Contos em geral, aproveitando a oportunidade da vida dada por Deus, o que gera enormes dúvidas quanto ao destino de cada um frente essa coisa chamada morte. Como um exercício de estar no mundo e de crescimento espiritual, aprendizado e diversão, contribuindo com a construção de uma pessoa melhor consigo mesma e com os outros.
sexta-feira, 26 de agosto de 2011
Um Dia De Praia
Arrumamos nossas coisas, fechamos a casa e saímos para encontrar nosso amigo Rodão e sua mulher Aline, além do Baratão e do Surfista e a namorada dele. O combinado tinha sido sair bem cedo para aproveitar o dia todo na praia, tomar banho na maré, fazer avoado, pegar jacaré, essas coisas...
- Égua, mas uma hora dessas? Tou acordado olha que tempo! Vi foi o sol nascer deitado aqui.
Não duvidava que o Baratão tivesse acordado cedo. O problema é que ele tinha acordado mas continuara deitado na rede, e quando chegamos ele estava apenas 'cochilando' enquanto nos esperava:
- Então já chegamos, pelo menos enche umas duas garrafas dessas de dois litros que não vai ter água pra tomar lá.
- Mas precisa de duas garrafas?
- Cara, são nem oito horas e olha esse sol! Leva que a gente vai sentir sede.
- Seu moço, falando em sede, me diga uma coisa aqui pra esse seu amigo: estás levando o nosso goró?
Dessa vez foi a Nise quem falou:
- Credo, Baratão! Mal levantastes, não tomastes nem café e já estás pensando na cachaça! Eu, hein!?!
Ele reclamou que já tinha tomado café sim, 'vocês não escutaram eu dizendo que tou acordado desde cedo?', e que só tinha perguntado da birita porque no dia anterior eu tinha prometido que ia trazer. Então mostrei pra ele no saco junto com as frutas e a farinha as duas garrafas de Cinquenta e Um, e eu esperava que fosse suficiente praquele fígado. Mais animado, ele resolveu se levantar da rede, encheu as duas garrafas, e saímos os três para encontrar o Rodão e o Surfista.
- Égua, eu já estava indo lá chamar vocês!
Uma das coisas mais incríveis da ilha era que todo mundo acordava com o nascer do sol, mas para não fazer absolutamente nada. Alguns ficavam apenas se embalando, outros fumavam logo o primeiro do dia, e a maioria fumava deitada e se embalava. O que não era o caso dos meus amigos: o Rodão já tinha limpado e preparado os peixes que pegara na primeira vazante da madrugada, no curral do Seu Bacuri; o Surfista já estava lá com a namorada e a prancha, e ninguém tinha fumado nenhum ainda.
- Tudo certo, bora logo antes que o sol esquente mais!
E lá fomos nós sete, descendo na direção do começo da trilha que pegaríamos para chegar mais rápido à praia do Meupé. Indo por ali ficava mais ou menos a uma hora de distância, contornando a entrada do mangue.
O Surfista bolou um enquanto a namorada segurava a prancha; o Baratão matou praticamente sozinho metade de uma garrafa de cachaça; eu e a Nise parávamos às vezes para bater umas fotos, pegar uns ajirús nos arbustos, se refrescar no igarapé que já era bem próximo da praia, até que finalmente chegamos.
Saímos do mato direto para a areia branca, exatamente nos fundos da casa de salgar de algum pescador. Parecia que estava desocupada fazia tempo, e lá deixamos nossas coisas, juntamos uns paus para mais tarde fazer o fogo, e logo em seguida corremos para se jogar na maré.
E foi a manhã toda assim, entre goles de cachaça, pernas de grilo, água, frutas, farinha e avoado que passamos o dia. Revezando-nos com a prancha do Surfista, embalando-se na rede, jogando bola, ou simplesmente sentados na sombra embaixo do telhadinho de sapê entrançado, sentindo o vento que vinha do mar, salgado e ininterrupto, colaborando com o mormaço no paciente trabalho de curtir as peles dos bichos que éramos, naquele espaço enorme de mundo onde a gente não fazia nem peso, nem pesava em ninguém.
quinta-feira, 25 de agosto de 2011
Trabalho de Geografia
Quando avisei a mãe que o trabalho era na casa do Gabriel, ela fez uma careta e retrucou:
- Mas na casa daquele garoto? Não tinha um grupo pior pra tu te reunires pra fazer este bendito trabalho?
Minha mãe podia até não acreditar, mas existiam grupos piores que o meu sim. Ainda mais naquela turma de segundo ano cheia de gente tosca, eu que nunca tinha estudado à tarde, mas naquele ano seria impossível continuar no turno da manhã, por causa do valor do desconto:
- Pôxa, mãe! O Gabriel é um cara bacana. Só um pouco desleixado, meio fedorento, meio desligado, mas gente boa. E a casa dele fica perto do colégio, é mais fácil pra todo mundo chegar lá.
Minha mãe tinha visto o Gabriel uma só vez na vida e tivera péssima impressão, como todas as mães que o viam pela primeira vez. Ele se vestia sempre dos pés à cabeça de preto, acho que justamente para fazer contraste com a pele muito branca, que de alguma forma ele conseguia evitar que pegasse sol, pois eu nunca tinha visto um cara tão branco.
Quando ele chegava atrasado para a aula então, que parava no portão e tirava um cigarro do bolso, geralmente apagado na metade, e começava a fumar soltando fumaça no rosto do porteiro? Estava sempre muito pálido, de óculos escuros, cantarolando umas músicas em inglês no meio das conversas, meio que no mundo da lua:
- Égua, ôhhh! Quero ver quando daqui a pouco vão te confundir com um vampiro desses vagabundos por aí, então eu vou achar muita graça da tua cara, ha, ha, ha, ha, ha!
Na hora marcada, só estava o Leandro me esperando no local combinado, para irmos juntos fazer o trabalho de geografia:
- Cadê o Patrick?
- Rapaz, ele perguntou se não podia colocar o nome dele que amanhã ele fala com a gente lá na sala...
Eu não usava celular, mas pelo menos o Patrick tivera a decência de avisar que estava dando o cano na gente, evitando que esperássemos ali feito dois patetas. Só isso já valia o nome dele no trabalho, o foda ia ser na hora de apresentar a parte oral, mas no outro dia a gente dava um jeito. Sempre dava.
Não imaginava que a casa do Gabriel fosse tão grande, o muro pelo menos, e quando tocamos a campainha foi ele mesmo quem veio abrir o portão. Estava meio calado, com os óculos escuros de sempre, e dois cachorros beagle corriam estabanados em volta dele, querendo encontrar uma brecha para fugir.
