quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Derradeiro Coração


"Meu doido coração aonde vais,
 No teu imenso anseio de liberdade?
 Toma cautela com a realidade;
 Meu pobre coração olha cais! "


Ela caminhava rápido pela rua. Soluçava e tinha os olhos voltados para o chão, não queria que estranhos percebessem sua amargura. Entrou na praça, sentou-se num banco ainda segurando o choro, mas percebeu que não poderia fazer isso ali, com os papéis que levava tão bem guardados naquela caixa que ela mesma havia decorado com tanto esmero. Resolveu ligar para sua melhor amiga:
- Flávia, tú estás em casa? Posso passar aí... e começou a chorar ao telefone.
- Liza, que foi que houve, por que estás chorando? Vem logo pra cá!
Quando chegou na casa da amiga, seu rosto estava vermelho e inchado, como se tivesse apanhado de alguém. Ela entrou no quarto mas não conseguiu dizer nada, sentou-se na cama e espalhou os papéis de carta que trazia e disse apenas:
- Lê... e voltou a chorar, levando as mãos ao rosto.
Flávia começou a ler as cartinhas uma por uma, e eram muitas. Todas escritas com canetas de cores diferentes, cheias de desenhos e decalques diversos, coraçõezinhos, anjinhos, arco-íris, e tudo o mais que uma garota de quinze anos apaixonada costuma escrever para o seu amor, mas que nunca tem coragem de enviar. Ali ela contava em detalhes desde o dia em que conhecera Jorge, os meses em que passara os melhores momentos da sua vida ao lado dele, de quanto o amava e de quanto queria que ficassem juntos para sempre:
- Mas amiga, ainda não entendi! Tudo que escrevestes aqui é muito lindo, até perfumastes tuas cartas, me diz então o que aconteceu...
- Hoje a gente completou um ano de namoro, ele me disse que me amava tanto, mas eu não tive coragem de mostrar isso pra ele, ele vai me achar uma boba,  a gente fez amor e eu tô me sentindo uma vagabunda!
- Mas liza, por que fizestes isso? E a igreja? Prometestes casar virgem!
- Eu sei, mas quero muito casar com ele! Sei, sou muito nova pra pensar nisso, mas na hora ele insistiu tanto, foi tirando minha blusa, eu não aguentei e aconteceu...
E continuou a chorar. Enquanto se acalmava, com Flávia fazendo cafunés em seus cabelos loiros, consolando-a como podia. Ela pensou bastante em tudo que estava sentindo naquele momento confuso: a dor do sexo que o namorado machucara um pouco devido também à falta de experiência, pois era apenas um ano mais velho; o temor de ser mandada para o inferno por ter se entregado fora do casamento; e outra coisa que vinha lá do fundo e que nunca sentira antes, não sabia o que era, mais que foi lhe dando coragem até que decidiu o que ia fazer:
- Eu já tomei minha decisão, amiga. Amanhã no colégio eu vou mostrar todas minhas cartinhas pro Jorge, e quero que ele me diga se vai ficar pra sempre comigo!
- Não faz isso, liza, ele é só um garoto, deve estar tão assustado quanto tu, e além do mais...
Além do mais, mas isso Flávia, embora fosse sua melhor amiga não podia dizer... Além do mais, ela tinha ouvido estórias sobre a fidelidade de Jorge. Diziam às escondidas que ele traía-a com uma outra menina chamada Patrícia, que era uma garota muito fácil, que se entregava pra qualquer um, e que costumava "ficar" às escondidas com o namorado da amiga. Mas esta já tinha tomado sua decisão, estava irredutível, e no dia seguinte levou a caixa com seus sonhos de uma vida feliz ao lado de seu primeiro amor para o colégio.
Chegou bem mais cedo que de costume, e perguntou pelo namorado. Disseram que ele estava lá pra trás, e assim que ela adentrou pelo pátio onde costumava ficar com ele no intervalo, no banco escondido do lado oposto da escada que dava acesso às salas de aula, viu-o aos beijos com Patrícia.
Seus braços ficaram moles de repente. A caixinha, com todos os escritos de uma vida que acabava de começar, cai no chão e destapa-se, deixando o vento espalhar pelo cimento os restos de um coração despedaçado. O sentimento que ela sentira crescer dentro do peito desde o dia anterior, o dia em que transara pela primeira vez, e que ela não sabia o que era, agora tomava forma definida. Mudaria sua vida pra sempre dali por diante, enquanto o aroma do perfume com que aspergira os bilhetinhos ia-se perdendo aos poucos no ar da manhã:
  Tornara-se mulher.

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