sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Alternativas Para Distritos Metropolitanos

Abstrair de algo é a capacidade de fazer o cérebro pensar o contrário do que ele achava que estava pensando, para dali fazer algo realmente útil com o primeiro problema que despertou sua atenção.
Longe de ser difícil, quem sabe desnecessário, mas como tudo o mais nessa vida, é um caminho longo que exige muito esforço. E por mais que se tente acreditar, no fim não há aquilo que nós chamaríamos de "recompensa", embora se um dia chegar lá, certamente mude de opinião.
-O que te assola nesse momento o espírito?
-A injustiça social, o sofrimento da humanidade, a crise no Oriente Médio...
-Não, eu falo de outra coisa, o que verdadeiramente te incomoda?
-A porcaria dessa cerveja que nunca vêm gelada mas a gente continua vindo sempre aqui.
-É disso que eu estou falando! Te preocupas mais com essa breja escrota que com os órfãos do Sudão!
-Bem, eu posso me preocupar com aqueles órfãos cheira-cola ali da esquina.
-Eu sei, mas o problema é que não fazes uma coisa nem outra. Mas por enquanto isso é bobagem, me dá teu copo aí...
Foi então que depois desta conversa absolutamente trivial que me veio numa espécie de estalo, aquilo que eu deveria fazer. Durante semanas amadureci a idéia e a cada dia ela parecia mais clara, minha atitude seguinte finalmente me parecendo a coisa mais óbvia a ser feita, apenas a continuação sem fim daquele momento de abstração, lógico, um pouco confuso.
                                                                            ...
-Então foi por isso que você começou a cozinhar?
-É, só que eu nunca levei o menor jeito.
  -E por que você continua?
-Sei lá. Segura isso aí.
-O que é isso?
-Prova logo, é um caldo que eu fiz.
Era uma espécie de sopa, amarela por causa do tucupi, só que muito mais doce:
-Putz! Têm açúcar nessa parada!
-Na verdade, é rapadura...

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

A Passagem Do Abismo

        "Sinto de repente pouco,
        Vácuo, o momento, o lugar.
        Tudo de repente é oco —
        Mesmo o meu estar a pensar."    


Viver tornava-se aparentemente mais complicado a cada dia, mas imaginava que talvez estivesse se acostumando com as coisas rápido demais, o que talvez denotava uma certa indiferença em relação à imprevisibilidade desses fenômenos.
  A experiência ia adquirindo um peso cada vez maior, e tudo fazia crer que  aumentaria até tomar conta de sua vida, e ele se visse reduzido àquele pequeno círculo de pessoas, com suas virtudes e defeitos a que habituara-se por pura preguiça, mas também para evitar o incômodo que é o contato com indivíduos a quem não temos intenção de nos aproximar.
A gente vai ficando cada vez mais estranho, mas quanto a isso o melhor é ficar calado.
Simplesmente não se é feliz, se está feliz, e tudo o mais são amenidades pra preencher o vazio, a que cada um dá o nome que quer. Qualquer ocupação, qualquer trabalho, qualquer hobby, beber muito, comer muito, virar um fanático religioso, se chapar e descolar da realidade, querer tudo sempre e mais e sempre, e o vício geral em todo tipo de coisa que eu nem imaginava que podia viciar.
A derrota de todos para a vitória de uns pouquíssimos que ninguém sabe quem são, mas parece que do céu controlam todos nossos atos, e nos ameaçam com os castigos mais perversos de que a sociedade dispõe, mas que a eles não pode atingir, pela incorporeabilidade de sua existência, pois podem estar em todo lugar mas estão em lugar nenhum, provavelmente na Europa.
Em nome dos quais se praticam todas as vilezas e sandices. Que a todo momento é conjurado quando alguém morre de bala perdida numa periferia de uma grande cidade ou uma criança de diarréia no mais perdido dos interiores.
Graças a eles é permitido o ódio mútuo. É a eles que devemos a cobiça e a ganância, a inveja e a vaidade, a corrida absurda que faz considerarmos os outros inimigos a serem batidos. E conseguimos assim, abençoados pela besta imunda que se apoderou destas mentes, criar uma existência de merda pros outros e pra nós mesmos.
Porém, existe esperança! Ficaste preocupado, não foi? Agora fique frio, a solução é simples: é só querer de verdade ser alguém melhor, com essa vontade doida que tens de tudo que existe e agora, tenta a cada minuto e a cada segundo pensar numa forma de pôr isso em prática na tua vida, testando-as instantâneamente nos teus atos, descartando as que não dão certo, prosseguindo com as outras.
Ajuda também se votares em políticos melhores na próxima eleição.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

