quinta-feira, 7 de março de 2013

Esperando João



        Desidério entra em cena.
        Sob uma luz amarela, caminha até chegar num banco de praça onde senta-se e cruza as pernas:
        -Marquei aqui com o João, então deixa ver que horas são...
        Dez para meia-noite.
        Passa gente de todo tipo, dum lado pro outro, inclusive um vagabundo:
        -Êh, chegado, descole um cigarro... Um gole também... Falou.
        Passa um conhecido:
        -Caraca, cara! Mais de meia-noite sentado aí, tipo assim, pô, arruma pro seu chegado uma intéra duma parada aí... E um gole também... E um cigarro desses... Tipo assim, valeu aí...
        Passa uma van lotada, um ônibus vazio, notívagos, mendigos, drogados, depois surge do nada uma banda de rock e começa ajuntar gente em volta dum palco:
        -Ei, figura, saca só essa banda, tu curtes?
        -Não faço a mínima idéia de quem seja. Estou apenas esperando, marquei aqui com o João, ele ainda não chegou e...
        -Saca só essa música, é a "Sanguinolento Catarro Metabólico", dos "Filhas-Da-Puta do Rock":
        "Tu queres dar um tiro,
         Depois quer se matar
         Tu  fazes só cagada
         Depois tem que limpar
        Tu vives nessa merda
        Depois queres cheirar

        Teus dentes tão caindo
        Teu peito tá vazio
        Se gostas dessa vida

        Vais pra fruta-que-caiu (3x)"

        Tocaram outras bandas depois dessa, daí as pessoas começaram a dispersar, um ou outro bêbado arrumando confusão ou vomitando, até desmontarem o palco e aquelas pessoas tomarem rumos desconhecidos.
        Exceto Desidério, continuando a aguardar no mesmo banco a chegada de João, quase cinco da manhã, sem viva alma na rua:
       -Bem, certamente este atraso é por algum motivo, provavelmente João irá ligar ou mandar uma mensagem dizendo se vem ou não. Então o melhor a fazer é esperar.
       Assim continuou sentado, acendeu outro cigarro, tomou outro gole.
       Até que choveu.

domingo, 27 de maio de 2012

Do Amanhã Nada Saberemos




        Um convite inesperado e no dia seguinte rumava pela manhã bem cedo para voltar à ilha de tão boas memórias.
        Ao  botar os pés na areia eram ali exatamente onze e trinta e três, depois da travessia de canoa do Quarenta em direção à vila de Mocooca, seguindo a pé uns vinte minutos, até alcançar a Comunidade do Índio Verde, onde deveria permanecer durante o restante da semana.
        Pediu uma cerveja que veio estupidamente gelada, cavada do fundo do congelador, para ver se tomava coragem de se atirar na maré, naquele sol do meio-dia à pino, mas felizmente o vento constante não deixava a gente sentir o calor.
        -Rapaz, vou mandar desligar esse ar-condicionado, que já tá gastando muita energia...
        Era o Índio, tirando maior barato que aquele era o melhor lugar para se tomar cerveja no mundo: a areia brilhava de tão branca e tudo era muito iluminado; o vento permanente aliviava a pele dando uma sensação de sonho naquele braço de mar esverdeado, as manchas acinzentadas dos cardumes de sardinhas.
        Aos 19 anos, temos a certeza de que em nossa vida faremos apenas coisas inocentes, convencidos de tomar sempre as decisões acertadas, ao invés das verdadeiras cagadas que nos acompanharão a vida inteira.
Pode-se sinceramente ter uma opinião verdadeira sobre o mundo e o futuro, e do fundo do coração seguiremos aquele caminho, correndo o risco de tomar para si as maiores preocupações, enfrentando cada problema com a dificuldade mental dos que têm obrigação de mentir em cada momento àqueles quem ama, e o que é pior: mentindo para si e para os outros, que é uma merda tão inimaginável que fode o convívio.