- Entra logo, cuidado com o Tom e o Nick, lá pra trás!
Pensei que ele estava falando com os bichos, mas era para eu e o Leandro irmos andando, o quarto dele ficava nos fundos, separado da casa principal por um caminho no jardim, que fazia tempo não era cuidado, com mato crescendo por todo lado, exceto no lugar onde pisávamos. Passamos em frente à sala e notei que dali vinha o som de música clássica, mas não havia ninguém escutando.
Por algum motivo o Leandro que tinha vindo comigo estava inquieto, agitado, parecendo com um dos cachorros, perguntando nervoso enquanto cutucava o Gabriel:
- Que cheiro é esse? Que cheiro é esse? É o que eu estou pensando? Cadê tua mãe?
Aquela amizade dos dois era desconhecida pra mim, mas resolvi me concentrar no que era o quarto dele, que entrávamos agora. Quem poderia imaginar que um cara que se vestia unicamente de preto, vivia num lugar tão colorido que mais parecia uma viagem de ácido do que um quarto. As paredes pintadas com sprays de todas as cores, mas incrivelmente coerentes; pôsters diversos, de gosto duvidoso, alguns bem antigos e outros mais recentes; muitos discos de vinil abarrotando uma estante e uns tantos outros espalhados; vestidos coloridos, chapéus, mantas, algo realmente impressionante e caótico, misturado com o aroma de incenso por sobre um outro cheiro peculiar:
- Cara, foi isso que sobrou de Woodstock? Onde a gente vai fazer o trabalho de geografia? Os teus cachorros vão entrar no grupo também? E esse cheiro eu acho que conheço, isso por acaso não seria...
O Gabriel nem esperou que eu terminasse a pergunta. Levantou de cima do cinzeiro um daqueles cigarros que ele costumava fumar só até a metade, só que esse era bem diferente de um cigarro comum:
- Toma um pega...
Se o Leandro mostrasse aquele interesse para qualquer outra coisa, com certeza teria muito sucesso na vida. Ele mal tinha estendido o basesado, e o leandro já pulava com os olhos brilhando para dar uma tragada, como se aquilo fosse o último copo d'água num deserto. Quando me ofereceu, recusei, tinha um trabalho para entregar no outro dia que valia a nota toda da avaliação, e não ia passar o resto da tarde momozando e fumando maconha. Para não dar uma de careta, disse que daria uns tapas, mas só depois que a gente terminasse com o que tínhamos ido fazer ali.
Consegui desocupar uma mesa dos refugos do dancing days, e botei minha mochila em cima, enquanto ia tirando os bagulhos, digo, o caderno e os livros lá de dentro. O leandro já estava bem à vontade, fumando deitado na cama e olhando fixamente prum pôster do Jefferson Airplane no teto, enquanto nosso anfitrião confeccionava mais um cigarro de cannabis com extremo cuidado, o que me fez pensar que ele ainda daria um excelente médico-cirurgião. E foi justamente nesse momento que entrou um furacão no quarto:
- Oi, tudo bem com vocês? Gabriel, tu vistes por onde eu larguei o enforcado? já ofereceste alguma coisa pros teus amigos? O quê que o Nick e o Tom estão fazendo bagunçando por aqui? Posso abrir a janela pra sair um pouco essa marofa? Por que o figurino da peça do teu tio está jogado no chão? Ah, tá aqui, achei! Fiquem à vontade pra estudar o trabalho de vocês, que depois eu trago um lanchinho pra matar a larica. Vem Nick, vem Tom, tchau então pra vocês, até mais tarde...
A Dona Sônia era uma figuraça. É muito difícil tentar descrevê-la aqui, e provavelmente ela já deve ter pintado o cabelo de outra cor. Depois que ela trouxe uns sandubas com refresco pra gente, tocou um pouco de violão, falou das viagens que tinha feito quando era mais ou menos da nossa idade, uma "porra-louca", leu o futuro meu e do Leandro nas cartas, e ainda me emprestou um livro do Timothy Leary, eu achei que o Gabriel tinha muita sorte de ter uma mãe tão bacana como aquela.
Do trabalho me lembro pouco, nem sei se a gente conseguiu mesmo apresentar aquela porcaria no outro dia, a maior parte das lembranças daquela tarde tinham virado fumaça. Mas daquele dia em diante, eu o Leandro e o Patrick, que tinha nos dado o cano mas que soube da estória, fazíamos de tudo para que todos nossos trabalhos fossem feitos na casa do Gabriel, que graças aos nossos esforços da época conseguiu passar no curso de medicina, após o que foi fazer um ano de residência na Jamaica.
- Mas na casa daquele garoto? Não tinha um grupo pior pra tu te reunires pra fazer este bendito trabalho?
Minha mãe podia até não acreditar, mas existiam grupos piores que o meu sim. Ainda mais naquela turma de segundo ano cheia de gente tosca, eu que nunca tinha estudado à tarde, mas naquele ano seria impossível continuar no turno da manhã, por causa do valor do desconto:
- Pôxa, mãe! O Gabriel é um cara bacana. Só um pouco desleixado, meio fedorento, meio desligado, mas gente boa. E a casa dele fica perto do colégio, é mais fácil pra todo mundo chegar lá.
Minha mãe tinha visto o Gabriel uma só vez na vida e tivera péssima impressão, como todas as mães que o viam pela primeira vez. Ele se vestia sempre dos pés à cabeça de preto, acho que justamente para fazer contraste com a pele muito branca, que de alguma forma ele conseguia evitar que pegasse sol, pois eu nunca tinha visto um cara tão branco.
Quando ele chegava atrasado para a aula então, que parava no portão e tirava um cigarro do bolso, geralmente apagado na metade, e começava a fumar soltando fumaça no rosto do porteiro? Estava sempre muito pálido, de óculos escuros, cantarolando umas músicas em inglês no meio das conversas, meio que no mundo da lua:
- Égua, ôhhh! Quero ver quando daqui a pouco vão te confundir com um vampiro desses vagabundos por aí, então eu vou achar muita graça da tua cara, ha, ha, ha, ha, ha!
Na hora marcada, só estava o Leandro me esperando no local combinado, para irmos juntos fazer o trabalho de geografia:
- Cadê o Patrick?
- Rapaz, ele perguntou se não podia colocar o nome dele que amanhã ele fala com a gente lá na sala...
Eu não usava celular, mas pelo menos o Patrick tivera a decência de avisar que estava dando o cano na gente, evitando que esperássemos ali feito dois patetas. Só isso já valia o nome dele no trabalho, o foda ia ser na hora de apresentar a parte oral, mas no outro dia a gente dava um jeito. Sempre dava.
