terça-feira, 2 de agosto de 2011

Quando a Chuva Cessar

  Tenho porém contra ti, que abandonaste o teu primeiro amor (Apocalipse 2.4)

     Robson corria pela calçada molhada. Mirava as pisadas por entre as fissuras do pavimento de pedras irregulares, tentando se equilibrar. A chuva continuava a cair, embora os pingos cada vez mais finos predissessem para pouco o fim do temporal que se iniciara havia dois dias. Robson cada vez mais cansado, com as pernas bambas, sentia bem próximo o limite em que chegaria à exaustão, que coincidiria exatamente com o momento em que a chuva cessasse, ele sabia; a bem dizer sentia que seria assim.
  Sabia, porque tinha uma tarefa por cumprir, e seu prazo estava se esgotando.  Havia conhecido Camila através de um amigo em comum. Na verdade não, ele é quem a vira e tivera vontade de conhecê-la. Ou era ela quem tinha vindo dar-lhe uma palavra naquele dia? A cabeça cansada confundia-lhe a noção correta do tempo, sua memória sempre fora péssima, mas sabia que independente do esforço não poderia precisar exatamente o dia em que se encontraram, e talvez justamente por esse motivo  encontrava-se agora naquela situação.
                                                                       ...
Agulhas finas e transparentes perfuravam o sereno e vinham meter-se-lhe pela blusa, junto com o vento que gelava-lhe os ossos. A fadiga chegava depressa, acompanhada de uma dor semelhante a um martelo batendo em suas juntas feito um aríete. Um tremor na perna esquerda o  fez parar de correr; estacou e sentiu lancinante a fisgada a dilacerar-lhe a carne. Cãibras. Jogado no chão úmido, arfando, segurava a perna com toda a força dos braços finos, como se pudesse arrancá-la. Mas não podia tirar a jovem da cabeça...
Os olhos marejaram, a chuva agora era apenas uma garoa, os poucos transeuntes que passavam ao seu lado recolhendo os guarda-chuvas, evitavam fitar-lhe o rosto atravessado pelo sofrimento que lhe vinha das pernas, pulmões, do corpo inteiro. "Maldita hora, maldita hora em que aceitei isso, maldita..." , resmungou arquejante, a dor sumindo-se um pouco e permitindo-lhe postar-se novamente em pé. As costas da camisa, antes só respingada de lama, agora possuía uma mancha que descia-lha dos ombros até os rins.
Robson escorou-se numa parede sem reboco ao seu lado e meteu rapidamente a mão no bolso. A dor física fizera-o esquecer da importante tarefa que lhe cabia: evitar a morte de Camila. Estava a apenas vinte minutos de onde haviam combinado a entrega, apenas com uma boa corrida chegaria em tempo ali. À pedido dos sequestradores, não envolvera a polícia no caso. Com muito custo, conseguira reunir a quantia exigida pelos bandidos enquanto durara a chuva, sendo este o prazo que eles haviam determinado, que era por demais estranho. Mais estranho ainda era o fato de que a chuva fazia dois dias que não parava, o que lhe dera alguma esperança. E agora que ele finalmente tinha conseguido o dinheiro, agora que faltava tão pouco para chegar ao local combinado, Robson estava exausto. Não conseguia dar mais um único passo, seu coração arrebentava-se bombeando o sangue dentro do magro tórax. E sentia a dor da exaustão que levaria seu amor, a amargura iminente do esforço que tinha sido em vão.
                                                                           ...
Fora escolhido, pois ele nada via e obedeceria a qualquer ordem exdrúxula em sua cegueira, como aquela do resgate o mais rápido possível. Ao telefone, o delinquente dera-lhe a palavra de que nada faria de mal à Camila, marcando o local para receber o valor estipulado. "Falta tão pouco", pensou Robson, enquanto vasculhava os outros bolsos, "Falta tão pouco", pensou novamente, já sentindo o nervosismo tomar conta de si, a garganta fechando repentinamente, enquanto contraía na garganta um soluço para não deixá-lo escapar.
Então teve a certeza de que ia desmaiar. A vista nublou-se-lhe de repente, o mundo tornando-se molenga sob seus pés enquanto cambaleava, já sem saber para onde ir, perdido completamente nessa noite escura feito breu, onde enfim a chuva cessara.
   Desabou ao chão, o choro vindo-lhe agora  num espasmo só, como para mostrar a Deus a miséria e ruína em que fora atirado, sem possibilidade de algum dia vir a sair de lá . As mãos enregeladas e machucadas não paravam de tremer; trôpegas, apalpavam apêndices molhados e  vazios.
O dinheiro havia sumido.

2 comentários:

  1. Cara, que conto maravilhoso!!! Eu li e me deliciei!!! Parabens!!! Um grande abraço deste seu colega de literatura!!! Sempre que eu puder estarei aqui lendo os seus textos!!!

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  2. Parabéns pelo texto, Augusto! É um prazer conhecer teu blog.

    Ana.

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