sábado, 26 de maio de 2012

Como Consegui Um Bom Emprego




        Barba feita e cabelo cortado, roupa nova comprada em dez vezes no cartão da namorada, documentos e currículo dentro da pasta de papelão, cheguei no local, um restaurante sofisticado, e fui falar com o dono:
        -Bem, vejo que você tem alguma experiência, fez uns cursos por aí, blá, blá, blá, e como no momento estamos com uma carência de pessoal, você pode começar imediatamente: primeiro lavando aquela pilha de louça suja ali, depois limpa os banheiros, passa um pano com detergente no salão, lava o chão da cozinha, organiza os produtos  no freezer, etc, etc, depois ajuda a baixar as portas quando a gente fechar lá pelas três da manhã.
        -E quanto ao salário?
        -Salário? Você começa recebendo só o dinheiro do transporte, aí se for aprovado no teste a gente vê se discute algum pagamento.
        Como pra cachorro esfomeado osso é filé, aceitei.
        Um mês depois, economizando o do busão indo de bicicleta, mas gastando esse dinheiro remendando toda semena a coitada da magrela, que não aguentava o tanto de buracos na ciclofaixa (nota: ciclofaixa é uma idéia genial de algum administrador probo, que resolveu pintar um estirão de cal às margens da pista conhecida como "Rodovia da Morte", que protegia tanto o ciclista quanto um boné protege um motoqueiro no caso de acidente), resolvi perguntar quando ia começar a receber:
        -Pagamento? Está brincando? Já disse que você está aqui de experiência!
        -Mas é que já faz mais de mês...
        -Escuta só, eu quando comecei a trabalhar passei foi três meses sem receber salário lá na empresa do papai!
        -Pois é, mas é que eu tenho umas contas pra pagar que estão atrasadas...
        -Mas quem mandou fazer dívida? E olha que ontem aquele freguês reclamou que o banheiro estava sujo.
        -Pô, mas foi esse mesmo sujeito quem pintou de vômito a parede e defecou fora do vaso!
        -Não interessa, volta pra pia que tá acumulando louça, depois eu penso no teu caso.
        Um belo dia o cozinheiro faltou, tinha arranjado coisa melhor numa fábrica de roupas que empregava imigrantes bolivianos, aí o patrão chegou pra mim e perguntou:
        -Vem cá, você sabe cozinhar?
        -Bem, sei fritar ovo, ferver água, fazer café, miojo...
        -Perfeito! Então hoje você é responsável pela cozinha! Pode ir pra beira do fogão que já saíram uns três pedidos.
        E foi assim que graças ao paladar refinado dos clientes acabei virando o cozinheiro do lugar, passei a ganhar cem contos por semana, e a primeira coisa que fiz foi comprar uma jance nova pra bike, pois a outra já estava mais empenada que gaiola de pobre, nem o cara da oficina perto de casa que é meu amigo conseguia mais dar jeito.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Vôo Noturno




        Uma coisa assim estranha, um formigamento, uma tremedeira, e no minuto seguinte meu corpo era arremessado violentamente pala janela, arrebentando galhos de árvores e antenas, telhas e vergalhões, cobrindo-me a pele de rasgos. Eu sentia o gosto de sangue na boca, prestes a rebentar os cornos no chão de piçarra da rua, mas ante a desgraça iminente tive um pensamento que me atirou vertiginosamente para o alto.
        O vento era tão forte que não consegui abrir os olhos.
        Um vento desconhecido conduzia meu corpo retalhado cada vez mais alto, cada vez mais para cima, o medo fazendo tremer cada fibra, impedindo de organizar o pensamento.
        Olhei para baixo e estava tão alto, mais tão alto, que tive medo de morrer.
        E finalmente parei, flutuando naquela imensidão, naquela noite fria, daquela altura onde podia ver as ruas cortando a cidade, pontos luminosos, brinquedos de criança, as avenidas principais à distância iluminadas como se fosse o Natal.
        Não sentia mais dor. O vento frio anestesiara os membros, devolvendo o contole dos movimentos, e nesse momento tornei-me consciente do que estava acontecendo: por um milagre, podia voar.
        Bastava um pensamento e viajava vertiginosamente para onde queria, numa velocidade tão grande que me arrancava lágrimas dos olhos; eu poderia ir mais rápido se quisesse, passeando por cima da cidade adormecida, descendo até a periferia, sobrevoando a região mais escura das matas ainda não devastadas, perseguindo um avião que havia acabado de decolar do aeroporto.
        Depois com outro pensamento eu alcançava quase instantaneamente o centro da cidade, de longe vendo os prédios e as pessoas lá dentro atrás das janelas, protegidas daquele vento frio: se não subisse novamente seria capaz de me chocar contra as árvores que faziam tanto barulho naquele lugar, soando como o último suspiro de uma natureza perdida, agora distorcida entre ruídos e gritos agudos feito vidro estilhaçado.
        Então o medo da queda me fez desejar subir novamente o mais possível, percebendo que a aventura iria acabar, ali a mais de mil metros de altura, repentinamente fiquei parado, sobrevoando a Baía do Guajará:
        "O que está acontecendo, porra! Se eu cair dessa altura, mesmo sobre a água, vou morrer, caralho!"
        E comecei a cair.
        E cada vez mais rápido, mais próximo do fim, tive um último pensamento:
        "Acorda!"