Não imaginava que a casa do Gabriel fosse tão grande, o muro pelo menos, e quando tocamos a campainha foi ele mesmo quem veio abrir o portão. Estava meio calado, com os óculos escuros de sempre, e dois cachorros beagle corriam estabanados em volta dele, querendo encontrar uma brecha para fugir.
- Entra logo, cuidado com o Tom e o Nick, lá pra trás!
Pensei que ele estava falando com os bichos, mas era para eu e o Leandro irmos andando, o quarto dele ficava nos fundos, separado da casa principal por um caminho no jardim, que fazia tempo não era cuidado, com mato crescendo por todo lado, exceto no lugar onde pisávamos. Passamos em frente à sala e notei que dali vinha o som de música clássica, mas não havia ninguém escutando.
Por algum motivo o Leandro que tinha vindo comigo estava inquieto, agitado, parecendo com um dos cachorros, perguntando nervoso enquanto cutucava o Gabriel:
- Que cheiro é esse? Que cheiro é esse? É o que eu estou pensando? Cadê tua mãe?
Aquela amizade dos dois era desconhecida pra mim, mas resolvi me concentrar no que era o quarto dele, que entrávamos agora. Quem poderia imaginar que um cara que se vestia unicamente de preto, vivia num lugar tão colorido que mais parecia uma viagem de ácido do que um quarto. As paredes pintadas com sprays de todas as cores, mas incrivelmente coerentes; pôsters diversos, de gosto duvidoso, alguns bem antigos e outros mais recentes; muitos discos de vinil abarrotando uma estante e uns tantos outros espalhados; vestidos coloridos, chapéus, mantas, algo realmente impressionante e caótico, misturado com o aroma de incenso por sobre um outro cheiro peculiar:
- Cara, foi isso que sobrou de Woodstock? Onde a gente vai fazer o trabalho de geografia? Os teus cachorros vão entrar no grupo também? E esse cheiro eu acho que conheço, isso por acaso não seria...
O Gabriel nem esperou que eu terminasse a pergunta. Levantou de cima do cinzeiro um daqueles cigarros que ele costumava fumar só até a metade, só que esse era bem diferente de um cigarro comum:
- Toma um pega...
Se o Leandro mostrasse aquele interesse para qualquer outra coisa, com certeza teria muito sucesso na vida. Ele mal tinha estendido o basesado, e o leandro já pulava com os olhos brilhando para dar uma tragada, como se aquilo fosse o último copo d'água num deserto. Quando me ofereceu, recusei, tinha um trabalho para entregar no outro dia que valia a nota toda da avaliação, e não ia passar o resto da tarde momozando e fumando maconha. Para não dar uma de careta, disse que daria uns tapas, mas só depois que a gente terminasse com o que tínhamos ido fazer ali.
Consegui desocupar uma mesa dos refugos do dancing days, e botei minha mochila em cima, enquanto ia tirando os bagulhos, digo, o caderno e os livros lá de dentro. O leandro já estava bem à vontade, fumando deitado na cama e olhando fixamente prum pôster do Jefferson Airplane no teto, enquanto nosso anfitrião confeccionava mais um cigarro de cannabis com extremo cuidado, o que me fez pensar que ele ainda daria um excelente médico-cirurgião. E foi justamente nesse momento que entrou um furacão no quarto:
- Oi, tudo bem com vocês? Gabriel, tu vistes por onde eu larguei o enforcado? já ofereceste alguma coisa pros teus amigos? O quê que o Nick e o Tom estão fazendo bagunçando por aqui? Posso abrir a janela pra sair um pouco essa marofa? Por que o figurino da peça do teu tio está jogado no chão? Ah, tá aqui, achei! Fiquem à vontade pra estudar o trabalho de vocês, que depois eu trago um lanchinho pra matar a larica. Vem Nick, vem Tom, tchau então pra vocês, até mais tarde...
A Dona Sônia era uma figuraça. É muito difícil tentar descrevê-la aqui, e provavelmente ela já deve ter pintado o cabelo de outra cor. Depois que ela trouxe uns sandubas com refresco pra gente, tocou um pouco de violão, falou das viagens que tinha feito quando era mais ou menos da nossa idade, uma "porra-louca", leu o futuro meu e do Leandro nas cartas, e ainda me emprestou um livro do Timothy Leary, eu achei que o Gabriel tinha muita sorte de ter uma mãe tão bacana como aquela.
Do trabalho me lembro pouco, nem sei se a gente conseguiu mesmo apresentar aquela porcaria no outro dia, a maior parte das lembranças daquela tarde tinham virado fumaça. Mas daquele dia em diante, eu o Leandro e o Patrick, que tinha nos dado o cano mas que soube da estória, fazíamos de tudo para que todos nossos trabalhos fossem feitos na casa do Gabriel, que graças aos nossos esforços da época conseguiu passar no curso de medicina, após o que foi fazer um ano de residência na Jamaica.
quarta-feira, 24 de agosto de 2011
Zoológico Dos Atores
Os dois cachorros brincavam no meio da rua, mordiam um ao outro, perseguiam-se, pulavam pra calçada, assutavam algumas poucas senhoras que passavam àquela hora.
Seu Manuel do açougue estava servindo uma freguesa, meio quilo de músculo moído e mais um de agulha com osso, tirado o excesso de gordura; e já se preparava para atender Dona Lúcia, que acabara de aparecer na porta com seu carrinho de compras.
Jennifer tinha um salão onde oferecia desde cortes unissex até todo tipo de tratamentos para o cabelo, luzes, mechas, escovas de açaí e chocolate, além de serviços de manicure e pedicure à domicílio, contando para isso com o trabalho de algumas de suas amigas, que empregava em seu negócio oferecendo em troca sempre uma remuneração justa.
Na esquina funciona o Bar do Montanha, onde apenas três caras bebendo cerveja, incluindo o dono do bar, assistiam ao programa de esportes habitual da hora do almoço; e sem mais assuntos que conversar, ficavam apenas respirando calados, vez ou outra levantando um copo, ou se virando para olhar os cachorros que não paravam de correr e fazer barulho.
O sol estava esbraseante como sempre, e o calor era tanto que nem os passarinhos pousavam mais nos fios, preferiam com certeza se esconder na sombra úmida por dentro das copas das árvores. Um carro acabara de aparecer no começo da rua, muito distante, um carro preto que vinha acelerando depois de cantar os pneus. Uma bola cor de laranja voa por cima do muro de um pátio, onde duas crianças brincavam; uma delas abre o portão, e depois de localizar a bola do outro lado, atravessa correndo para ir buscá-la.