O Cara Mais Legal Do Mundo

         Desconfiava desde sempre, mas um dia desses confirmei: conheço o cara mais legal do mundo.
-Ele é teu amigo?
-Tá tirando? Se é o cara mais legal do mundo, não tem como não ser amigo dele!
-Pô, foi mal...
O cara era muito bacana mesmo. Sabe aquele tipo de pessoa que de longe tu sacas que é sangue bom? Pois o figura era tão gente fina que a gente conversava dez minutos e tinha vontade de dar a irmã pra ele casar, só pra ter ele como parte da família.
Putz, não reclamava de nada. Ao contrário, até os problemas dele, que eram os piores possíveis, ele contava numa boa, encarava cada coisa ao seu tempo e tinha muita paciência, mas nunca precisou dizer isso.
Conhece todo tipo de música e ganha a vida assim. É um dos poucos caras que realmente têm prazer no que faz. Não toca nenhum instrumento, mas juntou numa banda os melhores instrumentistas que ele conhece, descolou um bar onde eles tocam releituras dos grande clássicos toda semana, já está agilizando num estúdio de outro brother um cd com o som dos caras, e eu aposto que se cada amigo dele comprar um, vai sair um puta sucesso.
Quando a gente foi apresentado, eu já sabia que ele tinha um rolo de muito tempo com uma flor de menina que dispensava comentários. Todo mundo que a conhecia, inclusive eu, inevitavelmente se apaixonava:
-Sacas a Marcela?
-A mãe daquele garotinho João?
-Pois é, filho dele.
Das mulheres que eu conhecera e depois tinham engravidado, a Marcela não só era a mais bonita, e continuava linda em todos os sentidos possíveis depois que nasceu o João, como agora a quando a gente via o moleque, aos cinco anos de idade e correndo feito uma peste, imaginava o trabalho que ele ia dar quando começasse a namorar, pois tinha puxado a beleza da mãe e o jeito de ser do pai.
Sempre que rolava uma barca maneira, o primeiro nome que lembravam era o dele, e por mais coisas que ele tivesse que fazer, se esforçava pra ir. Às vezes ele já estava com outro sistema na agulha, e teve uma vez, sei lá como, ele conseguiu juntar duas festas no mesmo lugar, transformando aquela noite memorável numa esbórnia só.
-Caramba! E por acaso eu conheço esse figura?
  -Se tu conheces não sei, mas saca que é aquele que vêm ali, conversando com a Marcela, e acho que eles estão caminhando na nossa direção.
-Podes crer! Eu sei quem é, muito bom saber...

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Estória Bizarra

     Tudo ali se via, tudo parecia com aquilo que você gostava: redes de pescas carboníferas, daguerreótipos esfunados, cabides de saliblablabu...
Eram muitas crianças em volta, eu não vi graça nenhuma, mas todas elas riram:
-Quem é você?
-O senhor.
-O Senhor tá no céu!
-E Tu vais pra puta que te p...
Antes que eu terminasse de falar, veio aquele trio elétrico:
-O que você falou tio?
-Vai pra puta que te p...
Pôrra, nada mais pra me encher o saco, só o pai do pentelho:
-Tú estavas falando com o meu filho?
-Não perco meu tempo com retardado, dá licença?
-Não mermão, olha pra mim!
-Retardado...
Não vi o que eu fiz, o playba jogado, o filho dele chorando, a vagaba que antes queria dar, agora fazendo o maior escândalo. E o mais impressionante é que todos, eu disse TODOS, os taxistas a fim de me dar porrada, tentaram me acuar pro canto:
-Tu estás brincando, isso é sério?
-Péra aí que a gente chamou a polícia...
Maldade o que eu fiz. O que falou por último desmaiou na calçada, depois de bater a cabeça numa pedra. O segundo arriou com um cruzado na ponta do queixo, o terceiro derrubado com uma rasteira, pro quarto perguntei:
-Que leseira é essa?
-Me desculpa, que quem queria que o pessoal que...*
(Maldade o que eu fiz)

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

O que Anima o Ser Humano?

