Boa tarde! Desculpe estar ligando incomodando o senhor, mas o senhor poderia estar respondendo algumas perguntas, só dois minutinhos?
R-Ok.
Sou o que faço ou o que penso?
R- Os três, mas as pessoas só vão conhecer de ti o que fizeres.
É certo achar que não existe nada errado?
R- Não, é errado achar que existe algo certo.
Então posso matar meu cachorro para comer assado?
R- Se estiveres na China...
Qual seria a diferença do Homem pros outros animais?
R-Bem, o cio dos bichos dura bem menos.
E quanto ao pensamento?
R-Que pensamento?
Bem, os animais são irracionais, eles agem por instinto...
R-E onde essa razão nos trouxe?
Para o progresso, oras!
R-Estás falando sério?
Só falta o senhor estar me dizendo que não existe moral!
R-E por que eu soltaria uma asneira dessas?
Ué, você não disse que não existe certo e errado?
R-Disse que aceitas a moral vigente ou não, de acordo com teu referencial.
O senhor só pode estar enganado! Já esteve errado anteriormente?
R-Minha vida sempre foi uma sucessão de erros. Na verdade sobrevivo um pouco cada dia.
Negando o passado?
R-Apenas deixando-o em seu lugar.
Nosso tempo acabou! Vou estar agradecendo a entrevista, muito obrigado pela sua atenção.
R-Disponha...
Contos em geral, aproveitando a oportunidade da vida dada por Deus, o que gera enormes dúvidas quanto ao destino de cada um frente essa coisa chamada morte. Como um exercício de estar no mundo e de crescimento espiritual, aprendizado e diversão, contribuindo com a construção de uma pessoa melhor consigo mesma e com os outros.
segunda-feira, 7 de novembro de 2011
domingo, 6 de novembro de 2011
Cinza de Manhã
Choveu muito nesse dia.
Naquela hora em que o sol impede até de abrir os olhos, e o calor deixa os pensamentos lerdos, a vontade mole e o corpo encharcado de suor. Nesse dia desde a manhã vinha armando-se a chuva que caiu antes do meio-dia. Às cinco horas anoiteceu, e pela primeira vez em meses pôde-se dizer que aquela noite faria frio.
Estava atrasado para o seu encontro, mas não deixava de observar os telhados das casas, os troncos das árvores, paredes molhadas, os vãos escuros, o vento arrastando o lixo da rua. Tralhas largadas num beco encardido.
Uma única folha presa num galho. Uma poça onde metia o pé andando sem rumo, sem ambições. Gotas passando-lhe próximas ao corpo que não chegavam a tocar-lhe.
Respingos de lama, lembrando-lhe antigas trovoadas.
Nesse mundo ancestral, ainda no começo do longo caminho da evolução, mais próximos do animal irracional que do modelo de homem que se guia pela razão. A natureza vive mudando, uma montanha, um carvalho, uma gota d'água ou o desejo humano são menos que uma pincelada do artista em sua obra genial.
Efêmeros como o menor dos átomos e a maior galáxia.
E a vida que segue nos pega com seus afazeres.
Até que um outro dia, este mesmo antigo sol torne a esquentar as coisas e as pessoas da cidade, pois sempre haverá pessoas nas cidades para contar o tempo.
Mas alguém será novamente surpreendido pelo sol a despejar um último raio luminoso na janela, e ficará feliz sem saber por quê.
Por um momento sentirá como se tivesse posto a cabeça para fora e depois submergisse, tendo agora a agonia de viver sabendo-se em breve um cadáver afogado.
Nunca mais respirar esse ar, o modo de existir nesse momento. E o preço de caminhar por uma rua escura enquanto bate o vento frio, mesmo tendo o cuidado de a todo momento olhar para trás.
Naquela hora em que o sol impede até de abrir os olhos, e o calor deixa os pensamentos lerdos, a vontade mole e o corpo encharcado de suor. Nesse dia desde a manhã vinha armando-se a chuva que caiu antes do meio-dia. Às cinco horas anoiteceu, e pela primeira vez em meses pôde-se dizer que aquela noite faria frio.