O carro passa muito rápido, ouve-se o barulho de um grande estalo e um grito pavoroso. A cor vermelha por um momento tinge o ar, até que some, sobrando apenas o negror da fumaça e o cheiro de combustível queimado.
O Montanha se levantou da cadeira, pôs as mãos na cabeça, e não conseguiu dizer uma única palavra. Os outros dois continuaram sentados e bêbados.
Leidyane e Marlene saíram logo do salão e foram olhar da rua; enquanto isso lá dentro Jennifer quardava o dinheiro do caixa no cós da calça, para também sair junto com suas funcionárias e dar uma olhadinha no ocorrido.
Seu Manuel pedia licença às freguesas para arredarem as cabeças, pois ele estava atendendo atrás do balcão e não poderia sair dali para verificar de perto o acidente. Duas velhinhas pararam na esquina horrorizadas.
Indo naquela velocidade, com certeza o carro preto já estaria muito longe. E daquelas pessoas, a única que chorava era a criança, com a bola laranja no colo. Não porque estivesse machucada. A dor que sentia não poderia ser dor física, pois lhe vinha de fora, através dos olhos que enxergavam um cachorro branco esmagado, com suas vísceras e o sangue fresco espalhados pelo asfalto; sangue salpicado no rosto que tinha um gosto doce como o das flores. Observava também um outro cão, imóvel e triste ao lado do companheiro morto, que mirava a cena provavelmente sem entender nada.
terça-feira, 23 de agosto de 2011
Domingo Na Praça
O dia estava muito claro e o céu de um azul completamente sem nuvens, o que costuma despertar na maioria das pessoas uma vontade de sair para a rua, de passear por aí ao lado de alguém, ou até para encontrar alguém. Principalmente se este dia, pra grande felicidade de José Eulálio, coincidisse com um feriado, quando portanto não precisava trabalhar.
Saiu então também pra rua, ligou e ficou de encontrar uma pessoa. E essa pessoa, assim como ele, gostava muito de tomar birita. Ele então sugeriu de encontrarem-se num bar:
- Pô, mas sabe o que é? Eu estou sem capital pra tomar cerveja, por que a gente não aproveita hoje e vai tomar uma vodka lá na praça?
- Tá na mão! Então a gente se encontra lá daqui a uma hora!
- Falou!
A praça, como de costume, naquele dia estava cheia de gente. José Eulálio tinha levado a vodka, e dava pequenos goles enquanto admirava a tarde, sentado naquele banco de praça. Pensou ele: "Cara, que dia feliz! Não sei se é essa bebida. Não sei se é essa espectativa no ar... só sei que hoje não quero me matar! Pelo contrário, quero hoje celebrar a vida! Quero olhar nos olhos de cada pessoa que me olhar e desejar boa tarde..."
- Boa tarde!
Os dois rapazes, talvez namorados, não entenderam muito bem, e talvez por acharem que era um assalto, apertaram o passo. Mas o céu continuava muito lindo, a luz do sol tinha ficado mais forte, as folhas balançavam com o vento. E como estava bonita aquela tarde:
- Boa tarde!
- Pra ti também!
As duas falaram e continuaram caminhando. Acenei pra elas e fiquei olhando enquanto elas iam embora rindo. O que mais faltava ali? Sentei de novo e fiquei dando boa tarde pra todo mundo que passava. Quando a pessoa que eu esperava chegou, haviam uns cinco desocupados em volta de mim, escutando as piadas mais toscas do mundo, mas achando graça de graça; e eu também contente de muito, que nem sei que horas consegui notá-la ali:
- Aí ele fez desse jeito com a bola pra quicar, bateu duas solas e...
Lá estava ela na minha frente, linda, fazendo cara de brava, porque eu já estava muito doido, a garrafa tava pela metade, e só agora eu tinha visto ela.
- Te amo...
Levantei de um salto e não deixei ela fugir. Como eu amava essa mulher! Dei um beijo nela, e depois mais outro, e mais outro... E não queria parar de beijar aquela boca maravilhosa. Até que estranhamente senti alguém cutucando meu ombro com um dedo sujo e pontudo. Era um dos vagabundos que tinha se levantado do banco, querendo mais um gole da vodka que já estava no fim:
- Pô chegado, aí tu falastes do cara que bateu duas solas... e qual é dessa cana aí?
- Pois é irmão, aí o senhor vem me impregnar com esse papo furado só por causa de birita? Então o cara bateu as solas, deu uma bicuda assim e falou: "Olha que nem eu faço no cú de quem vem me tirar por causa de cachaça!"
segunda-feira, 22 de agosto de 2011
Entre os Leões
Ouço as vozes de milhares de pessoas gritando para além destes grossos portões de madeira encardida. Querem que comece logo o espetáculo; o pão já está no fim, e sua paciência também. É o sangue de nós doze que eles clamam para ver jorrar como espetáculo, pois têm medo. Medo e temor e reverência pela morte que enxergam sem conhecerem. O mesmo receio que os impede de ouvirem os próprios pensamentos.
Os portões se abrem e somos lançados contra a claridade cegante lá de fora. Todas as pessoas nas arquibancadas daquela arena urram de prazer ao nos verem entrar cambaleantes. Estamos ha muito tempo sem alimentos, nos deram água suja para beber, o mais velho de nós, Simão, está caído sem fazer a menor questão de se levantar. Pessoas que vieram aqui assistir a um espetáculo foram enganadas, pois nenhum de nós tem força para se garantir nem com os próprios membros.
Meus olhos acostumaram-se com a luz. Olho em redor e vejo toda a arquibancada tomada, neste chão somos apenas nós e a nossa fé, de nos encontrarmos em breve com Aquele de quem nosso Mestre tanto falava. Por um instante, não consigo entender o que está acontecendo, o grito em nossas cabeças diminui de volume, e conseguimos escutar uns aos outros:
- O que aconteceu?
- Não sei.
- Olhem!
A figura que Pedro apontara vinha subindo num traje explendorosíssimo a escada do camarote real, seguido por todo um séquito de escravos e escravas também vestidos com muita pompa, para servirem-no em todos os seus caprichos. Governador das Terras do Ocidente e Oriente, César, o Magnífico. E a um mísero gesto seu, foram abertos doze portões, de onde saíram doze enormes feras selvagens, que foram deixadas quase tão esfomeadas quanto nós de propósito, para delírio de toda aquela multidão enlouquecida que agora gritava mais do que podiam compreender meus ouvidos e minha razão.