quinta-feira, 24 de maio de 2012

A Noite Mais Escura



        O centro fervilhava de gente: carros, ônibus, vendedores ambulantes, poeira, fumaça, mendigos e tudo o mais que fazia parte desse formigueiro cotidiano; tamanha correria sem o mínimo objetivo; animais numa gaiola objetos de um estudo nonsense.
        Quantas pessoas passam por minuto por essa esquina? Quantos carros tem final ímpar e de que cor eles são? A que horas cai a chuva e qual a influência do atraso pluvial no crescimento das mangueiras? Quantos de nós somos negros, quantos são brancos, azul, verde ou amarelo; quais são as cores de quem vive nesse Brasil?
        As coisas sempre no lugar: em tal praça reúnem-se os drogados, os vermes e os párias; bem ali próximo ficam os bares e boates da moda; acolá tem a programação que faz a festa dos envolvidos na tal cultura alternativa, tentando diferenciar-se dos outros, evitando ao máximo contaminar-se com o que julgam ser o veneno onipresente da mídia.
        Noutro canto da cidade, em qualquer beira de rio, encontra-se quem não quer mais saber dessa sociedade hipócrita, desse falso bom-mocismo, dessa mania de bajular quem está por cima e pisar quem anda por baixo, gente sem caráter e sem moral, gente que se acha o centro do mundo.
        No fundo a maioria não vê nada um palmo além do nariz, preocupados com qualquer coisa sem importância, feito viciados que só pensam no próximo trago: "foda-se a humanidade e me arranja um fósforo, que acabou de apagar essa porra."
        Pode ser da classe a, b ou z, banqueiro, comerciante, traficante, ladrão; a maioria passa a vida fingindo ser o que não é sem ao menos saber, fora os que se enganam conscientemente ao reconhecer a própria babaquice; os frustrados por qualquer motivo; os que já passaram da idade e os que ainda não chegaram lá; os que acham que sabem tudo e aqueles que tem a certeza de nada saber; os que só olham para o próprio umbigo, mas terminam cegos.
        Pois um cego não pode ver o pôr-do-sol. Evita andar na rua sozinho, mesmo acompanhado de sua bengala. Tem inveja daqueles que podem enxergar e destroem suas vidas por puro comodismo, e acaba pensando:
        "Como pode os que tem o privilégio da visão serem geralmente os últimos a se dar conta disso? De que foram divinamente abençoados, mas fazem questão de fechar os olhos para a beleza do mundo e da vida, em cada ato, encontro ou despedida?"

