sábado, 14 de janeiro de 2012

Viagem Entre as Orelhas

        Poderia dizer que ela entrou no quarto, livrou-se da bolsa e dos sapatos, sentou na cama com as pernas cruzadas e ficou olhando pela janela a árvore do outro lado da rua, com o livro emprestado aberto em seu colo na página onde havia uma anotação à lápis.
        Poderia dizer que ela pensava em certas coisas, mas ela diria que não, pois pensava em outras. Certo é que aquela música que tocava insistente durante a última semana encontrava-se agora num volume um pouco acima do habitual. E ela, que nunca fumava em casa, acendeu um cigarro.
        Distraiu-se um pouco, "merda de vício", com o peso do livro em seu colo e a frase rabiscada que trazia tantas imagens à sua cabeça, embora continuasse mirando a mesma paisagem de todos os dias pela janela.
        Durante todos esses anos, vinte e três no total, sempre teve a certeza do que queria, o que quiseram os seus pais e o que todos queriam para ela: que fosse feliz! E agora, com o curso superior concluído e ganhando razoavelmente mal, namorando a mais de um ano a mesma pessoa, encontra esse quase estranho e cobra o livro que ele há tanto tempo havia prometido e estava devendo.
        Poderia dizer que foi por pura coincidência que o estranho tinha justamente aquele volume debaixo do braço, que ela nunca tinha ouvido falar do autor, mas se interessou muito pela estória depois que leu as orelhas.
        "-Ora bolas, é um livro que gostei muito, até rabisquei uma página na empolgação, melhor que fique mesmo com você, pelo menos vou saber que ficou em boas mãos."
        "Obrigada! A gente se vê então..."
        E agora ela vai concordar, sentada fumando um cigarro, depois de chegar até ali e ler aquela frase escutando a voz dele, como se levantasse agora e corresse para a janela, e era capaz de vê-lo passando do outro lado da rua acenando, e ela então olharia sorrindo e acenaria de volta, esperando que ele subisse no muro e entrasse no quarto, antes de apagar a luz.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Um Novo Deserto

 "Se trago as mãos distantes do meu peito
 É que há distância entre intenção e gesto(...)"


        Estavam lá sentados na grama, à sombra das árvores, como se fosse o Outono ou qualquer uma das outras três estações que pelo menos por ali não existiam.
        Pareciam de alguma forma se esforçar por aparentar felicidade: comiam, bebiam, riam, mas mesmo sentados no chão sobre toalhas ou sacolas era como se não fizessem parte daquele cenário, como se a sujeira da terra e e seiva da grama não pudesse sujá-los; como se os insetos e as formigas não pudessem andar sobre as toalhas; como se não houvessem inúmeros outros animais por ali.
        Mas era como se fosse apenas uma sensação, como se nada daquilo realmente fosse verdade, pois caso tenha realmente acontecido, caso haja um reverso da medalha, talvez seja eu que não exista, e ao invés de um observador desatento seja apenas um dos animaizinhos que os pintores piedosos costumam botar nos quadros que retratam o nascimento de Jesus na manjedoura.
        Imagine algo tão distante no tempo e no espaço, mas que perdura até os dias de hoje e pode-se dizer que vai durar para sempre, e em como todos aqueles lugares estranhos a que chegamos em cidades igualmente estranhas, vendo as pessoas de cara amarrada e os jovens com olhar de tédio, e de alguma forma sentindo como se já estivéramos ali antes, algo familiar, mesmo assim aquela dúvida fica na nossa cabeça, embora isso seja obviamente impossível.
        Imagine topássemos com um pé-de-coelho ou ferradura ou trevo-de-quatro-folhas plantado no meio do asfalto e aquilo fosse tão absurdo quanto dizer que para fazer uma praia bonita precisa além do oceano enorme e coqueiros e um sol plantado no meio do azul do céu com nuvens brancas e o som de gaivotas ao fundo, é necessário também muita areia.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Cabeça Sonâmbulo

 

        "Pairando no espaço sem corpo a que se prender a nada e alimentando-se da brisa, a cabeça pensava que pensava, mas apenas flutuava e flutuava..."


        Estava acordado durante todo este tempo mas tinha vivido como se num pesadelo de outra pessoa.
        Coisas diferentes do que estava acostumado a ver pareciam familiares agora que finalmente havia despertado, mas todas suas memórias eram como se fossem exatamente isso: o sonho que alguém conta pra você e que essa própria pessoa não tem a certeza de ter acontecido exatamente dessa forma.
        As nuvens tinham mudado de cor, não mais o cinza pálido, esfumaçado, como se da cidade numa manhã de sol verdadeiro tivesse evaporado toda poluição e o contorno dos objetos tivessem voltado exatamente para o lugar onde deveriam estar, emoldurando as cores para que estas encontrem alguma utilidade caso às vezes formem objetos.
         Os bichos, as árvores, as pessoas, os pensamentos, e tudo aquilo que ele costumava ver através de uma cortina de água, encontrava-se agora por motivos certos e sabidos aparentemente muito mais próximo da superfície.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Carnaval Inesquecível Na Cidade

   