A gente tenta correr e mais do que isso não se pode fazer. O pobre Simão é o primeiro a ser abatido, duas feras derrubam-no de frente ao chão e imediatamente começam a arrancar grandes pedaços de sua magra carne. Vejo João ser degolado por uma das feras que avança sobre ele, e depois pára pra lamber o sangue que lhe escorre pela ferida no pescoço. Um de nós se ajoelha e ergue as mãos em desespero, dizendo que não precisa mais ver aquilo, no momento em que um leão dos maiores arranca-lhe os olhos e metade da cara com uma patada certeira, com aquelas garras afiadíssimas que atiram fulminado ao chão o pobre Tomé.
Tudo acontece muito rápido. O sol louco volta a me cegar, a fraqueza é tanta que sinto que estou prestes a desmaiar, talvez seja até melhor assim. Todos os meus onze amigos estão mortos, e eu sou o único que resta ali de pé, apenas aguardando qual será o destino reservado a mim pelo Altíssimo. Imagino que qualquer que seja esse destino, necessariamente terá de passar por este leão em minha frente, na certa o maior de todos. Os outros encontram-se entretidos com as carnes das outras vítimas de até onde pode chegar a crueldade e ódio humanos.
Onde poderia minha força contra a de uma fera selvagem? Que homem nesta terra conseguiria não tremer de pavor ante um perigo tão incomensurável como aquele? E que males na terra ou no universo podem subjugar aquele que com um gesto lá dos céus, manda à terra todos os seus anjos para que o mal nunca o alcance, e as armas dos inimigos passem sempre ao seu lado? Quem é ao mesmo tempo Pai, Filho, e Espírito Santo?
...
O gigantesco animal parece que gozava desse momento, com o zurro que vinha das outras feras nas arquibancadas, que lambuzavam-se no sangue e vísceras de seus próprios irmãos. Urravam histéricos em meio a um orgasmo coletivo, provocado pela bestialização de suas almas, após tantas carnificinas a que eram obrigados a se submeter diariamente, do contrário não lhes seria dado pão para comer.
Olho para o azul infinito acima de mim, e fico imaginando em que ponto daquela imensidão eu estarei logo mais, então caio de joelhos, pensando em como seria bom para mim escutar novamente a voz límpida como água de nosso Mestre, ao lado do Senhor Altíssimo. Mas quando meus joelhos tocaram o chão, senti que meu joelho direito batera em algo duro, não uma pedra ou pau, mas ferro: uma faca.
O Leão têm os olhos injetados e o rosto empapado de sangue. É assustador, ele está a uns cinco metros de mim apenas, parado, preparando o pulo. Recolho cuidadosamente a mão com a faca junto à minha cintura e espero que ele salte. Quando ele toma impulso e abrem-se suas duas enormes patas para me agarrar, ainda tenho tempo de mirar o centro de suas costelas, antes de esticar o braço o mais que posso para frente, segurando rijo com a mão a faca apontada para cima.
Os portões se abrem e somos lançados contra a claridade cegante lá de fora. Todas as pessoas nas arquibancadas daquela arena urram de prazer ao nos verem entrar cambaleantes. Estamos ha muito tempo sem alimentos, nos deram água suja para beber, o mais velho de nós, Simão, está caído sem fazer a menor questão de se levantar. Pessoas que vieram aqui assistir a um espetáculo foram enganadas, pois nenhum de nós tem força para se garantir nem com os próprios membros.
Meus olhos acostumaram-se com a luz. Olho em redor e vejo toda a arquibancada tomada, neste chão somos apenas nós e a nossa fé, de nos encontrarmos em breve com Aquele de quem nosso Mestre tanto falava. Por um instante, não consigo entender o que está acontecendo, o grito em nossas cabeças diminui de volume, e conseguimos escutar uns aos outros:
- O que aconteceu?
- Não sei.
- Olhem!
A figura que Pedro apontara vinha subindo num traje explendorosíssimo a escada do camarote real, seguido por todo um séquito de escravos e escravas também vestidos com muita pompa, para servirem-no em todos os seus caprichos. Governador das Terras do Ocidente e Oriente, César, o Magnífico. E a um mísero gesto seu, foram abertos doze portões, de onde saíram doze enormes feras selvagens, que foram deixadas quase tão esfomeadas quanto nós de propósito, para delírio de toda aquela multidão enlouquecida que agora gritava mais do que podiam compreender meus ouvidos e minha razão.
A gente tenta correr e mais do que isso não se pode fazer. O pobre Simão é o primeiro a ser abatido, duas feras derrubam-no de frente ao chão e imediatamente começam a arrancar grandes pedaços de sua magra carne. Vejo João ser degolado por uma das feras que avança sobre ele, e depois pára pra lamber o sangue que lhe escorre pela ferida no pescoço. Um de nós se ajoelha e ergue as mãos em desespero, dizendo que não precisa mais ver aquilo, no momento em que um leão dos maiores arranca-lhe os olhos e metade da cara com uma patada certeira, com aquelas garras afiadíssimas que atiram fulminado ao chão o pobre Tomé.
Tudo acontece muito rápido. O sol louco volta a me cegar, a fraqueza é tanta que sinto que estou prestes a desmaiar, talvez seja até melhor assim. Todos os meus onze amigos estão mortos, e eu sou o único que resta ali de pé, apenas aguardando qual será o destino reservado a mim pelo Altíssimo. Imagino que qualquer que seja esse destino, necessariamente terá de passar por este leão em minha frente, na certa o maior de todos. Os outros encontram-se entretidos com as carnes das outras vítimas de até onde pode chegar a crueldade e ódio humanos.
Onde poderia minha força contra a de uma fera selvagem? Que homem nesta terra conseguiria não tremer de pavor ante um perigo tão incomensurável como aquele? E que males na terra ou no universo podem subjugar aquele que com um gesto lá dos céus, manda à terra todos os seus anjos para que o mal nunca o alcance, e as armas dos inimigos passem sempre ao seu lado? Quem é ao mesmo tempo Pai, Filho, e Espírito Santo?
...
O gigantesco animal parece que gozava desse momento, com o zurro que vinha das outras feras nas arquibancadas, que lambuzavam-se no sangue e vísceras de seus próprios irmãos. Urravam histéricos em meio a um orgasmo coletivo, provocado pela bestialização de suas almas, após tantas carnificinas a que eram obrigados a se submeter diariamente, do contrário não lhes seria dado pão para comer.