           "Eu tenho mania de deixar tudo para depois...
            Depois a contagem das cartas a responder...
            Depois a arrumação das coisas...
            tanta, tanta coisa..."


        Estava ali na sua frente e não podia acreditar. Sempre se deparava com situações como esta, existir era uma sucessão de fenômenos aleatórios, uma forma de vida que adimitia o mínimo de objetivos, pois na verdade nunca encontrava meios de dispô-los organizadamente em sua cabeça.
Por isso algumas vezes quando encontrava-se cara a cara com um fato, não conseguia ao menos perceber que estava diante de um fato. Como naquele dia convencional deparou posto e colocado diante de seus olhos, mas que obrigava-o a forçar a imaginação para tentar descrevê-lo.
-Meu Deus! O que será isso?
Procurou no dicionário sinônimos, verbos, substantivos, adjetivos, mas nada encontrou ali que pudesse explicá-lo. Depois uma gramática empoeirada, o livro de um certo pensador, uma imagem, um filme, uma música...
Aprendemos que as coisas nunca são como se quer, nos acostumamos com as maiores safadezas e nos preparamos achando que o pior está por vir. Mas o que fazer se um dia o melhor chega?
Olha, olha, procura daqui e dali, toma forma mas não diz à que veio, apenas está lá como sempre esteve, uma mancha na parede, um teste psicológico, uma loucura branda e macia, a areia da praia à noite depois que saiu a lua e choveu e quase que o sol nasceu de novo:
-Por que só agora?
-Se pudesses perguntar apenas uma vez, seria essa mesma tua pergunta?
-Não, claro que não! Seria...
E finalmente encontrou a resposta.