        -Como foi que descobristes isso?
        -Bastou um pouco de boa vontade e logo percebi que a parte que mais estava à mostra do problema era a que por ironia se mostrava menos importante para solucioná-lo!
        -Como assim?
        -Mais ou menos como num filme. O problema aparecia concatenado em todos os seus pontos principais, mas que não poderiam ser compreendidos em conjunto, apenas isoladamente.
        -E daí?
        -Daí que uma questão de tamanha complexidade num projeto inicialmente tão simples tornou impossível de acreditar que alguém da equipe tivesse pelo menos conhecimento do que havia se tornado todo aquele material, e muito menos que fosse minimamente responsável pela montagem daquela obra cinematográfica, além do piano e do restante da orquestra.
        -Uma obra como a dos filmes ensaidos exaustivamente, executados ao som de profissionais tocando ao vivo como num balé sem improvisos, ou dizes-me da arte de erguer as paredes de uma construção como faz o peão-de-obra?
        -Quem sabe, se for executada com arte em prol da beleza, pode ser que se trate de obra de arte ou apenas uma casinhola chinfrim. De qualquer forma a perfeição a que se refere não poderá ser atingida em sua essência, assim como o pico da mais alta montanha jamais será atingido por diversos motivos: caprichos da natureza, falibilidade humana, erros de cálculo, ou se depois de você lá pisar um outro alpinista chega mais alto em outra montanha nunca descoberta antes e grita ha ha ha ha ha ha ha ha!!!     

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Essa Grande Figura

        Oi! Você me salvou. Sabe quantas vezes? Todas elas. E o que eu posso te dizer hoje é que essa data é mais uma daquelas que eram para ser especias, mais infelizmente não foram. Ou foram, sei lá. Você teve que voltar pra cidade onde ganha a vida, eu fiquei aqui não fazendo nem uma coisa nem outra e cá estou a hesitar, por que te dar parabéns, por que gostar tanto de uma pessoa que por força do destino, de mim e dos outros, viu-se obrigada a seguir outro caminho, viver outra vida, conhecer outros lugares? Encarar tantas mudanças em nós mesmos é incômodo para ambos.
         Eu sei que hoje não é seu aniversário de verdade, e você também sabe disso, mas só escrevi agora para você saber que eu muito me importo, e que só quero o melhor desse mundo pra sua vida, e se um dia a gente realmente ficar junto e eu puder te dar um grande abraço, com toda a força desse coração e o carinho que eu guardo pra você nesse peito que você merece, eu sei que irei às lágrimas porque eu te... Muitas Felicidades!!!

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Os Buracos de Março

 
        Depois de dois meses puxando uma cana por causa duma parada dada, Tutuca conseguiu com o juiz uma liberação graças a um excelente advogado de porta de cadeia, que deu um jeito para que esse vagabundo voltasse pras ruas e se encontrasse com outro cara que também não valia nada, o Birola:

        -Ahê Tutuca, de volta pras quebradas!
        -Pois é, Birola. E quero que tu me ajudes a fazer um serviço que eu tenho até amanhã pra pagar o "adevogado" que livrou minha cara!
        -E qual o esquema?
        -Bora ver se a gente puxa uma moto e leva pra Robauto, aí se eu pegar umas três pernas tu ficas com o resto.
        -Então tem que enquadrar no mínimo uma duzentos ou uma quinhentos...
        -Selado então, tá na mão. Pega o teu ferro que eu vou ter que ir lá na Lenita e em meia hora te encontro lá no Bilharito.
        -De rocha, Tutuca, mas bora ficar ligado...
        -Falou, o seguro morreu de velho!
        Duas horas depois, Tutuca dirigindo, Birola na garupa, corriam a mais de mil por hora atravessando todos os sinais vermelhos, fugindo de uma viatura da polícia montados na CB500 que tinham "puxado":
        -Putaqueopariu Tutuca, eles tão atirando na gente, pôrra! Acelera essa merda!
        -Mas não corre mais do que isso!
-Olhaprafrenteaíumcaminhãopáranosinalvermelhomeucaralho!!!!
                                  ...

domingo, 8 de janeiro de 2012

Segunda Tarde

         
        Sentei numa mesa encostada na parede, o mais afastado possível dos alto-falantes, que até tocavam um som maneiro mas naquele volume era foda, e pedi uma gelada e dois copos:
        -É que estou esperando alguém.
        O Donato ligou avisando que já estava no ônibus e não ia demorar nem dez minutos, a gente ia tomar umas cinco ou seis ali e depois descer pra cidade velha. A cerveja era quente como mijo e por aquele preço talvez fosse mijo mesmo, é por isso que eu desconfiava sempre e pedia pro garçom abrir a garrafa na minha frente, só pra ver se ele tirava barato:
        -Essa tá véu de noiva!
        -Ô, estou vendo... Eu me pergunto: como vocês fazem para deixar uma cerveja tão quente?
        -A gente encosta as grades no motor do freezer do lado de fora e lá dentro a gente pôe sacos plásticos cheios d'água pra fazer gelo e vender pra eventos em geral.
        -Estás falando sério que o negócio de vocês aqui é vender gelo?
        -Claro! Ou tu achas mesmo que a gente ganha dinheio vendendo cerveja quente pra um bando de manés por essa merreca?
        Por essa eu não esperava. Bom, pelo menos ele não mijava na garrafa. Quando eu já ia pedir outra daquelas estupidamente quente, uma moça que estava noutra mesa levantou-se e  veio na minha direção:
        -Olha, me desculpa, eu vi esse outro copo aqui e você deve estar esperando alguém, mas eu acho que te conheço de algum lugar, não és amigo do Donato?
        -É justamente quem eu estou esperando.
        -Nossa, que coincidência, e há um tempão que a gente não se vê! Meu nome é Maria, senta ali na mesa comigo e com a minha amiga que depois eu apresento pra ele!
        -Com prazer.
        Mais tarde o Donato chegou e conheceu a Lurdes, tomamos umas e outras e depois descemos os quatro pra cidade velha, e o outro dia foi muito bom também.