Olho para o azul infinito acima de mim, e fico imaginando em que ponto daquela imensidão eu estarei logo mais, então caio de joelhos, pensando em como seria bom para mim escutar novamente a voz límpida como água de nosso Mestre, ao lado do Senhor Altíssimo. Mas quando meus joelhos tocaram o chão, senti que meu joelho direito batera em algo duro, não uma pedra ou pau, mas ferro: uma faca.
O Leão têm os olhos injetados e o rosto empapado de sangue. É assustador, ele está a uns cinco metros de mim apenas, parado, preparando o pulo. Recolho cuidadosamente a mão com a faca junto à minha cintura e espero que ele salte. Quando ele toma impulso e abrem-se suas duas enormes patas para me agarrar, ainda tenho tempo de mirar o centro de suas costelas, antes de esticar o braço o mais que posso para frente, segurando rijo com a mão a faca apontada para cima.
domingo, 21 de agosto de 2011
O Homem e Os Peixes
O barco navegara já doze horas seguidas, a maioria dos nove tripulantes estava dormindo, se protegendo como podia da maresia e do sol. Mas três deles permaneciam acordados: Betinho, o comandante; Geraldo, o braço direito e o pé esquerdo, que todos conheciam como Geral; e Jonas, que tinha sete fôlegos e não dispensava serviço tanto no mar quanto em terra firme.
As ondas jogavam sem parar, o vento constante era forte o suficiente pra fazê-las subir bem mais de um metro, fazendo o barco balançar bastante. Estavam contornando naquele momento a costa de Marajó, na direção da Ilha de Mexiana, mas parariam bem depois, num pedaço que apenas quem já estivera lá saberia chegar: o Capitão e o Geral. Ficava não muito longe da costa, mar aberto, mas onde em menos de três dias seria-lhes possível carregar os porões com as sete toneladas de lastro. Pescadas, Douradas, Corvinas, e mais alguns outros peixes com bom valor de venda que desse para tirar algum lucro no final.
Quem ficava com o grosso do dinheiro era o patrão, que afinal de contas era quem investia alto na empreitada, cujos riscos eram baixos mas existiam. Podia-se passar às vezes mais de duas semanas no mar, quando a maré não estava boa ou quando quebrava alguma peça do motor.
O capitão Betinho pensava nisso e noutras coisas. No quanto passaria a economizar se desse certo esta segunda viagem que fazia para o ponto que ele e Geral haviam descoberto nas proximidades de uma tal Ilha do Afonso, que não constava dos mapas. Ali pegaram tantos peixes, Filhotes, Dourados, Anchovas, que tiveram de parar para comprar mais gelo. A linha d'água do barco nesse dia ficou rente como nunca antes havia ficado. E foi ali no entreposto do gelo, que o dono do comércio explicou para eles que aquela ilha era encantada:
" Uns vinte anos atrás, e tu podes ver que eu já tenho ha muito tempo esse comércio aqui, tinha um homem que era conhecido em todo Araraquara por beber muito. Mas esse homem bebia tanto, que toda vez ele vinha aqui comigo no fim da tarde, começava a beber com o pessoal aí, e só quando todo mundo ia embora ele levantava também e ainda pedia mais duas corotes dessas pra levar pra casa. Mas até aí tudo bem. Só que teve um dia em que ele tinha recebido uma ponta graúda e tava bebendo mais do que o de costume. Ficou tão doido, que mal anoiteceu, bateu nele uma cisma e ele quis ir embora. Pediu pra levar uma caixa fechada com seis purinhas, botou na montaria dele e foi-se como se tivesse o diabo atrás, todo mundo falando pro Afonso ficar porque era noite já, e ele não tinha levado lamparina.
Sei que quando eu tava pra fechar veio a mulher do Afonso. Falou que tava preocupada porque ele tinha ido receber um dinheiro e prometido que voltaria pra casa assim que baixasse o sol. Então eu e os cinco que ainda estavam por aqui pegamos cada um seu casco, e saímos procurando, mas àquela hora era impossível.
No dia seguinte a gente arrumou um barco maior, procuramos e achamos só a canoa dele. Então fomos olhar pelas praias, até que naquela ilha lá perto de onde vocês pescaram a gente achou o cú do Afonso. Não ri não, foi isso mesmo! É porque os peixes comeram ele todo, mas como ele tava usando bermuda, a parte do cú nem as piranhas conseguiram comer. E o mais incrível é que as garrafas de cachaça estavam ali na areia do lado dele, fechadinhas na caixa, e a gente aproveitou para beber as seis enquanto fazia o enterro, e no final em homenagem demos o nome da ilha de Ilha do Cú do Afonso."
...
Finalmente chegaram no ponto exato onde a pescaria tinha sido tão boa na vez anterior. Betinho e Geraldo olharam para uma ilha lá fora, um ponto muito distante sobre o verde contra o azul do céu, e Jonas imediatamente compreendeu. O capitão mandou-o desligar o motor, e quando ele desceu lá e girou a chave, tudo ficou no mais perfeito silêncio. Os outros seis pescadores dormiam, ainda demoraria até preparar as redes para começar a lançar. Mas ao olharem para fora, os três foram pegar suas linhas e anzóis; Geral rapidamente cortou uma sardinha pra servir como isca; Jonas sentou-se na mureta com os pés quase tocando a água; Betinho apenas sorria.
O mar abaixo deles, muito transparente, fervilhava com enormes peixes de todas as espécies.
As ondas jogavam sem parar, o vento constante era forte o suficiente pra fazê-las subir bem mais de um metro, fazendo o barco balançar bastante. Estavam contornando naquele momento a costa de Marajó, na direção da Ilha de Mexiana, mas parariam bem depois, num pedaço que apenas quem já estivera lá saberia chegar: o Capitão e o Geral. Ficava não muito longe da costa, mar aberto, mas onde em menos de três dias seria-lhes possível carregar os porões com as sete toneladas de lastro. Pescadas, Douradas, Corvinas, e mais alguns outros peixes com bom valor de venda que desse para tirar algum lucro no final.
Quem ficava com o grosso do dinheiro era o patrão, que afinal de contas era quem investia alto na empreitada, cujos riscos eram baixos mas existiam. Podia-se passar às vezes mais de duas semanas no mar, quando a maré não estava boa ou quando quebrava alguma peça do motor.