Estava atrasado para o seu encontro, mas não deixava de observar os telhados das casas, os troncos das árvores, paredes molhadas, os vãos escuros, o vento arrastando o lixo da rua. Tralhas largadas num beco encardido.
Uma única folha presa num galho. Uma poça onde metia o pé andando sem rumo, sem ambições. Gotas passando-lhe próximas ao corpo que não chegavam a tocar-lhe.
Respingos de lama, lembrando-lhe antigas trovoadas.
Nesse mundo ancestral, ainda no começo do longo caminho da evolução, mais próximos do animal irracional que do modelo de homem que se guia pela razão. A natureza vive mudando, uma montanha, um carvalho, uma gota d'água ou o desejo humano são menos que uma pincelada do artista em sua obra genial.
Efêmeros como o menor dos átomos e a maior galáxia.
E a vida que segue nos pega com seus afazeres.
Até que um outro dia, este mesmo antigo sol torne a esquentar as coisas e as pessoas da cidade, pois sempre haverá pessoas nas cidades para contar o tempo.
Mas alguém será novamente surpreendido pelo sol a despejar um último raio luminoso na janela, e ficará feliz sem saber por quê.
Por um momento sentirá como se tivesse posto a cabeça para fora e depois submergisse, tendo agora a agonia de viver sabendo-se em breve um cadáver afogado.
Nunca mais respirar esse ar, o modo de existir nesse momento. E o preço de caminhar por uma rua escura enquanto bate o vento frio, mesmo tendo o cuidado de a todo momento olhar para trás.
sábado, 5 de novembro de 2011
Passageiros da Nave Granada
A espaçonave caía vertiginosamente em direção à Terra, todo o conjunto de propulsores do lado esquerdo estava em chamas. Se a um minuto atrás não tivessem subido a 20 mil léguas de altura, não teriam tido tempo de acionar o sistema de emergência.
Quando ocorreu a primeira explosão, que matou o piloto Black Luck e deixou o co-piloto Dick Pogo sem a bola de um olho, a nave foi tomada por uma nuvem de fumaça e a tripulação ficou completamente desnorteada.
Rolland Pif lembrou-se do que havia bolado para esses casos: o Sistema de Exclusão de Dor Aérea, em forma de comprimidos, e andava sempre com vários deles no bolso do macacão em viagens interplanetárias:
-Tome Otto, pegue um Bill, e principalmente você Dick, este olho vazado está mal. De todos aqui parece que você é quem mais precisa,não há tempo para discussão.
-Obrigado, mas vocês precisam fazer alguma coisa para controlar a queda. Depois da explosão e de perder um olho, sinto como se minha cabeça tivesse ficado gigantesca...
Dick pegou a pílula das mãos do amigo no momento em que uma luz alaranjada acendeu no painel danificado donde chuviam faíscas.
Os quatro sabiam que quando aquilo acendia não tinha mais jeito: era sinal de que o Vivificador Beligerante tinha parado de funcionar, prensado contra o Propulsor Interativo de Padrão Eletromagnético.
Tratava-se de um moto-perpétuo e servia-lhes para viajar instantaneamente a qualquer lugar do universo, bastando para isso digitar as cordenadas, embora a máquina avariada os levasse agora para o oposto do local indicado, ou seja, a quinta dimensão.
Mas nesse momento algo improvável aconteceu. Enquanto Otto tentava matar Bill com uma espada samurai, culpando-o pelo módulo problemático que este havia comprado na loja Móveis No Que Se Move, para rumarem até o asteróide-resort NOFX, Dick Pogo concentrou-se de tal forma que encontrou um jeito de livrá-los daquela situação.
-Parem com isso! Dick teve uma idéia que pode nos salvar! Gritou Rolland Pif.
