo.
Deu-se conta que desde sempre havia sido abençoado, pois tinha muitas vitórias mas supervalorizava os fracassos; que maltratava os próximos por pura ignorância; que nunca teria chegado lá se caminhasse sozinho.
E que se continuasse insistindo em ser um cabeça-dura, as pessoas que o ajudaram de coração aberto achariam tal atitude repulsiva, não exitando em cobrar cada centavo devido na justiça.
Percebeu que ainda era jovem, e que agindo dessa maneira, insistindo nesse comportamento que até ele sabia estar errado, só alguns teriam pena: mas a maioria sentiria grande prazer em vê-lo se foder, testemunhando do seu desprezo pelos que o amavam ao acercar-se unicamente de bajuladores, pois ao contrário dos ratos que nunca têm para onde ir, os bons já haviam abandonado o barco, e da margem a única coisa que poderiam fazer era lamentar e rezar, enquanto viam-no afundar lentamente junto da escória que tanto odiava.
Pois estiveram na sua frente durante toda vida, ele achando que encobriam o sol ao invés de propiciarem a sombra aprazível de que sempre necessitou, caminhando a passos largos os gigantes, mas que infelizmente sequer era-lhes permitido olhar para trás.
quinta-feira, 3 de maio de 2012
Funk, Rock, Metal Alternativo
Tinha acabado de chover.
O bar estava lotado, as pessoas que passaram a tarde bebendo nas mesas da calçada estavam concentradas debaixo do toldo, e finalmente começavam a dispersar.
Foi nesse momento que ela chegou:
-Oi! Finalmente nos encontramos! Que som é esse?
-Senta aí.
Puxei uma cadeira e começamos a conversar. Ela podia até não gostar da música, mas pelo menos a cerveja ali tinha um preço justo e naquele dia estava vindo incrivelmente gelada. Perguntei:
-Quer ir pra outro lugar?
-Não, está bom assim.
Frequento aquele bar desde a época em que alugava uma casa ali perto, o dono já me conhecia e vendia birita fiado, então estava tranquilo.
Ela não falava muito, mas toda vez que bebia um gole sorria pra mim, piscava os olhos e botava a mão na minha coxa, como se fosse a coisa mais natural do mundo.
Não me lembro direito como aconteceu, mas em dado momento a gente saiu para passear, rodou a cidade, se desencontrou, nos encontramos novamente, até que sugeri irmos pra casa.
E o cheiro dessa mulher, Deus!
Deixou minha cama, os lençóis, a rede, a roupa, os caibros do teto e as telhas de barro, todos morrendo de saudade de viver aquela coisa maravilhosa de novo, mesmo sem saber o que viria a acontecer depois.
quarta-feira, 2 de maio de 2012
Intervalo do Silêncio
Uma das coisas que ela gostava era passar as tardes nua na cama. E depois de três, quatro horas se amando, a gente finalmente conseguia conversar.
Não que fosse importante falar qualquer coisa.
Ela ficava calada, o olhar perdido.
Eu às vezes queria saber o que ela estava pensando, só não tinha coragem de perguntar. Talvez por medo da resposta, era melhor ficar calado também.
Durante certo tempo, quando a gente se encontrava, com poucas palavras nos satisfazíamos: ela não questionava nada de mim, embora eu soubesse tudo da vida dela.
Pelo menos assim imaginava, até quando perguntei certa vez:
-Olha como é engraçado: achando que uma ação vale mais do que qualquer palavra, tenho mais do que pedi; agora depois que te encontrei, além de escutar teus sussurros, preciso saber o que pensas.
-Então diz, sobre o que queres saber?
-Minha vida toda venho procurando por isso: me expressar sem utilizar palavras. Aí aparece você, que me entende perfeitamente e não me pergunta nada, não me cobra nada e tens a alma tão livre que te vejo deitada do meu lado na cama e fico imaginando: "O que será que ela pensa?".
-Como assim?
-Não que eu ligue, mas dá curiosidade de te ver olhar tão fixamente pra cima, como se fossem criar vida os caibros no teto...
-Ha, ha, ha! Mas tu, hein? Sabia que também não faço idéia do que pensas de verdade? Mas no fundo isso não importa; advinha o que eu quero agora. Te dar um beijo!
E me deu um beijo tão inesperado, que até uma estátua teria se mexido.
Era impossível raciocinar naquelas condições:
-Vês só! É isso o que eu quero dizer: dessa mulher incrível que és!
-Ha, ha, ha, ha! Seu louco! Pára com isso e vem logo aqui tirar a minha blusa...
terça-feira, 1 de maio de 2012
Escrever Você
Batiam palmas na rua. Após alguns segundos, percebi que era na frente de casa. Desci e vi a moça ao mesmo tempo em que ela ligava no celular, naquele sol da tarde, reclamando:
-Até que enfim, né?
Tentei explicar que a rua inteira batia palmas quando chegava em casa, acho que era uma espécie de mandinga, ou então eles também não tinham campainha como eu:
-Se você vier outra vez, bate com o cadeado desse jeito, que eu vou saber que é aqui.
O som metálico que o cadeado fazia ao bater forte na grade do portão reverberava por toda casa, sobressaindo entre os barulhos da rua, inconfundível, até me alcançar lá em cima. Eu poderia estar dormindo, no meio do sétimo sono, na semivigília, mas instantaneamente gritava: "Já vou!"
Subimos.
Ela sentou na cama e me olhou de um jeito calmo, como se esperasse alguma coisa de mim, mas eu não podia esperar: comecei a beijá-la e pedi que tirasse a roupa, o que ela fez prontamente. Enfiei a boca em seu seio e ela começou a se contorcer, até colar seu corpo no meu.
Havia árvores e luz do sol; nuvens que passeavam pelos ares, levadas pelo vento, derramando-se carregadas de chuvas.
E o vento trazia as gotas que refrescavam, secando nosso suor ao mesmo tempo em que acariciava o corpo da mulher que me escolhera naquela tarde; então anoiteceu, aí ela segurou meu rosto com ambas as mãos:
-Posso te dizer uma coisa?
-Claro!
-Tenho que ir embora, mas um dia eu volto...
Me olhava meio que se desculpando:
"Ela nunca mais vai voltar." pensei, "Outra vez, resista..."
Mas tive que falar:
"Depois de tanto tempo distante você aparece de novo na minha vida, isso é inacreditável! Quem espera a volta de alguém incessantemente, ressuscitado por este sopro frio e doce, aquela por quem sentimentos possuía, e que até hoje não passavam de boas lembranças? És capaz de reviver tantas coisas boas aparentemente esquecidas, ressurgindo com essa força maior que a gente nunca teve? Agora é de verdade, volta mesmo!"
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