O capitão Betinho pensava nisso e noutras coisas. No quanto passaria a economizar se desse certo esta segunda viagem que fazia para o ponto que ele e Geral haviam descoberto nas proximidades de uma tal Ilha do Afonso, que não constava dos mapas. Ali pegaram tantos peixes, Filhotes, Dourados, Anchovas, que tiveram de parar para comprar mais gelo. A linha d'água do barco nesse dia ficou rente como nunca antes havia ficado. E foi ali no entreposto do gelo, que o dono do comércio explicou para eles que aquela ilha era encantada:
" Uns vinte anos atrás, e tu podes ver que eu já tenho ha muito tempo esse comércio aqui, tinha um homem que era conhecido em todo Araraquara por beber muito. Mas esse homem bebia tanto, que toda vez ele vinha aqui comigo no fim da tarde, começava a beber com o pessoal aí, e só quando todo mundo ia embora ele levantava também e ainda pedia mais duas corotes dessas pra levar pra casa. Mas até aí tudo bem. Só que teve um dia em que ele tinha recebido uma ponta graúda e tava bebendo mais do que o de costume. Ficou tão doido, que mal anoiteceu, bateu nele uma cisma e ele quis ir embora. Pediu pra levar uma caixa fechada com seis purinhas, botou na montaria dele e foi-se como se tivesse o diabo atrás, todo mundo falando pro Afonso ficar porque era noite já, e ele não tinha levado lamparina.
Sei que quando eu tava pra fechar veio a mulher do Afonso. Falou que tava preocupada porque ele tinha ido receber um dinheiro e prometido que voltaria pra casa assim que baixasse o sol. Então eu e os cinco que ainda estavam por aqui pegamos cada um seu casco, e saímos procurando, mas àquela hora era impossível.
No dia seguinte a gente arrumou um barco maior, procuramos e achamos só a canoa dele. Então fomos olhar pelas praias, até que naquela ilha lá perto de onde vocês pescaram a gente achou o cú do Afonso. Não ri não, foi isso mesmo! É porque os peixes comeram ele todo, mas como ele tava usando bermuda, a parte do cú nem as piranhas conseguiram comer. E o mais incrível é que as garrafas de cachaça estavam ali na areia do lado dele, fechadinhas na caixa, e a gente aproveitou para beber as seis enquanto fazia o enterro, e no final em homenagem demos o nome da ilha de Ilha do Cú do Afonso."
...
Finalmente chegaram no ponto exato onde a pescaria tinha sido tão boa na vez anterior. Betinho e Geraldo olharam para uma ilha lá fora, um ponto muito distante sobre o verde contra o azul do céu, e Jonas imediatamente compreendeu. O capitão mandou-o desligar o motor, e quando ele desceu lá e girou a chave, tudo ficou no mais perfeito silêncio. Os outros seis pescadores dormiam, ainda demoraria até preparar as redes para começar a lançar. Mas ao olharem para fora, os três foram pegar suas linhas e anzóis; Geral rapidamente cortou uma sardinha pra servir como isca; Jonas sentou-se na mureta com os pés quase tocando a água; Betinho apenas sorria.
O mar abaixo deles, muito transparente, fervilhava com enormes peixes de todas as espécies.
sábado, 20 de agosto de 2011
Noites de Maleita
Era por volta do meio dia e eu não aguentava mais aquela secura na garganta, aquela sensação de que tenho um punhado de areia na boca, toda vez que eu engulo. Peguei a carteira de identidade e o cartão do plano de saúde que o governo me obriga a comprar dele, mesmo que eu não queira ou não use. De qualquer forma aquela era uma boa oportunidade de fazer jus ao dinheiro gasto. Nem me lembrava da última vez que tinha me voltado aquele problema da garganta. É como dizem: da nossa saúde a gente só lembra quando está doente.
Peguei o ônibus e uma hora depois estava numa fila, esperando que uma mulher anotasse o número do meu cartão e me desse uma senha:
- O que o senhor têm?
- É a minha garganta, eu quero falar com um clínico.
- O que o senhor têm na garganta?
- Olha, minha amiga, eu só quero falar com um clínico porque eu sei como é esse negócio da minha garganta, eu só preciso de uma receita, me faz esse favor?
Agradeci a compaixão da atendente, guardei a porcaria do papel no bolso e me sentei ao lado de uma senhora que estava assistindo tevê. Não demorou muito e apareceu o código da minha senha no placar eletrônico(?) e eu fui procurar a sala 26A, onde se daria a tal consulta. Estava sentindo um pouco de frio embora tivesse o corpo quente, o que era sinal evidente de febre. Mas eu sabia exatamente o que era aquilo; desde pequeno que venho sofrendo com inflamações na garganta; já tinha tomado vários antibióticos, que curam por um tempo, mas após alguns anos isso sempre volta. O que fez um médico dizer uma vez para mim eu tinha de extrair as amídalas, se quisesse nunca mais ter esse problema.
A médica que me atendeu parecia mais nova que eu. Entrei e depois que eu sentei ela perguntou:
- O senhor que é o seu Pedro Ferreira?
Respondi que sim e ia começar a descrever os meus sintomas, quando ela esticou a mão por cima da mesa e pegou na minha testa. Largou e começou a rabiscar uma receita e dizer, sem nem ao menos ter olhado minha garganta ou ter ouvido o que eu tinha pra falar:
- Olha, senhor Pedro, você toma esse remédio daqui a cada doze horas, durante cinco dias, que você vai ficar bom.
- Mas doutora, eu queria que você por favor...
- Ah, como não! Já ia me esquecendo, olhe só!
Falou pra mim como se estivesse seguindo um roteiro de comédia mal feito e fosse uma péssima atriz. Enfiou a mão por debaixo da mesa e puxou de uma gaveta um vidrinho com três pílulas dentro. Mandou-me estender a mão e falou sorrindo, como se tivesse acabado de fazer um gesto de caridade e com isso salvasse mais um pedacinho da sua alma para o paraíso:
- Toma pra você, é amostra grátis!
Peguei o vidrinho e a receita que ela terminara de assinar e carimbar, agradeci e saí, daquela que com certeza tinha sido a consulta mais rápida da minha vida. A médica mal pegou na minha testa, só fez ler o que estava escrito no papel dela, que além do meu nome só tinha aquilo que eu tinha dito para a atendente que me dera a senha. E eu não sei o que ela imaginou que eu ia falar quando prescreveu o remédio, talvez os sintomas de uma doença raríssima que busquei no google, mas pra fazer eu calar a boca me deu a amostra grátis. E o mais incrível é que funcionou.
Voltei pra casa e tomei a pílula, e enquanto tentava fazer alguma coisa no computador, pareceu que a tela começou a flutuar e tremer. As imagens nela mexiam-se quando não era para estarem se mexendo. As teclas dançavam sob os meus dedos, as paredes se afastavam e pareciam querer cair em cima de mim. Levei a mão ao pescoço e vi que estava pelando de febre, delirando e batendo o queixo feito um lunático.