-Isso mesmo! Temos de explodir a asa direita, assim ambas ficarão iguais e a nave possivelmente se estabilizará!
-Mas temos menos de um minuto até chegarmos ao chão! Retrucou Otto.
-Então não podemos perder tempo. Mãos à obra! Disse Bill.
Usaram as granadas de mão que costumavam transportar por medida de segurança quando iam para outros planetas relaxar ouvindo músicas suaves, porque nunca se sabe o tipo de maluco que pode aparecer numa sala de concertos.
Os três que ainda tinham condições de ficar em pé atiraram as bombas através da janela, enquanto Dick rolava pelo chão tossindo muito, pois como se encontrava deitado, já havia inalado muita fumaça.
Um segundo após houve uma explosão tão grande quanto a primeira e o trio também foi arremessado ao chão, inconsciente.
...
-Cara, o que foi isso? Rolland, é você?
Dick estava coberto de sangue e tinha os pensamentos embaralhados. Após os momentos que passara inconsciente, finalmente ia voltando a si.
-Acalme-se, deixe a cabeça alta que agora está tudo bem...
A fumaça no interior da nave, as faíscas que jorravam do painel, as luzes coloridas piscando freneticamente, e principalmente aquela luz laranja que momentos atrás fizera-os pensar que o fim havia chegado, tudo sumiu. O que restou da espaçonave pairava imóvel à exata metade da distância do chão para o lugar de onde tinham estado quando tudo começou:
-O que aconteceu? Dick perguntou.
-Você estava certo! Quando explodimos a outra asa, o moto-perpétuo voltou a funcionar e conseguimos reestabilizar o módulo.
-Ufa! Da próxima vez a gente usa um Fixador de Improbabilidade Não-Organizável, é menos perigoso.
-E tão cedo não desejo ir até NOFX!
-E para onde vamos então?
-Bem, se quando Otto e Bill acordarem ainda quiserem viajar, acho que tenho uma sugestão...
E meia hora depois, agora apenas os quatro, Dick Pogo, Rolland Pif, Bill e Otto, sem Black Luck, partiam em direção a um planeta alternativo chamado Terra-Orbus, na nona dimensão.
sexta-feira, 4 de novembro de 2011
As Cores Escuras
Andava a passo acelerado, como se estivesse sendo perseguido por fantasmas ou duendes. Deu uma espiada, dobrou ao fim da rua e correu toda extenção do quarteirão, ao cabo do que novamente dobrou a esquina e foi esconder-se num vão de guarita.
Um objeto brilhante tinha em mãos; guardou-o na sacola que trazia presa às costas, olhou novamente a rua deserta àquele noite de domingo e saiu em passo acelerado.
Dois caras estavam sentados numa parada de ônibus, esperavam a manhã chegar para que enfim os ônibus voltassem a circular, e mal se deram ao trabalho de olhar para o doente mental maltrapilho e fedorento que passara, andando assustado, falando sozinho, carregando um saco de estopa imundo preso por uma imbira entrelaçada sobre o ombro esquerdo.
"O que é esse estado mental pertubador? De quem estou fugindo?", pensou com sua loucura o homem que vivia de catar do chão um lixo brilhante qualquer, como se fosse a oitava maravilha do mundo e punha-se a admirá-lo. Mesquinho e neurótico, escondia sua jóia da vista alheia.
Porém, se à frente topasse um pedaço de vil metal ou um caco de vidro colorido enterrado, naquele momento esta passaria então a ser sua nova riqueza, esquecendo-se e abandonando instantaneamente o objeto antigo que carregara com tanto cuidado.
Como todos em sua situação, não tinha consiência da própria enfermidade. Por vezes, da mesma forma como encontrava na rua sem querer algo realmente de valor, assim passava-lhe pela cabeça em raros momentos um pensamento coerente. A faísca elétrica que saindo do filamento avariado nos dá impressão de que a luz em breve voltará, apenas para em seguida tudo obscurecer novamente, arrastado no turbilhão desconexo da insanidade, para sabe-se lá quando surgir à tona novamente, feito apoio fugaz e inútil onde o homem vencido pela correnteza tenta se agarrar.