domingo, 9 de outubro de 2011

Camarilha Pagã Destrambelhada

     Manhã clara, eles terminaram as provas cedo e resolveram bundear por aí:
-Por que a gente não vai conhecer o Museu De Arte? Hoje não paga entrada...
Dita a palavra-chave, caminharam os três em direção à Cidade Velha, discutindo se começavam ou não a beber antes do meio-dia, quando ainda não tinham comido nada, ficando decidido que primeiro a Arte, então forrariam o bucho, depois quem sabe rolasse uma pinga.
Chegaram, o Gleguer entrando na moral, depois o Beavis e o Chuvisco logo atrás, sem perceberem um cara fardado que correu de uma pilastra e barrou-lhes a passagem, chamando pelo radinho o pessoal da segurança.
-Qual é meu amigo, queres deixar a gente entrar? Tá escrito ali na frente que terça-feira não paga!
-Não sou teu amigo! E tu devias perguntar isso pra mim, tu não me viu te chamando lá na frente, tu és retardado? O Museu tá fechado hoje, vocês podem ir embora se não quiserem que eu tire vocês daqui à força!
-Mas tem gente entrando, olha ali...
-Segurança! Segurança!
Correram bastante, o Beavis na frente porque era o mais alto e tinha as pernas mais longas. Enquanto ele dobrava a esquina, o Chuvisco ainda não tinha conseguido nem atravessar a rua, e o Gleguer corria descontrolado, chamando palavrão por entre os carros deixados no estacionamento natural das cidades, que são as calçadas:
-E agora, José?
O Chuvisco odiava o próprio nome, e o Gleguer só disse aquilo porque no fundo era mau e sabia onde machucava, mas depois resolveram não esquentar. Quando finalmente todos concordaram em tomar uma birita e ficar jogando porrinha, nem bem tinha acabado de soar a undécima hora, como numa daquelas iluminações divinas, começou a chover.
Olharam em volta um lugar que servisse de abrigo e tivesse cadeiras, logicamente se refugiando na Igreja que ficava em frente à praça, como normalmente costumam ficar a maioria das igrejas, o contrário não sendo verdadeiro, paradoxalmente.
Os três dirigiram-se penitenciosos e compungidos,  não até o altar, onde poderiam ser fulminados, mas pela entrada lateral, onde deram de cara com um Cristo Morto De Cera, numa caixa de vidro com uma fenda na altura do peito, coberto de notas de cinco, dez, e algumas de cinquenta, além de moedas de todos os valores.
Olharam-se, contritos...
Difícil saber qual dos três ou se os três pensaram a mesma coisa, talvez ao mesmo tempo; ou se foi uma dessas idéias que na verdade não pertencem a ninguém, apenas ficam suspensas no ar, esperando o mínimo para condensar-se e cair em nossas cabeças. O certo é que menos de dez minutos e um arame de caderno depois, aliviaram Nosso Senhor em quase cem pilas, em notas de cinco e de dez, além de algumas moedas.
Mas nada acontece sem propósito e não se furta uma igreja impune, nenhuma delas, o remorso bate e ameaça levar o mau cristão direto pro inferno, vaporizado por um raio mortífero, tal a vileza do fim a que destinavam o modesto butim, no que a mente nada modesta, no caso a do Beavis, comovido com semelhante baixeza de ideais e sentimentos, no maior e mais redentor conselho capaz de purificá-los do pecado cometido, sugeriu:
-E se a gente usar só metade do dinheiro e com o resto a gente faz caridade?
Assim uma metade da grana foi pra lanches e birita, a outra metade a galera comprou umas bolachas com Refri e deu pros mendigos jogados em frente a Igreja, mas eles ficaram putos: disseram que não queriam comida, que da próxima vez o merdinha que quiser fazer caridade só pra não se sentir um grandessíssimo dum feladaputa, melhor trazer o dinheiro em espécie, pôrra!

sábado, 8 de outubro de 2011

Sindicalismo Punk

        -Sério cara? Que massa!
Tava explicando para aquele garoto que além de mim, só existiam mais oito punks na cidade, e que a gente se reunia todos os finais de semana num local secreto, pra botar os assuntos em dia, dividir estórias e tal.
Muita coisa falam a nosso respeito, a maioria errada. Por exemplo, nem todo punk vive apenas pra feder e encher a cara, ninguém precisa ser punk ou o que seja pra fazer isso.
Me visto de preto, ok, mas as freiras também, então isso também não significa nada, qualquer babaca pode se vestir de preto.
Deixa eu ver que mais que falam, que a gente não sabe se comunicar e por isso só usa frases curtas; que nossa memória é uma merda e outras coisas de que não me recordo no momento.
-Mas você odeia os Skin-Heads, não odeia?
-Égua, doido! Tu não entendeste que na verdade eu odeio todo esse sistema?
-Então todos os seres humanos?
-Claro! Por acaso não está todo mundo no sistema? É igual a matrix, cara, só que eu mandei o careca enfiar no cú as pílulas...
Era complicado eu tendo que explicar toda a filosofia profunda por trás do movimento, gastando saliva e aquela besta ali parecia que não estava entendendo nada, como prova do poder da burguesia, que corrompe os cérebros e nubla as visões de felicidade do único sistema justo possível na terra: o Sindicalismo Punk.
Fiquei meio que pensando com minhas correntes, chapado, o fedor começando a incomodar; quando eu vejo esse tosco do meu lado desembrulha um papel e tira de dentro um guardanapinho, desses de lanchonete, com maconha dichavada:
-Pôrra! Não acredito que tu vais bolar um baseado bem aqui do meu lado!
Falei pro imbecil sair dali se não quisesse tomar umas correntadas, que se ele fosse fumar essa merda e estragar o corpo dele, que fumasse bem longe de mim, pois eu não ia proibir ninguém de fazer a idiotice que quisesse, sou contra a intolerância, a repressão, o fascismo e a hipocrisia.