Saí de casa parecendo um zumbi. Sei que era de noite e fui andando na direção do ponto de ônibus, imaginando como poderia conseguir um táxi pra chegar mais rápido, com apenas vinte reais no bolso. Foi aí que vi um cara com uma camiseta escrita a palavra 'mototaxi', encostado numa moto ligada. E não sei se devido à pressa ou ao delírio, fui lá, dei o endereço do lugar e perguntei quanto era.
- Dez real.
- Bora!
Peguei o capacete que ele me deu, subi na garupa e acho que em menos de quinze minutos a gente chegou, mas eu não estava muito em condições de contar o tempo. A febre parecia aumentar sempre, faltava pouco para que meus miolos cozinhassem dentro da cachola. O rapaz pegou minha nota de vinte, olhou pra minha cara, olhou de novo pra nota e falou que não tinha troco. Depois falou pra eu não esquentar que ele ia bem ali na esquina trocar e depois voltava. Subiu de novo na moto, deu a partida, e nunca mais o vi. Como além de roubado não queria acabar morto, resolvi entrar para nova consulta.
- Minha nossa! Pedro Ferreira, o que foi que aconteceu?
Ah, agora ela queria saber! Por coincidência era a mesma médica que me atendera mais cedo, que ficou alarmada quando me viu entrar na sala dela com o lado direito do pescoço tão inchado quanto vermelho. Agora sim ela me atendeu direito, perguntou meu histórico, me mandou abrir a boca, etc, e depois mandou me aplicarem uma injeção e um soro, não sem antes dobrar a dosagem da mesma medicação que havia me passado. Só que agora de oito em oito horas.
Peguei o ônibus e uma hora depois estava numa fila, esperando que uma mulher anotasse o número do meu cartão e me desse uma senha:
- O que o senhor têm?
- É a minha garganta, eu quero falar com um clínico.
- O que o senhor têm na garganta?
- Olha, minha amiga, eu só quero falar com um clínico porque eu sei como é esse negócio da minha garganta, eu só preciso de uma receita, me faz esse favor?
Agradeci a compaixão da atendente, guardei a porcaria do papel no bolso e me sentei ao lado de uma senhora que estava assistindo tevê. Não demorou muito e apareceu o código da minha senha no placar eletrônico(?) e eu fui procurar a sala 26A, onde se daria a tal consulta. Estava sentindo um pouco de frio embora tivesse o corpo quente, o que era sinal evidente de febre. Mas eu sabia exatamente o que era aquilo; desde pequeno que venho sofrendo com inflamações na garganta; já tinha tomado vários antibióticos, que curam por um tempo, mas após alguns anos isso sempre volta. O que fez um médico dizer uma vez para mim eu tinha de extrair as amídalas, se quisesse nunca mais ter esse problema.
A médica que me atendeu parecia mais nova que eu. Entrei e depois que eu sentei ela perguntou:
- O senhor que é o seu Pedro Ferreira?
Respondi que sim e ia começar a descrever os meus sintomas, quando ela esticou a mão por cima da mesa e pegou na minha testa. Largou e começou a rabiscar uma receita e dizer, sem nem ao menos ter olhado minha garganta ou ter ouvido o que eu tinha pra falar:
- Olha, senhor Pedro, você toma esse remédio daqui a cada doze horas, durante cinco dias, que você vai ficar bom.
- Mas doutora, eu queria que você por favor...
- Ah, como não! Já ia me esquecendo, olhe só!
Falou pra mim como se estivesse seguindo um roteiro de comédia mal feito e fosse uma péssima atriz. Enfiou a mão por debaixo da mesa e puxou de uma gaveta um vidrinho com três pílulas dentro. Mandou-me estender a mão e falou sorrindo, como se tivesse acabado de fazer um gesto de caridade e com isso salvasse mais um pedacinho da sua alma para o paraíso:
- Toma pra você, é amostra grátis!
Peguei o vidrinho e a receita que ela terminara de assinar e carimbar, agradeci e saí, daquela que com certeza tinha sido a consulta mais rápida da minha vida. A médica mal pegou na minha testa, só fez ler o que estava escrito no papel dela, que além do meu nome só tinha aquilo que eu tinha dito para a atendente que me dera a senha. E eu não sei o que ela imaginou que eu ia falar quando prescreveu o remédio, talvez os sintomas de uma doença raríssima que busquei no google, mas pra fazer eu calar a boca me deu a amostra grátis. E o mais incrível é que funcionou.
Voltei pra casa e tomei a pílula, e enquanto tentava fazer alguma coisa no computador, pareceu que a tela começou a flutuar e tremer. As imagens nela mexiam-se quando não era para estarem se mexendo. As teclas dançavam sob os meus dedos, as paredes se afastavam e pareciam querer cair em cima de mim. Levei a mão ao pescoço e vi que estava pelando de febre, delirando e batendo o queixo feito um lunático.
Saí de casa parecendo um zumbi. Sei que era de noite e fui andando na direção do ponto de ônibus, imaginando como poderia conseguir um táxi pra chegar mais rápido, com apenas vinte reais no bolso. Foi aí que vi um cara com uma camiseta escrita a palavra 'mototaxi', encostado numa moto ligada. E não sei se devido à pressa ou ao delírio, fui lá, dei o endereço do lugar e perguntei quanto era.
- Dez real.
- Bora!
Peguei o capacete que ele me deu, subi na garupa e acho que em menos de quinze minutos a gente chegou, mas eu não estava muito em condições de contar o tempo. A febre parecia aumentar sempre, faltava pouco para que meus miolos cozinhassem dentro da cachola. O rapaz pegou minha nota de vinte, olhou pra minha cara, olhou de novo pra nota e falou que não tinha troco. Depois falou pra eu não esquentar que ele ia bem ali na esquina trocar e depois voltava. Subiu de novo na moto, deu a partida, e nunca mais o vi. Como além de roubado não queria acabar morto, resolvi entrar para nova consulta.
- Minha nossa! Pedro Ferreira, o que foi que aconteceu?
Ah, agora ela queria saber! Por coincidência era a mesma médica que me atendera mais cedo, que ficou alarmada quando me viu entrar na sala dela com o lado direito do pescoço tão inchado quanto vermelho. Agora sim ela me atendeu direito, perguntou meu histórico, me mandou abrir a boca, etc, e depois mandou me aplicarem uma injeção e um soro, não sem antes dobrar a dosagem da mesma medicação que havia me passado. Só que agora de oito em oito horas.
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