Engana-se quem pensa que o louco padeça mais pela sua doença do que por outro motivo qualquer de que padece um ser humano sadio, seja pela fome, o frio ou a moléstia. Acomete-lhe como a todos a miséria e a decadência que aniquila a pessoa, seja esta ou não um espírito perturbado.
Mas afinal, o que torna então esta criatura tão diferente dos indivíduos considerados sãos? Talvez a incapacidade de perceber o infortúnio em que se encontra imerso, existindo na sociedade como a mais baixa das criaturas, meio gente, meio animal selvagem.
Em seu delírio imagina ocultar tesouros brilhantes que tira das sarjetas. Está totalmente rendido a essa estranha doença, impedido de reter o menor raciocínio coerente, desenvolver qualquer pensamento lógico que contrarie sua fantasia; preso na escuridão da demência onde foi atirado com todas as forças e onde há de permanecer durante um bom tempo exilado.
Um objeto brilhante tinha em mãos; guardou-o na sacola que trazia presa às costas, olhou novamente a rua deserta àquele noite de domingo e saiu em passo acelerado.
Dois caras estavam sentados numa parada de ônibus, esperavam a manhã chegar para que enfim os ônibus voltassem a circular, e mal se deram ao trabalho de olhar para o doente mental maltrapilho e fedorento que passara, andando assustado, falando sozinho, carregando um saco de estopa imundo preso por uma imbira entrelaçada sobre o ombro esquerdo.
"O que é esse estado mental pertubador? De quem estou fugindo?", pensou com sua loucura o homem que vivia de catar do chão um lixo brilhante qualquer, como se fosse a oitava maravilha do mundo e punha-se a admirá-lo. Mesquinho e neurótico, escondia sua jóia da vista alheia.
Porém, se à frente topasse um pedaço de vil metal ou um caco de vidro colorido enterrado, naquele momento esta passaria então a ser sua nova riqueza, esquecendo-se e abandonando instantaneamente o objeto antigo que carregara com tanto cuidado.
Como todos em sua situação, não tinha consiência da própria enfermidade. Por vezes, da mesma forma como encontrava na rua sem querer algo realmente de valor, assim passava-lhe pela cabeça em raros momentos um pensamento coerente. A faísca elétrica que saindo do filamento avariado nos dá impressão de que a luz em breve voltará, apenas para em seguida tudo obscurecer novamente, arrastado no turbilhão desconexo da insanidade, para sabe-se lá quando surgir à tona novamente, feito apoio fugaz e inútil onde o homem vencido pela correnteza tenta se agarrar.
Engana-se quem pensa que o louco padeça mais pela sua doença do que por outro motivo qualquer de que padece um ser humano sadio, seja pela fome, o frio ou a moléstia. Acomete-lhe como a todos a miséria e a decadência que aniquila a pessoa, seja esta ou não um espírito perturbado.
Mas afinal, o que torna então esta criatura tão diferente dos indivíduos considerados sãos? Talvez a incapacidade de perceber o infortúnio em que se encontra imerso, existindo na sociedade como a mais baixa das criaturas, meio gente, meio animal selvagem.
Em seu delírio imagina ocultar tesouros brilhantes que tira das sarjetas. Está totalmente rendido a essa estranha doença, impedido de reter o menor raciocínio coerente, desenvolver qualquer pensamento lógico que contrarie sua fantasia; preso na escuridão da demência onde foi atirado com todas as forças e onde há de permanecer durante um bom tempo exilado.
quinta-feira, 3 de novembro de 2011
Aventura No Mundo Interior
(...)
-Quando sonharia em conhecer cada pedacinho deste lugar que achava fosse mentira, onde talvez há anos ninguém pise, isso não é incrível?