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Feira-Livre




        -Vê o peso também desse amarrado de maxixes, faz favor?
        -Dá dezenove e cinquenta, mas eu ponho mais este maço de feijão verde, aí faço pro freguês vinte barão certo.
        -Tá legal, pode botar na sacola. E rápido que estou com um pouco de pressa, ainda vou encontrar uma barraca dessas para almoçar...
        -Pois égua, se o senhor quiser vai lá na barraca da Madame! É aquela uma ali de frente pro rio, do lado da geladeira amarela: vai que eu te garanto que lá vende o melhor açaí com peixe frito da área; e diz que foi o Tinho quem mandou, que aí ela faz caprichado pro senhor!
        -Vou lá sim, valeu a dica.
        -Então olha, leva também essa alface daqui por conta da casa, aí diz pra ela preparar uma saladinha pro senhor, porque lá só vende o açaí com peixe frito e farinha d'água, coisa que a gente é acostumado mas quem vem de fora sente falta de algo mais, tipo uma verdurinha, um feijão-com-arroz...
        Eu estava ali do lado, comprei um cigarro retalho, só pescando a conversa entre o cara alto e branco feito papel, visivelmente incomodado com o calor do sol, e o verdureiro local, que não parava de empurrar coisas para o homem levar: mais um pouco e ele ia acabar comprando a barraca inteira, só para escafeder-se dali e suar em bicas em paz.
        Botei o cigarro apagado no canto da boca e fui chegando:
        -Ô, irmão, deixa que eu carrego essas sacolas pro senhor. Ei, Tinho, larga mão de malandragem e põe aí mais uns tomates junto dessa alface, que eu levo ele na Madame, aproveito e almoço lá também.
        -Mas coooomo, seu égua? Vais como então agora comer lá e pagar tua dívida, se estás sem nem um tostão furado?
        -Posso no momento estar desprevenido, mas convido esse senhor a ter a melhor experiência gastronômica da vida dele, se ele por obséquio fizer o favor de mandar esse rango...
        Eu já estava com a sacola do cara abarrotada de verduras, mais a alface e os tomates que o Tinho mandou por conta seguros na mão esquerda, além do cigarro apagado nos lábios. O cara branco feito cal ficou me encarando uns segundos, talvez confuso pelo excesso de luminosidade, apertando os olhos sem dizer palavra.
       Acendi o cigarro e saí andando.
       Sem outra alternativa, o cara teve de seguir atrás de mim em direção à barraca da Madame, ou então chamava a polícia, ou sabe-se lá o que era que ele tanto queria naquele momento, mas não parava de olhar desesperadamente para os lados, procurando algo que não encontrava.

terça-feira, 22 de maio de 2012

Método Sem Método




        Tinha o mundo torcendo contra. Como pode o balanço natural desse mar gigantesco, outrora tão frutífero, despertar a ira dos invejosos sem espírito? Esse mesmo mar reverenciado a cada dia pelo pescador, que sai por esse mundão de água, enfrentando qualquer tempo e as dores em busca do peixe sagrado, que é seu sustento e alimento de sua família?
        -Êh, seu Lázaro! Depois de duas semanas, já de volta! Mas rapá, como foi bem aí, hein?
        -Égua que nada! Lá na costa costumava dar muito mais! Tinha época em que a gente ia pra fora, passava nem bem uns três, quatro dias, e tinha que voltar com o porão abarrotado, o barco quase transbordando na linha d'água, socado dum jeito que dava medo que fosse adernar: mas era tanta dourada e anchova que fazia lama! Às vezes a gente tinha que jogar uma parte fora, pra não correr o risco de afundar no meio da baía!
        Todo mundo ajudou a descarregar o porão; depois daquele tempo todo o gelo já tinha derretido. A solução era limpar e salgar a carne, pra vender pela metade do preço que o atravessador pagava pelo peixe resfriado, bem mais valorizado.
        -Por que não enches de novo esse porão de gelo e leva pra capital, pra fazer render tanto trabalho?
        -Só se eu fosse em Maracanã, que lá eu compro a saca direto do dono da fábrica, mas não adianta: passa dois, três dias, se não vendo tudo logo, começa a estragar, é só prejuízo, não tem geladeira que dê jeito! Segura faz favor esse negócio daqui...
        Era muito serviço, mas todo mundo que ajudava parecia feliz; sabiam que no final do serviço iam ganhar o almoço da semana inteira, por isso ficavam até alta madrugada.
        Quando a maioria do pessoal tinha ido embora, o peixe descarregado nos isopores, era quase de manhãzinha. Dava pra ver que o sol não tardaria a aparecer no horizonte:
        -Desculpa, seu Lázaro, mas já acabou o serviço, então deixa eu ir pro meu barraco, descansar.
        -Espera um tanto, escuta só: não dorme muito não que faz mal! Passa lá em casa bem cedo, que assim que a gente terminar de botar no sal isso tudo, vais comer o melhor avuado da tua vida! Olha só esses "banderado" que separei pra gente aqui, ó...
        -Deus te abençoe, seu Lázaro, então até daqui à pouco.
        -Vá, meu filho, e bom descanso...