-Foi pra isso que viemos. Aliás, obrigado por me acompanhar...
A relativa facilidade que tivemos para chegar até ali, uma série de coincidências que facilitaram a maior parte do trabalho, desde aquele domingo distante em que pegamos as nossas coisas e saímos de casa.
A moça da lanchonete onde primeiro paramos e que tinha ouvido falar de estórias do local, ensinando a direção; o motorista da carreta que durante dois dias dera-lhes carona; a trilha oculta no meio da mata descoberta por acaso, que eles nunca encontrariam se Hermes não tivesse parado lá para urinar; a praia deserta e a casinha de ripas de que ambos se lembravam, como um delírio compartilhado da infância; onde haviam parado e agora preparavam alguma coisa para comer:
-Sabe Lúcia? Deve faltar apenas um ou dois dias naquela direção e a gente chega lá.
-Tens certeza?
-Faz muito tempo, eu não sei como, mas veja só: a sensação que tenho é de já ter estado aqui. Eu era muito criança, então as lembranças estão meio apagadas, mas tenho certeza de que o caminho é pra lá...
No dia seguinte Lúcia ficou estarrecida com o espetáculo que descortinava-se à sua frente: A beleza do sol nascente, um gigantesco globo amarelo, mais próximo da Terra do que nunca estivera para qualquer outra pessoa, somado à exuberância da vegetação rendilhando a margem e o contraste entre o mangue e a brancura inóspita da praia, fê-la imaginar por alguns segundos que não mais habitava neste planeta, como se aquela missão na verdade fosse encontrar um caminho possível até o mundo desconhecido, onde há muito ninguém ia e de onde haviam sumido os últimos vestígios da presença humana, exceto pela casinhola onde passaram a noite:
-Bom dia, Hermes! Olha só que lindo!
-Bom dia, Lu. Estás acordada há quanto tempo?
Ela estava maravilhosa àquela manhã. O corpo bronzeado e firme, coberto de gotinhas que faiscavam e corriam por sua pele até caírem como brilhantes na areia limpa. O vento refrescante a secar-lhe os cabelos e a felicidade que em seus olhos transbordava, tornando aquele momento num misto de sonho e fantasia:
-Levantei com esta luz impressionante e fui me jogar na água! Não é espantoso existir um lugar como este?
-Creio que sim, não lembro de ter visto nada igual! Mas vamos andando, antes que comece a esquentar...
Arrumaram suas coisas e foram seguindo na direção combinada, deixando para trás apenas os restos que sobraram da noite que tinham passado ali.
E muitos anos depois, quem sabe por coincidência ou destino, quando outras duas pessoas redescobriram aquele mesmo caminho, apenas o telhado de sapê ainda permanecia de pé.
-Quando sonharia em conhecer cada pedacinho deste lugar que achava fosse mentira, onde talvez há anos ninguém pise, isso não é incrível?
-Foi pra isso que viemos. Aliás, obrigado por me acompanhar...
A relativa facilidade que tivemos para chegar até ali, uma série de coincidências que facilitaram a maior parte do trabalho, desde aquele domingo distante em que pegamos as nossas coisas e saímos de casa.
A moça da lanchonete onde primeiro paramos e que tinha ouvido falar de estórias do local, ensinando a direção; o motorista da carreta que durante dois dias dera-lhes carona; a trilha oculta no meio da mata descoberta por acaso, que eles nunca encontrariam se Hermes não tivesse parado lá para urinar; a praia deserta e a casinha de ripas de que ambos se lembravam, como um delírio compartilhado da infância; onde haviam parado e agora preparavam alguma coisa para comer:
-Sabe Lúcia? Deve faltar apenas um ou dois dias naquela direção e a gente chega lá.
-Tens certeza?
-Faz muito tempo, eu não sei como, mas veja só: a sensação que tenho é de já ter estado aqui. Eu era muito criança, então as lembranças estão meio apagadas, mas tenho certeza de que o caminho é pra lá...
No dia seguinte Lúcia ficou estarrecida com o espetáculo que descortinava-se à sua frente: A beleza do sol nascente, um gigantesco globo amarelo, mais próximo da Terra do que nunca estivera para qualquer outra pessoa, somado à exuberância da vegetação rendilhando a margem e o contraste entre o mangue e a brancura inóspita da praia, fê-la imaginar por alguns segundos que não mais habitava neste planeta, como se aquela missão na verdade fosse encontrar um caminho possível até o mundo desconhecido, onde há muito ninguém ia e de onde haviam sumido os últimos vestígios da presença humana, exceto pela casinhola onde passaram a noite:
-Bom dia, Hermes! Olha só que lindo!
-Bom dia, Lu. Estás acordada há quanto tempo?
Ela estava maravilhosa àquela manhã. O corpo bronzeado e firme, coberto de gotinhas que faiscavam e corriam por sua pele até caírem como brilhantes na areia limpa. O vento refrescante a secar-lhe os cabelos e a felicidade que em seus olhos transbordava, tornando aquele momento num misto de sonho e fantasia:
-Levantei com esta luz impressionante e fui me jogar na água! Não é espantoso existir um lugar como este?
-Creio que sim, não lembro de ter visto nada igual! Mas vamos andando, antes que comece a esquentar...
Arrumaram suas coisas e foram seguindo na direção combinada, deixando para trás apenas os restos que sobraram da noite que tinham passado ali.
E muitos anos depois, quem sabe por coincidência ou destino, quando outras duas pessoas redescobriram aquele mesmo caminho, apenas o telhado de sapê ainda permanecia de pé.
quarta-feira, 2 de novembro de 2011
Absolutamente Livre
"Os desejos das pessoas são como o mundo dos mortos: sempre há lugar pra mais um" Provérbios 27.20
Lá estava ele, deitado naquela cama de motel, imaginando com que frequência trocavam aqueles lençóis, enquanto a moça que o acompanhava tinha levantado e estava trancada no banheiro, onde não se ouvia o som de água.
A tv ligada passava um eterno pornô, daqueles que devem passar em todos os motéis do mundo, sem a mínima graça ou muito engraçados, ao menos para quem tinha acabado de transar.
Pegou o controle e começou a zapear por alguns canais, até que encontrou um onde exibiam um filme que fazia tempo havia assistido, sobre a vida de Jesus Cristo numa perspectiva surreal, que de alguma maneira encaixava-se perfeitamente com aquele momento.
Deviam na época ter chamado o diretor de sacrílego pra baixo, indignados de como alguém teve a coragem de sugerir uma estória alternativa em que o Filho do Homem, vencido pela dor, se dobrava ao inimigo e abandonava a cruz.
"Será que tudo agora não passa de uma piada de péssimo gosto?"
Era como se já tivesse visto tudo que tinha pra ver, e a sensação que sobrava era de estar vivendo num mundo insípido e pasteurizado, como numa comédia da Sessão da Tarde, onde nada mais era novidade embora quisesse sê-lo, e o que chamavam de novidade na maioria das vezes não passava de cópia malfeita do produzido no passado.
E se ainda não achava que o planeta inteiro havia se tornado uma cópia retrô vagabunda de si mesmo, era porque faltavam-lhe referências.
Mudou novamente para o canal pornográfico quando ouviu o barulho da porta abrindo e a moça saiu do banheiro, esfolando nervosamente o nariz com a mão espalmada, o cartão que tinha usado para dar os tecos enfiado no cós da calcinha:
-O que estás fazendo?
-Estava esperando você sair e voltar pra cama, se tiver condições.
-Então abre outra cerveja pra mim.
Transaram de novo. Quando terminaram ela voltou ao banheiro e passou a chave. Ele teve vontade de dizer que ela poderia se drogar ali mesmo na cama, que não tinha problema, quando acabasse aquela porcaria era só ligar pedindo outra.
Embora soubesse não ser nada de mais, incomodava-o um pouco aquela garota ali trancada, provavelmente fazendo caretas pro espelho, querendo dar uma de junkie, mas que no fundo era só mais uma dessas pessoas frustradas por não saber o que fazer da vida, parecendo-se com mil coisas para no fim não ser nenhuma, que voltaria para a casa dos pais na manhã seguinte como se nada houvesse acontecido, mas com razão, afinal nada acontecera.
Lá estava ele, deitado naquela cama de motel, imaginando com que frequência trocavam aqueles lençóis, enquanto a moça que o acompanhava tinha levantado e estava trancada no banheiro, onde não se ouvia o som de água.
A tv ligada passava um eterno pornô, daqueles que devem passar em todos os motéis do mundo, sem a mínima graça ou muito engraçados, ao menos para quem tinha acabado de transar.
Pegou o controle e começou a zapear por alguns canais, até que encontrou um onde exibiam um filme que fazia tempo havia assistido, sobre a vida de Jesus Cristo numa perspectiva surreal, que de alguma maneira encaixava-se perfeitamente com aquele momento.
Deviam na época ter chamado o diretor de sacrílego pra baixo, indignados de como alguém teve a coragem de sugerir uma estória alternativa em que o Filho do Homem, vencido pela dor, se dobrava ao inimigo e abandonava a cruz.
"Será que tudo agora não passa de uma piada de péssimo gosto?"
Era como se já tivesse visto tudo que tinha pra ver, e a sensação que sobrava era de estar vivendo num mundo insípido e pasteurizado, como numa comédia da Sessão da Tarde, onde nada mais era novidade embora quisesse sê-lo, e o que chamavam de novidade na maioria das vezes não passava de cópia malfeita do produzido no passado.
E se ainda não achava que o planeta inteiro havia se tornado uma cópia retrô vagabunda de si mesmo, era porque faltavam-lhe referências.
Mudou novamente para o canal pornográfico quando ouviu o barulho da porta abrindo e a moça saiu do banheiro, esfolando nervosamente o nariz com a mão espalmada, o cartão que tinha usado para dar os tecos enfiado no cós da calcinha:
-O que estás fazendo?
-Estava esperando você sair e voltar pra cama, se tiver condições.
-Então abre outra cerveja pra mim.
Transaram de novo. Quando terminaram ela voltou ao banheiro e passou a chave. Ele teve vontade de dizer que ela poderia se drogar ali mesmo na cama, que não tinha problema, quando acabasse aquela porcaria era só ligar pedindo outra.
Embora soubesse não ser nada de mais, incomodava-o um pouco aquela garota ali trancada, provavelmente fazendo caretas pro espelho, querendo dar uma de junkie, mas que no fundo era só mais uma dessas pessoas frustradas por não saber o que fazer da vida, parecendo-se com mil coisas para no fim não ser nenhuma, que voltaria para a casa dos pais na manhã seguinte como se nada houvesse acontecido, mas com razão, afinal nada acontecera.
terça-feira, 1 de novembro de 2011
Quando Você Tentar
"His revolution, he used to say, will be a sexual one."
Como foi para ele escolher o destino que obviamente o mataria? Queria mesmo servir de alvo móvel para a artilharia manjada dos descontentes?
-Ele disse "Foda-se!".
-Quê?
-Eu falei que...
-Pôrra, isso eu escutei! Quero saber o que você está fazendo aqui! Eu te pago pra fazer o que eu mando, então volta pra lá e tenta convencer aquele bosta, seu merdinha!
-Sim, mestre...
-Sarcasmo! É por isso que eu gosto desse idiota. Vocês aí estão olhando o quê, não têm nada pra fazer? Mexam-se, vamos!
...
Ele estava sentado na areia com uma garrafa de vodka entre os joelhos, a cabeça apoiada no ombro, um cigarro que tinha queimado até o filtro na mão direita. Ressonava tranquilamente como se fosse ficar por ali pelas próximas duas horas, ao invés de se apresentar com a banda:
-Max, cê tá dormindo?
-Não enche, Bro. Tens fogo aí?
Tomou um gole de álcool, acendeu um cigarro todo amassado que tirou do bolso e deu uma baforada. Um cheiro semelhante ao de incenso tomou conta da tenda de lona que servia como camarim:
-Escuta só o som lá fora, Max! Daqui a quinze minutos a gente vai ter que encarar mais essa meu, acho bom parar um pouco de beber...
Falou aquilo da boca para fora por dois motivos: primeiro que assim ele ficava puto e bebia ainda mais, e foi o que fez. Segundo porque infelizmente sabia que ele se apresentava melhor quando estava bêbado. Só que de uns tempos pra cá vinha esquecendo as letras no meio das canções, estava se destruindo, e era pura sorte ninguém ainda haver percebido. Ou fingiam não perceber:
-Cara, no último show a gente não conseguiu mandar as três últimas, você quase desmaiou no palco, isso não pode continuar assim!
Ele olhou bem pro cara que ele aprendera a considerar como a um amigo depois de passarem por tanta coisa juntos. Levantou-se e saiu fumando, levando a vodka consigo:
-Tens razão, Bro! Eu não posso continuar com isso...
-Peraí, Max! Aonde você vai?
Bebeu até o fim, atirou a garrafa para longe e foi correndo em direção às ondas que quebravam com um marulho sinistro, apenas o brilho do cigarro aceso em sua boca, que depois desapareceu sem deixar vestígios na escuridão.
Como foi para ele escolher o destino que obviamente o mataria? Queria mesmo servir de alvo móvel para a artilharia manjada dos descontentes?
-Ele disse "Foda-se!".
-Quê?
-Eu falei que...
-Pôrra, isso eu escutei! Quero saber o que você está fazendo aqui! Eu te pago pra fazer o que eu mando, então volta pra lá e tenta convencer aquele bosta, seu merdinha!
-Sim, mestre...
-Sarcasmo! É por isso que eu gosto desse idiota. Vocês aí estão olhando o quê, não têm nada pra fazer? Mexam-se, vamos!
...
Ele estava sentado na areia com uma garrafa de vodka entre os joelhos, a cabeça apoiada no ombro, um cigarro que tinha queimado até o filtro na mão direita. Ressonava tranquilamente como se fosse ficar por ali pelas próximas duas horas, ao invés de se apresentar com a banda:
-Max, cê tá dormindo?
-Não enche, Bro. Tens fogo aí?
Tomou um gole de álcool, acendeu um cigarro todo amassado que tirou do bolso e deu uma baforada. Um cheiro semelhante ao de incenso tomou conta da tenda de lona que servia como camarim:
-Escuta só o som lá fora, Max! Daqui a quinze minutos a gente vai ter que encarar mais essa meu, acho bom parar um pouco de beber...
Falou aquilo da boca para fora por dois motivos: primeiro que assim ele ficava puto e bebia ainda mais, e foi o que fez. Segundo porque infelizmente sabia que ele se apresentava melhor quando estava bêbado. Só que de uns tempos pra cá vinha esquecendo as letras no meio das canções, estava se destruindo, e era pura sorte ninguém ainda haver percebido. Ou fingiam não perceber:
-Cara, no último show a gente não conseguiu mandar as três últimas, você quase desmaiou no palco, isso não pode continuar assim!
Ele olhou bem pro cara que ele aprendera a considerar como a um amigo depois de passarem por tanta coisa juntos. Levantou-se e saiu fumando, levando a vodka consigo:
-Tens razão, Bro! Eu não posso continuar com isso...
-Peraí, Max! Aonde você vai?
Bebeu até o fim, atirou a garrafa para longe e foi correndo em direção às ondas que quebravam com um marulho sinistro, apenas o brilho do cigarro aceso em sua boca, que depois desapareceu sem deixar vestígios na escuridão.
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